domingo, 21 de abril de 2019

MEU PRIMEIRO CELULAR

 Há a necessidade de estarmos “antenados” com as novas Tecnologias e quando eu pensei que já tinham inventado quase tudo nesta vida surge este maravilhoso aparelhinho chamado celular.
               Quando os primeiros equipamentos apareceram por aqui em 1.997 eu tinha um velho “BIP” que utilizava para manter contatos com meus clientes de Plano de Saúde. Mas meu verdadeiro plano era sair dos “Planos de Saúde” e migrar para outra atividade qualquer e foi nesta época que surgiu a oportunidade de vender Cartões de Visita.
                Os clientes “bipavam”,eu  anotava o número e corria até um orelhão para retornar o chamado e acertar uma visita. Era muito triste estar bebendo uma cerveja bem gelada numa galeria qualquer do centro de Sampa, receber um chamado via “BIP” e ter que sair correndo para não perder o cliente e deixar o copo quase cheio sobre o balcão da lanchonete. Aquilo me deixava muito triste e eu fazia planos para adquirir um aparelho celular o mais breve possível.
                 Comecei a vender cartões de visitas para o Luis, dono de uma gráfica digital que tinha um escritório na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, bem em frente a TELESP, o que aguçava ainda mais  minha vontade de ter o tal do celular. Mas nunca sobrava dinheiro suficiente para comprar o tal do aparelho, visto que o equipamento custava muito caro. E lá eu ia seguindo com meu velho aparelhinho BIP e sempre sonhando em fazer uma boa venda de cartões para adquirir um celular, até que num determinado dia a sorte resolveu acompanhar-me e sai de casa de madrugada para oferecer meus cartões de visitas para os camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março, na antiga e surpreendente Feirinha da Madrugada.
            Lá pelas dez horas da manhã de um determinado dia já tinha vendido vários cartões e ia embora quando fui abordado por um camelô pedindo se eu poderia fazer apenas cem cartões de visita para ele, disse educadamente que só vendia múltiplos de mil, ou seja: mil, dois mil e assim por diante e ele disse que os produtos que ele comercializava eram poucos e não havia clientes suficientes para poder fazer um pedido de mil cartões. Foi então que fiz uma brincadeira com ele e disse:
- Olha amigo, só faço cem cartões pra você se você apresentar-me um próspero comerciante que faça dez mil cartões comigo.
Ele riu humildemente, colocou a mão no queixo e ficou pensativo até que inesperadamente disse:
- Pois é senhor vendedor de cartões, tenho um primo que é muito rico e vou dar o endereço dele para o senhor fazer uma visita, quem sabe ele faça alguns cartões com o senhor! Mas preciso de cem cartões!
Passei a mão no meu bloquinho de pedidos e imediatamente anotei o pedido de cem cartões para o humilde camelô. Sabia que não poderia apresentar apenas um pedido de cem cartões e tinha resolvido que iria fazer mil cartões e arcaria com o resto do custo. Coloquei o endereço do primo rico no bolso e segui meu caminho e quando estava dentro da estação São Bento do Metrô, resolvi voltar e ir até o tal do primo rico ver se conseguia mais um significante pedido de cartões de visita.
            Quando cheguei em frente ao endereço, fiquei muito surpreso, pois eu estava em frente a um shopping, peguei o elevador e apresentei-me a secretária e ela pediu que eu aguardasse alguns minutos que ela iria anunciar-me ao próspero comerciante.
             Entrei e apresentei-me ao “Primo rico” do comerciante da rua vinte e cinco de Março e ele cordialmente perguntou-me:
- Quem enviou você até aqui? E eu contei toda a história dos cartões e que ele tinha um primo que vendia alguns carrinhos de plásticos e foi exatamente aquele primo que pediu para eu ir falar com ele.
O comerciante sorriu e levantou-se da cadeira e disse:
- Onde está este querido primo que não o vejo faz anos! Dei o endereço a ele e o comerciante encomendou quarenta mil cartões para uma nova loja que ele estava inaugurando sobre artigos exotéricos.
          Como o Luis, dono da gráfica não fazia aquele tipo de cartões encomendados, procurei um amigo que tinha uma gráfica com várias máquinas no Tatuapé e ele fez os cartões.
          O dono da gráfica do Tatuapé entregou os cartões ao rico comerciante e pediu para eu passar na gráfica para receber minha comissão e ele foi logo dizendo:
- Muito obrigado pelo pedido, quanto lhe devo?
Eu zombando, brinquei dizendo que precisava de dinheiro suficiente para comprar um bom celular, pois estava cansado de tanto usar meu simples “BIP”, ele sorriu e deu uma quantia que dava pra comprar dois celulares. E lá fui eu para a região da Rua Santa Efigênia comprar meu primeiro celular. Era enorme, parecia um tijolo, pesado, mas... funcionava!
            Sai da loja todo encantado com meu celular e liguei pra todos os meus contatos e acabei com todo meu crédito. A partir deste dia andava com meu pesado celular preso a minha cinta e sempre que precisava telefonar usava-o e ficava agradecendo aquele humilde camelô que tinha proporcionado tal conforto.
            Depois muitos outros celulares eu tive, mas este conseguido com uma brincadeira serviu-me de lição: Nunca duvide de uma pessoa por sua insignificante posição social, pois ela pode surpreender você a qualquer momento, assim como aconteceu comigo e a partir deste dia passei a não duvidar de mais ninguém nesta vida. E viva o Celular! 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

ESPÍRITO DE CACHACEIRO


Eu já vinha programando minha mudança para um local qualquer, pois eu estava morando com uma irmã num bairro para poder ir comprando uns móveis velhos para mobiliar meu novo lar.
Um primo disse que existia uma casa desocupada por um preço bem acessível e resolvi espiar a tal casa. Marcamos de ir ver a casa e a priori não achei muito bom, pela localização e por ficar no pé de um morro bem íngreme, mas para quem não tinha onde morar estava mais que bom.
Acertei o primeiro aluguel com o proprietário e fiquei de mudar no final daquele mês, mas uma irmã disse para eu mudar logo, afinal já tinha pago o aluguel e nada mais justo que ir morar na casa.
Uma sobrinha prontificou-se a levar-me até a casa e lá fomos nós, com apenas um colchão e algumas roupas de cama e lá me deixaram e foram embora me largando entre quatro paredes e o colchão jogado no meio do quarto.
Olhei as paredes carcomidas, fiquei parado na porta da cozinha vazia e na minha frente existia um enorme muro que dava impressão de estar em um presídio, mas não me abalei, afinal já tinha morado em locais bem mais aterrorizantes que aquele.
Tomei um demorado banho com um pedaço de sabonete que achei jogado em cima da pia e fui para o boteco tomar umas biritas para poder acalmar a alma. Após estar semi embriagado desci o morro e estiquei meus ossos no velho colchão que estava no quarto.
E assim os dias foram passando e três dias depois recebi um dinheiro e fui pegar minha mobília que tinha comprado com tanto esforço vendendo empadas.
Os poucos pertences foram colocados dentro de uma van e a mudança aconteceu e quando chegamos a minha nova residência o motorista da van e meu cunhado deram um tchau e foram embora, largando tudo na frente da casa. Fui até uma obra e pedi para os serventes se poderiam ajudar-me e imediatamente fizeram o transporte dos velhos móveis.
Vagarosamente fui arrumando os móveis nos lugares que achava que ficariam bem posicionados e fui ao mercado comprar uma caixa de cerveja bem gelada para comemorar o novo lar.
Comprei um frango assado para poder degustar com as cervejas e assim que abria uma lata de cerveja escutava o barulho de uma garrafa sendo aberta e a tampa caindo no chão fazendo barulho.
A primeira vez fiquei um pouco assustado, mas não dei muita “bola”, pois pensei que fosse o barulho da velha geladeira ou algum aplicativo do celular sendo acionado. Abri e segunda lata de cerveja e novamente o barulho da garrafa sendo aberta e a tampinha caindo no chão. Bebi um gole de cachaça e assim foi acontecendo, abria a lata de cerveja e escutava a garrafa sendo aberta e o barulho da tampinha em contato com o chão.
Aquele dia fui dormir um pouco tonto e pensando o que estava acontecendo comigo que a partir daquele momento estava escutando barulhos estranhos, também não liguei muito e joguei a culpa nas cachaças e nas cervejas.
Os dias foram passando e eu continuei bebendo cervejas e escutando o barulho da garrafa e era até engraçado, pois de tanto escutar o barulho dizia em voz alta: E aí espirito cachaceiro não vai oferecer desta cerveja não? Ria e abria mais uma lata de cerveja e os dias foram passando e todas às vezes que bebia cervejas lá aparecia a tal da garrafa sendo aberta com a tampinha rolando no assoalho.
Certo dia conversando com um vizinho ele me disse que aquela casa onde eu estava tinha morrido um rapaz de tanto beber, e o papo continuou e comecei a refletir o porquê do barulho da garrafa sendo aberta. Era o espírito cachaceiro!
Sabendo daquele fato pedi para o proprietário da casa que queria mudar de casa urgentemente e fui atendido e a partir daquele dia na nova casa nunca mais escutei a garrafa sendo aberta e a tampinha rolando pelo assoalho. O espirito cachaceiro tinha ficado na casa mal assombrada ou foi para algum boteco perto da residência beber umas lisas

UM OFFICE BOY NA CIDADE DE SÃO PAULO NA DÉCADA DE 70

                               

 


No ano de 1971, eu era um garoto que morava na periferia, tinha quatorze anos de idade, era pobre de nascimento e tinha apenas o ginásio incompleto, então não restava-me outra alternativa a não ser começar a trabalhar para levar a namoradinha ao cinema nos finais de semana e comer cachorro quente com tubaina na padaria do bairro com os amigos Israel e Luizão.
Papai levou-me até o endereço citado no minúsculo anúncio do jornal comprado no domingo, apertou o botão do elevador, desejou-me boa sorte e foi embora.
As pernas tremiam e o suor começou a descer pela testa, estava muito quente e eu muito nervoso. Desci no 21º andar, super enjoado pelo trajeto do elevador, o coração disparado e a carteira de trabalho em branco.
Apresentei-me à recepcionista um pouco trêmulo, inseguro, bastante ansioso, mas com muita esperança em conseguir a vaga e não decepcionar Papai.
Fiquei aguardando eternos minutos ao lado de jovens apreensivos, trajando roupas simples, denunciando-os que também eram moradores da periferia o que deu-me um pouco mais de tranqüilidade.
Fui chamado pela recepcionista que conduziu-me até uma sala onde existia alguns móveis estilo colonial, muitos telefones, uma enorme pintura de eucaliptos na parede e eu diante do Sr.Rubens, gerente de uma Cia.de Seguros, um senhor obeso, aparência de pessoa seríssima, honesta e rica, muita rica.
O odor agradabilíssimo do perfume do Sr.Rubens invadia a sala, sem pedir licença ao nosso olfato. Não sabia se olhava a sala ou o Sr.Rubens, estava encantado com tanto luxo e beleza, tão desconhecidos aos meus olhos.
O Sr.Rubens pediu-me educadamente para eu sentar numa poltrona estilo século XVIII, senti vontade de deitar, tamanho era o conforto, mas mantive-me ereto e atento. Pigarreou algumas vezes e dirigiu-me um olhar perscrutador, examinando-me dos pés a cabeça, muito sério e com uma voz grossa perguntou-me se eu conhecia as ruas do centro da cidade de São Paulo. Senti o meu rosto enrubescer-se de vergonha em mentir e respondi tartamudeando em poucas palavras que conhecia todas as ruas, sem exceção.
"Ah, se ele soubesse que eu mal sabia retornar para minha casa, no longínquo bairro da Cidade A.E.Carvalho, na zona Leste!" teria perdido o emprego, com certeza.
Após algumas perguntas sobre minha vida, minha família, meus estudos e certificar-se que eu realmente precisava trabalhar para ajudar meus pais, levantou-se e dirigiu-se a um armário, abriu-o,mexeu em alguns papéis e retirou uma maleta preta, estilo 007, caminhou em minha direção e depositou-a sobre minhas pernas e pediu-me para passar na Seção de Contabilidade e retirar o valor em dinheiro referente a duas passagens e ir para o Bairro da Lapa.
Deu-me o endereço e pediu que entregasse alguns papéis num escritório de advocacia, desejou-me boa sorte e sentou-se pesadamente na sua confortável cadeira e acendeu um charuto enorme.
Agradeci, pedi licença e sai um pouco atordoado com a mistura dos odores, do perfume e do charuto, transpirando e sem a mínima noção de onde ficava o Bairro da Lapa.
Tinha conseguido o emprego !
Peguei o dinheiro com a Dona Joana, uma senhora idosa, muito simpática e amável. Peguei a maleta 007 e sai um tanto orgulhoso e fiquei aguardando o elevador e pensando como faria para chegar até a Lapa."Onde ficava a Lapa? Era longe? Seria igual ao meu querido bairro da Cidade A.E.Carvalho?". Deixei de divagações quando escutei um som e acendeu uma lâmpada verde sobre a porta do elevador, abriu a porta do elevador e o ascensorista falou com uma voz irritada: Dessssce!
Fazia um calor insuportável, parei numa banca de Jornal na Praça Padre Manoel da Nóbrega e perguntei humildemente para o jornaleiro como fazia para chegar na Rua Coreolano no Bairro da Lapa. Explicou-me que deveria pegar um ônibus que vinha da Penha e passava na Rua XV de Novembro. Era o famigerado Penha-Lapa.
Fiquei esperando o ônibus por longos minutos embaixo de um Sol escaldante. Estava maravilhado com toda aquela movimentação: carros, ônibus, pessoas passando de um lado para o outro, guardas apitando incessantemente. Olhava para os prédios, olhava para os ônibus, para as pessoas e tinha vontade de chorar. Avistei o ônibus e fiz sinal para que o mesmo parasse e quando olhei mais atentamente fiquei estupefato, parecia que transportava toda a Metrópole, estava lotadíssimo!
Entre um empurrão e outro consegui com muito esforço subir os dois primeiros degraus, a porta fechou e fiquei prensado entre a porta traseira e um senhor muito gordo e suado. Senti vontade de descer no próximo ponto, devolver a maleta 007 para o Sr.Rubens e voltar para minha casa.Pensei:"Mas o que falaria para Papai? E a vergonha de não ser capaz de conseguir o emprego? Engoli algumas salivas, passei a mão pela testa suada e odiei o gordo, o onibus,o Sr.Rubens e Papai.Era necessário conseguir o primeiro emprego custasse o que custasse, então tinha que suportar aquele "inferno".
Procurei o endereço e encontrei-o com alguma facilidade, entreguei os papéis e peguei o ônibus de volta e cheguei depois de duas horas, muito amarrotado, cansado, suado, mas muito orgulhoso e feliz por ter cumprido minha primeira tarefa. Estava torcendo para ser dispensado e retornar no outro dia. Ledo engano! O Sr.Rubens pediu-me para ir para Vila Guilherme, numa transportadora e retirar algumas apólices de seguro, fazia parte do meu teste.
Novamente perguntei ao velhinho jornaleiro como fazia para chegar ao endereço, deu-me todas as instruções, peguei o ônibus no Parque Dom Pedro II, fui e voltei em menos de duas horas.
Entreguei as apólices para o Senhor Rubens. Olhou-me aprovadamente, deixou transparecer um sorriso de satisfação, apertou-me a mão e disse-me: Parabéns garoto! você começa a trabalhar amanhã, pode trazer todos os documentos que iremos registrá-lo. Ah, não esqueça de vir de terno e gravata!
Não contive-me de alegria, não sabia se sorria ou chorava, tamanha a minha felicidade e tristeza em encarar o Penha-Lapa de novo e ainda ter que usar terno e gravata. Nunca tinha usado terno e gravata em toda minha vida!
No dia posterior, cheguei meia hora antes, abandonado dentro de um terno azul claro e gravata vermelha que tinha emprestado do meu amigo Israel com a promessa de devolver nos finais de semana para ele ir à igreja e devolve-lo definitivamente assim que recebesse meu primeiro pagamento.
Dei todos os documentos para Dona Joana e ela apresentou-me o itinerário completo dos lugares onde deveria ir. Quase chorei em pensar em pegar trinta e dois ônibus lotadíssimos como aquele Penha-Lapa. Felizmente não era somente o Penha-Lapa, existiam outros ônibus menos lotados.
Peguei o dinheiro referente a trinta e duas passagens, a maleta 007, um guia da cidade e corajosamente fui enfrentar meu primeiro dia de Office-Boy. Passei nas Lojas Americanas da Rua Direita para comprar algumas balas e doces e fui pegar a primeira condução na Praça Clóvis Beviláqua.
Meu trabalho consistia em retirar algumas apólices de seguro em transportadoras em doze bairros diferentes. Alguns bairros eram tão distantes que minha memória já não os alcançam mais.
Naquela época já existia grandes enchentes na cidade e lembro-me atravessando a Av. Brás Leme com a maleta preta 007 do Sr.Rubens sobre a cabeça, pois se deixasse molhar os documentos era demissão na certa.
No começo foi muito difícil, mas com o passar dos dias tudo tornou-se uma grande aventura. Encarava tudo aquilo como uma grande diversão e tudo era motivo para festa, pois adorava ver as pessoas andando apressadamente e era com muita alegria e entusiasmo que contava a meus amigos da escola as aventuras do cotidiano. Estudava no período noturno no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, no Parque do Carmo, em Itaquera.
Foi meu primeiro emprego e orgulhava-me em trabalhar no centro da maior cidade da América Latina. Adorava jogar Fliperama, pegar as seções da tarde nos antigos cinemas do centro, às vezes parava para observar os "cantadores", e ilustres "trovadores", Homem da cobra vendendo suas milagrosas pomadas para todas as enfermidades do Mundo na Praça da Sé e comer o tradicional sanduíche de churrasco grego no Largo Paiçandu, que ficava o dia todo rodando, rodando, assim como nós office boys daquela época.
Sentia muito orgulho em ser paulistano e foi minha primeira grande paixão pela cidade de São Paulo, depois viriam outras. Era um sofrimento gostoso, de estar sendo útil, de poder ajudar minha cidade, de ver e sentir novos lugares, novos aromas, novas pessoas, mas nenhum dia era igual ao outro, sempre tinha novidades. Imaginem que nós oficce boys chegávamos a promover um campeonato de futebol em pleno Pátio do Colégio com juiz, torcida e muita alegria. Era simplesmente maravilhoso!
Muito obrigado papai, muito obrigado Sr.Rubens, muito obrigado São Paulo por dar-me a oportunidade de tornar-me homem, responsável, destemido e acima de tudo um cidadão que aprendeu a amar essa cidade desde aquela época e continuar amando-a até os dias de hoje.

terça-feira, 16 de abril de 2019

ANJOS DO MAL X ANJOS DO BEM

 E lá estava eu vendendo minhas empadas de bacalhau pelas ruas da Vila Maria Baixa, zona norte da cidade de São Paulo embaixo de um escaldante Sol de quarenta graus centigrados.
         As vendas estavam acontecendo de uma maneira..digamos fácil, devido a proximidade da época natalina e a maioria das pessoas providas de uma “graninha” a mais pela aquisição do tão almejado décimo terceiro salário e outros benefícios do sofrido cidadão assalariado que tanto espera este momento.
         Entra em loja, sai de loja oferecendo as empadas e esvaziando minha “malinha” de “nãos” e entre um sim e outro abro a caixa de isopor e noto que sobraram apenas duas unidades das empadas.
         As dores no corpo faziam-se presentes naquele momento e procurei algum lugar para sentar e avistei um barzinho repleto de jovens animados e entre várias gargalhadas e apenas uma mesa com algumas cadeiras vazias sentei-me pesadamente para recompor minhas energias e seguir em frente e imediatamente fui abordado pelo gentil garçom:
- Pois não senhor deseja alguma “coisa”?
Levantei a cabeça e disse que não queria absolutamente nada e estava sentado ali por alguns minutos somente para recuperar o fôlego e as energias para seguir em frente com as vendas das minhas empadas.
         O garçom sorriu e disse:
- Fique bem a vontade senhor até chegar o próximo cliente.
         Abri a carteira e contei o dinheiro ganho até aquele momento e vi que existia uma quantia suficiente para degustar uma boa porção de qualquer petisco e beber uma boa cerveja.
         A mente viajava entre um “sim” e um “não” e imediatamente vi me rodeado por uma legião de “anjos” do mal sussurrando entre eles e apenas um aproximou da mesa e disse:
- Pois é querido, vai pedir a cerveja estupidamente gelada e uma porção ou vai esperar o primeiro ataque cardíaco ou Aneurisma Vascular Cerebral te pegar e te jogar em uma cama?
Olhei do outro lado da praça com a boca salivando e avistei outra legião de anjos do bem acenando e vindo em minha direção e posicionaram a minha direita apenas escutando o monólogo entre os “anjos” do mal e um anjo do bem aproximou e disse sussurrando no meu ouvido:
- Sabe Luiz, não bebe não, levanta daí e vai até aquela doceria do outro lado da avenida e compra o doce que você mais gosta, pega um ônibus e vai embora.
Várias gargalhadas ouvi dos “anjos” do mal, zombando e pulando gritavam: Doces! Não acreditamos que vai trocar várias cervejas por apenas um insignificante doce. Deixa de dar ouvidos para estes anjos corretos e alimente-se com estes momentos de prazer que estamos te propiciando.
O suor descia abundantemente pelo rosto e os jovens sorriam alegremente entre uma tulipa de cerveja gelada e outra, a visão da doceria parecia distante e entre várias hesitações ergui a mão acenando para o garçom para que viesse até minha mesa.
Toda a legião dos anjos do bem posicionaram ao redor da minha mesa fazendo uma barreira para que o garçom não aproximasse da minha mesa.
         Olhei ao redor e ouvi de um anjo do bem:
- Então quer dizer que você quer dormir na praça novamente, quer continuar a beber vários Corotes e que todos o humilhem, te pisem, te chamem de “Bêbado” dos infernos e oprimem sua alma, sua mente?
Outro “anjo” do mal interceptou dizendo:
- Manda este anjo fdp dormir no inferno, se te quer tão bem porque não o protegeu quando você estava naquele “aperreio”? Manda ver, pede logo uma Maria mole e várias cervejas para poder sentir e gozar este maravilhoso momento.
Senti minha cabeça doer e ao longe fui chamado para vender uma empada, levantei-me e fui atender uma velha senhora que comprou as duas “derradeiras” empadas e após pagar seguimos para a doceria comprar alguns doces.
         Atravessei a rua e ouvi os “anjos” do mal dizendo:
- Desta vez perdemos...mas a gente pega ele em breve.
Entramos na doceria, comprei vários doces e peguei um ônibus com destino a minha casa e ainda sobrou tempo para ver a alegria dos anjos do bem sorrindo e zombando os “anjos” do mal.
         O ônibus fechou a porta e olhei pela janela a legião dos anjos do bem acenando para mim e desejando um feliz regresso.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O IMITADOR DE GATO




Não me contive quando terminei de ler uma deliciosa crônica do querido escritor Lourenço Diferia. A descrição do escritor é perfeita e quando ele descreveu o imitador de gato imediatamente lembrei-me deste gato e se não me falha a memória parece que é o mesmo gato que sempre estava na querida e velha Praça da Sé na década de 70.
Lembrei-me que eu sempre parava na Praça da Sé quando eu era office boy numa Cia.de seguros que ficava na Praça Padre Manoel da Nóbrega para observar os artistas que por lá se apresentavam e sempre encontrava o imitador de gatos e o espetáculo era fantástico e entre os rostos atônitos de espanto e curiosidade sempre dava muito dó do bichano.
A maioria dos admiradores que assistiam ao espetáculo sabia que toda aquela encenação não era verdadeira, mas por lá permaneciam para ver as peripécias do imitador de gato com um saco todo encardido e um apito escondido dentro da boca.
A mulher chegou segurando a mão de um garotinho que insistia para que a mãe parasse para ver o que estava acontecendo e foi infiltrando no meio da multidão que se espremia ao redor do imitador de gato. Ficaram bem pertinho do artista e entre uma pancada e outra e incontáveis miados que parecia que vinha do saco encardido o povo ria sob um olhar apreensivo do garotinho.
Repentinamente o garotinho soltou da mão da mãe e saiu correndo em direção ao “torturador” do felino e tentou impedir tamanha crueldade com o gato. Chorando muito e pedindo para que o artista parasse de espancar o inofensivo animalzinho.
Todos que estavam admirando o espetáculo ficaram quietos para ouvir o que o garotinho pedia para o imitador e gato e entre soluços incontroláveis e lágrima correndo pelo ingênuo rostinho do garotinho ouvia-se:
- Para de bater neste gato, coitadinho, deste jeito você vai acabar matando o animalzinho.
O imitador esboçou um sorriso e calmamente foi até o encardido saco e mostrou ao garotinho que lá dentro não existia nenhum gato. Foi quando o garotinho disse:
- Mas eu o ouvi miar, quem miou? Foi um gato não foi? Onde foi parar o gato, será que ele fugiu?
O imitador de gato passou a mão na cabeça do garotinho e disse:
- Olha bem na minha boca, tem este assobio que eu imito os miados.
E voltou novamente a miar desesperadamente mostrando o assobio dentro da boca. Entre um abraço apertado o garotinho voltou aliviado e sorrindo ao encontro da mãe e o imitador de gato juntou seus apetrechos e foi miar em outro canto da cidade.

MINHA PRIMEIRA MÁQUINA FOTOGRÁFICA




Em 1970 eu tinha quinze anos e consegui meu primeiro emprego com carteira assinada em uma companhia de seguros perto da praça da sé. Trabalhava durante o dia no horário comercial, ou seja, das 8 horas até às 17 horas e depois ia direto terminar meu curso ginasial a noite no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, em Itaquera, São Paulo, Brasil.
Meu grande sonho naquela época era tornar-me um fotógrafo profissional e poder andar pelo mundo fotografando paisagens em lugares nunca pisados pelos homens. Desde criança tinha este espirito aventureiro e fazia de tudo para ver meu sonho realizado.
O dinheiro que eu ganhava exercendo o cargo de office-boy não era muito, mas eu ficava muito feliz com aquela quantia irrisória que ganhava no final do mês, pois ajudava meus pais com uma insignificante quantia e o resto era gasto em idas aos cinemas com minhas namoradinhas e comendo cachorro quente com tubaína com os amigos Israel e Luizão na pastelaria do bairro de Arthur Alvim.
O tempo foi passando e resolvi comprar uma máquina de fotografia para poder exercitar e poder aprender mais sobre o encantado mundo da fotografia, pois naquela época eu era um moleque cheio de sonhos e vontade de conhecer o mundo.
Na hora do almoço eu descia do vigésimo primeiro andar do edifício onde eu trabalhava e ia até o Mappin para ficar espiando as vitrines e sonhando em poder um dia comprar uma máquina de fotografia. O tempo foi passando e resolvi falar dos meus sonhos com o Senhor Rubens, gerente da companhia de seguros onde eu trabalhava para ver se ele podia adiantar o valor da máquina de fotografia e descontar do meu minguado salário.
Quando disse o valor da máquina fotográfica para o senhor Rubens ele balançou a cabeça e disse:
- Mas. Luiz, você tem certeza que deseja adquirir uma máquina fotográfica tão sofisticada assim?
Timidamente balancei a cabeça positivamente e o senhor Rubens concordou em adiantar o valor da máquina fotográfica e disse que iria descontar todos os meses um pouquinho de dinheiro até inteirar o valor total da máquina fotográfica.
A minha alegria era tanta naquele dia que não cabia dentro da perfumada sala do senhor Rubens e assim fez um vale no valor da máquina e pediu para eu retirar o dinheiro com a dona Joana que era a contadora da companhia de seguros.
Peguei o dinheiro e levei para minha casa e disse para minha mãe e para o meu pai que tinha emprestado do senhor Rubens para comprar a tão sonhada máquina fotográfica. Sorriram e aprovaram o pedido com certa ressalva, que eu não me afastasse muito de casa para fotografar tudo e todos. No sábado que sucedeu o empréstimo fui até o Mappin e comprei minha primeira máquina fotográfica e voltei para casa encantado e já no ônibus vinha lendo o manual de instrução para saber como operar a linda máquina de fotografia.
Passei a tarde toda lendo o manual de instrução e tirando as primeiras fotos. A primeira foto pedi para minha família que reunisse e ficassem bem pertinho para serem fotografados. Entre risos e o primeiro “clic” o meu sorriso de satisfação podia ser ouvido a quilômetros de distância.
Comprei um filme de trinta e seis poses, então poderia tirar trinta e seis fotos e a seleção das fotos era eu que fazia sem nenhum critério, apenas observando o que era belo. Naquela época era minha família, plantas, árvores, animais de estimação, crianças e principalmente a cidade de São Paulo que tanto eu amava.
Não demorou muito e eu já tinha tirado, batido, clicado as trinta e seis fotos e fui logo levar para dona Matilde que tinha uma lojinha perto de casa para poder revelar as fotos.
Assim que recebi as fotos percebi que eu estava muito longe de ser um fotógrafo profissional, pois várias fotos queimaram, outras saíram tremidas, embaçadas, enfim um desastre minha primeira seção de fotos e foi quando eu resolvi matricular em um curso de fotografia para iniciantes.
E assim todos os sábados lá estava eu sentado ao lado de mais alguns garotos e alguns senhores aprendendo o encanto e a magia do mundo da fotografia.
Passados alguns meses eu já dominava as técnicas de manejo da minha máquina de fotografia e foi quando resolvi fazer um álbum de fotografias de plantas que tanto amava e amo até hoje.
Minha mãe naquela época lavava as nossas roupas em uma mina de água perto de casa e pedi a ela se podia acompanha-la até a mina, pois necessitava fazer algumas fotos para levar para minha professora de botânica.
Cuidadosamente coloquei a máquina no pescoço através de uma cordinha, peguei o enorme cesto de roupas e descemos a rua rumo à mina. Era uma verdadeira festa quando minha mãe se encontrava com outras lavadeiras da mina e assim que chegamos comecei a procurar as primeiras plantas aquáticas para poder fotografar. Tinha que ajustar o ângulo, sombreamento, distância e outras dicas que o professor de fotografia tinha passado nos últimos três meses.
Os cliques misturavam-se com algumas poucas palavras das lavadeiras e algumas cantigas entoadas e o barulho de roupas sendo batidas numa enorme madeira que ficava ao lado da mina.
Às vezes mirava às lentes da minha máquina em direção as lavadeiras dizendo que ia tirar uma foto para guardar de lembrança e algumas lavadeiras tímidas cobriam o rosto com as mãos.
Passei a tarde toda tirando fotos de plantas, árvores, do lago, da mina e algumas das lavadeiras e a fomos embora cheio de alegria.
Na semana seguinte que tirei as fotos levei para revelar e quando fui retirar as fotos o coração parece que batia mais forte de tanta emoção.
Quando cheguei à minha casa sentei-me no carcomido sofá e comecei a ver as fotos que tinha tirado e cada foto que tinha sido tirada com perfeição eu dava gritos de alegria que até assustavam todos da minha família.
Montei o álbum com as fotografias e levei para minha professora de biologia para ver e foi quando ela perguntou quem tinha tirado aquelas lindas fotos e quando eu disse a ela que tinha sido eu ela não acreditou e disse para eu seguir em frente que iria ser um grande fotógrafo. Quanto orgulho e alegria senti naquele dia, meu primeiro elogio que me lembro até hoje quando tiro algumas fotos.
O tempo foi passando, passando e eu cada dia mais interessado em aprender mais sobre fotografia e fazendo lindas fotos de lugares inusitados, festinhas de crianças, aniversários, casamentos, dias comemorativos e tantos outros eventos.
Hoje não sou fotógrafo profissional, apenas tenho a fotografia como hobby e aonde vou levo minha máquina fotográfica para tirar algumas fotos e poder guarda-las para mostrar para a posterioridade.


LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...