quinta-feira, 24 de setembro de 2020

LÁPIS DE COR

 

      Naquela manhã do rigoroso inverno de 1962 parecia que o mundo ia acabar, o céu estava muito escuro, prenunciando um enorme temporal. A luz da cozinha foi acesa, ouvi  barulho de água da torneira enchendo uma chaleira e o barulho de alguns fósforos sendo acesos, era mamãe que sempre levantava bem mais cedo do que todos nós para fazer os preparativos para o café matinal.

     O barulho incessante do vento assoprando ruidosamente lá fora, fazia-me encolher na cama e sentir um pouco de medo do fim do mundo, que naquela época já existia alguns profetas anunciando que iria chegar. Pensava que aquele dia seria realmente o final e tudo estaria acabado. Nunca mais poderia jogar a minha querida bola de capotão com papai que ganhara no Natal, não poderia mais brincar com meus coleguinhas de “mão na mula”, bolinha de gude, rodar pião, pega-pega e outras brincadeiras da época, sentia-me muito triste em ter que partir não sabendo pra onde, realmente não estava preparado para o fim do mundo.  O passarinho do relógio cuco anunciou seis cantos, eram seis horas. Papai levantou e dirigiu-se ao banheiro para sua ablução matinal, eu encolhi-me na cama um pouco mais e fiquei esperando ser chamado por mamãe para ir à escola.

      O cheiro agradabilíssimo de café coado por mamãe invadia todos os cômodos da casa e coloquei-me de pé rapidamente. Assim que papai saiu do banheiro eu entrei para tomar banho e fiquei imaginando irmos para escola sob aquele temporal que não demoraria muito a desabar. Mamãe apressou-me com alguns toques na porta, saí e sentei-me preocupadíssimo a mesa para tomar café com rabanadas que papai tanto apreciava. Naquele dia eu estava muito introspectivo, calado, sério e todos notaram, mas continuaram a falar do cotidiano sem fazer comentários a meu respeito.

          Papai deu um beijo na mamãe, um beijo na minha testa e saiu apressado para o trabalho debaixo de alguns pingos que começara a cair. Logo em seguida eu e mamãe saímos para a escola. Iria ter aula de desenho e a professora Judite deixou bem claro que quem não trouxesse lápis de cor não entraria na sala.

      Chegamos na escola sob um forte temporal que começara a cair e mamãe abriu minha mochila para ver se tudo estava certo, se não faltava nenhum material escolar e repentinamente franziu a testa e fez uma cara de espanto e disse que eu tinha esquecido a caixa de lápis de cor. Minha reação também foi de espanto, pois tinha colocado os lápis na minha mochila e não sabia quem tinha tirado de lá. Comecei a chorar baixinho e mamãe acalmou-me passando a mão no meu rosto e dizendo que iria pegar os lápis em casa e voltaria rapidamente.

         Entrei no pátio da escola, procurei os alunos da minha classe, entrei na fila, cantamos o Hino Nacional e dirigimo-nos a sala de aula sob a supervisão da professora. Sentamos todos educadamente, a professora fez a chamada e logo em seguida distribuiu os desenhos que seriam pintados naquela aula. Quando ela percebeu que eu não tinha lápis de cor, pediu gentilmente que eu aguardasse mamãe do lado de fora da sala de aula.

       Saí morrendo de vergonha e fiquei perto da porta aguardando eternos minutos o retorno de mamãe. Foram momentos de angustia, perplexidade e medo. Às vezes colocava o rosto numa pequena janelinha da porta e via todos os alunos pintando alegremente e eu ali do lado de fora aguardando o lápis de cor. O vento gélido no corredor, o barulho do trovão e os raios apavoravam-me e eu comecei a rezar baixinho para que aquele momento cessasse o mais breve possível.

            Avistei mamãe no final do corredor e corri até ela com os olhos marejados, mamãe entregou-me a caixa de lápis de cor, beijou meu rosto e pediu carinhosamente que eu entrasse na sala de aula rapidamente.

       Pedi licença para professora para entrar na sala e amaldiçoei-a mentalmente até chegar na “carteira escolar”. Sentia-me culpado por ter feito mamãe ficar toda molhada e eu comecei a pintar o desenho que acabou todo borrado por alguns pingos de lágrimas de arrependimento e só então descobri o verdadeiro amor que uma mãe nutre por um filho em todas as fases da vida.

            Naquele dia chegando em casa dei um apertadíssimo abraço em mamãe e pedi a ela “mil desculpas” e vários perdões. Ela sorriu angelicalmente e disse que não fizera mais que uma obrigação de mãe. Não me contive novamente e deixei rolar algumas lágrimas pela face. Deixei a mochila no sofá e fui almoçar, refletindo muito sobre o ocorrido e prometendo que quando soubesse escrever contaria esta “História”. Passaram-se somente cinquenta e oito anos e o sonho acaba de concretizar-se, consegui escrever. Tá escrito. Lápis de Cor.

 

O CIRCO DA PERIFERIA

 

       

O que poderia existir de mais belo que a chegada de um circo na periferia da cidade de São Paulo na década de 70? Absolutamente nada era mais belo e emocionante para nós adolescentes moradores no querido bairro Cidade A.E.Carvalho, zona leste da cidade de São Paulo.

     Quando aquelas carretas enormes e multicoloridas passavam na Avenida Campanelas e estacionavam em frente à Praça Ana das Dores, "a pracinha", nossos corações disparavam de alegria e os corações de nossas mães disparavam de aflição, pois, sabiam que seria quase que impossível segurar seus filhos em casa.

     A molecada chegava sorrateiramente, perscrutando o local e os trabalhadores braçais com perguntas tolas, tais como: como é o nome do circo? Quando irá estrear? Tem bichos? Qual é o nome do palhaço?

     Os trabalhadores bem mal-humorados e suando muito se restringiam a dar respostas curtas, sempre tirando enormes tábuas dos caminhões, empurrando ferros, esticando lonas, sem parar e sem olhar para cara de ninguém. Nós “xeretando” aqui e ali e lá estavam os artistas dentro de um enorme “trailer” lanchando tranquilamente e rindo alto, denunciando que estavam muito felizes. Os dias iam passando e o circo ia sendo montado, dia e noite de trabalho e após dois ou três dias o mesmo já estava montado. Lindo, majestoso, imponente! Mudando toda a paisagem da pracinha.

     Eis que chega o grande dia da estreia e nota-se uma enorme placa com os dizeres: Grande Estreia! domingo às 15 h o circo Cigano convida você e sua família para assistir o maior espetáculo da Terra! Acontecia duas sessões, às 15 h e às 20 h e sempre íamos nas duas sessões, sendo que na segunda sempre levávamos nossas namoradinhas.

     Alguns alto-falantes eram esparramados pelo lado externo do circo e tocavam várias músicas orquestradas, Carlos Gonzaga com uma música chamada Diana e várias músicas de Roberto Carlos.                       Entre pipoqueiros, vendedores de algodão-doce esparramava-se nossa Felicidade.

     Segurando a mão da minha namoradinha comprava os ingressos e um enorme saco de pipocas e entrávamos vagarosamente, prestando atenção em tudo e em todos. Sentávamos na arquibancada feita de madeiras, bem lá no alto e ficávamos aguardando ansiosamente o início do espetáculo.

     Várias crianças corriam para lá e para cá e várias gargalhadas eram ouvidas dentro do camarim. Repentinamente a música cessava, abriam-se as cortinas e entrava o apresentador trajando um "flaker" preto e com uma voz rouca anunciava-se o início do espetáculo, sempre agradecendo nossa presença.

     O apresentador saia do palco, anunciando dois palhaços que entravam dando piruetas e muito tapas, caiam e levantavam-se constantemente, levando o público ao delírio de tanto rir.

     Aplausos e mais aplausos misturavam-se com gargalhadas e alguns assobios. Nossos corações ficavam disparados quando as trapezistas começavam a subir uma escada feita de corda, o silêncio era total até que elas se posicionavam lá no topo e começavam-se a balançar sem parar até que uma delas lançava-se no ar indo segurar a mão da outra. Sentia as mãos da minha namoradinha toda trêmula e suadas, encostávamos nossos corpos em sinal de apreensão e medo, batíamos palmas nervosamente e ficávamos aliviados quando tudo terminava. E novamente lá estavam os palhaços estapeando-se e risos, e gargalhadas ecoavam ao longo do circo. O espetáculo não durava mais que duas horas, mas para nós parecia que eram apenas alguns minutos. Ficávamos muito tristes quando os artistas despediam-se se curvando elegantemente para agradecer sob muitos aplausos e assobios.

     Fechavam-se as cortinas e nossos corações ficavam pequenininhos, era hora de voltar para casa comentando as principais atrações e combinando voltar no próximo final de semana para assistir o maior espetáculo da Terra. O circo, o circo da Periferia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

BAÚ DE HISTÓRIAS



Saudades de um pequeno baú que ganhei da minha querida avó materna Leodovina quando eu tinha seis anos. Um pequeno baú feito totalmente em madeira, com um minúsculo cadeado e uma chave bem pequenininha.

Quando completei seis anos minha avó deu o bauzinho de presente para mim, desejou feliz aniversário, alguns beijos e disse: Parabéns, querido netinho Luiz Carlos, este bauzinho é para você guardar todos os seus sonhos quando você crescer e quando eu não estiver mais presente neste mundo lembrará de mim com muito carinho.

Peguei o pequeno baú, esbocei um sorriso, dei um abraço na minha avó e fiquei a imaginar: “Poxa! para que serve um baú? Tão pequeninho, não cabe nem minhas bolinhas de gude, minhas figurinhas!” Guardar meus sonhos? Naquele exato momento não via nenhuma utilidade para o pequeno baú.

Quando completei sete anos comecei a vender alguns pirulitos que minha mãe fazia, pelas ruas próximo da minha casa no bairro Ponte Rasa, zona leste da cidade de São Paulo e todo o dinheiro arrecadado guardava no meu bauzinho, trancava cuidadosamente com um pequeno cadeado e escondia a chave dentro da minha caixinha de lápis de cor, com o dinheiro ganho com o fruto do meu humilde “trabalho” comprava algumas balas, algumas bolinhas de gude e se sobrasse algum dinheiro adquiria alguns envelopes de figurinhas para preencher meu álbum El Cid.

Aos nove anos o senhor Heitor, amigo do meu pai, fez uma caixa de engraxar sapatos e eu fui engraxar sapatos na frente da minha casa no bairro Ponte Rasa, zona leste da cidade de São Paulo e lá estava o bauzinho ganho da minha avó recebendo as poucas moedas que seriam gastas em folhas de papel de seda, varetas, cola para confeccionar minhas primeiras pipas.

Por algum tempo o pequeno bauzinho ficou repousando entre os meus objetos que eu possuía sem exercer nenhuma atividade e quando chegou minha adolescência, aos catorze anos conheci minha primeira namorada que adorava escrever cartas de amor.

Quase todas as semanas eu recebia uma carta de amor da minha querida namorada e não sabia onde poderia guardá-las e foi aí que novamente meu pequeno baú entrou em ação.

Todas as cartas de amor que eu recebia eu colocava dentro do bauzinho, trancava e escondia o mesmo dentro do meu guarda-roupas para que minhas irmãs não lessem.

Já com dezesseis anos comecei a frequentar um clube popular chamado Centro Educacional da Moóca e todos os sábados eu ia tomar um banho de piscina e arejar a mente do estafante serviço de office-boy no centro de São Paulo e sempre levava meu bauzinho repleto de cartas de amor guardadas com muito carinho e entre um mergulho e outro na piscina abria cuidadosamente o pequeno baú, retirava uma carta a esmo e começava a lê-la e viajar no tempo.

Até eu completar vinte e um anos meu pequeno baú serviu para guardar vários objetos de valor: relógios, anéis e alguns documentos que eu julgava ser de valor.

Comprei um lindo par de alianças de ouro e guardei cuidadosamente no meu pequeno bauzinho até o dia do meu noivado e quando chegou o dia de ficarmos noivos, abri cuidadosamente meu pequeno baú, retirei as alianças, fechei-o e coloquei o mesmo dentro do meu guarda-roupas e segui para a casa da minha namorada, entrei sorrateiramente e coloquei delicadamente a aliança no dedo da minha namorada que estava dormindo e quando ela acordou, pedi para ela olhar para a mão direita e perguntei se ela estava feliz. Um carinhoso abraço e um demorado beijo surgiu como resposta.

O tempo foi passando e lá estava meu bauzinho repousando dentro do guarda-roupas e foi quando minha noiva completou vinte anos e comprei uma linda caneta tinteiro banhada a ouro na Rua sete de Abril, no centro da cidade de São Paulo e pedi para o pessoal da loja onde comprei a aliança gravar o nome e a data  do aniversário da minha noiva, cheguei em casa, abri o baú e coloquei a caneta e lá a mesma ficou até o dia do aniversário da minha noiva quando dei de presente no dia do aniversário.

Casamos e no dia do nosso casamento dei o bauzinho de presente para minha noiva e quando ela abriu o mesmo e encontrou uma pequena chave e uma carta ficou muito surpresa e começou a ler a carta e as lágrimas começaram a surgir nos olhos da minha querida esposa. Dobrou cuidadosamente a carta, colocou-a dentro do bauzinho me deu um caloroso e apertado abraço e disse:

Que lindo este presente! Então quer dizer que você comprou uma casa para nós construirmos nosso lar?

Após o casamento não tive mais acesso ao Baú de histórias, pois o mesmo pertencia a minha esposa e todas às vezes que acontecia algo de bom ela vinha com o bauzinho depositava no meu colo e dizia:

Abra-o, aí está mais um presente para você meu querido.

Abri o baú e lá estava a chave do nosso primeiro  carro que ela tinha comprado em uma agência do bairro do Tatuapé.

Às vezes eu perguntava se ela estava cuidando bem do bauzinho e ela sorria e  falava que sim até o dia em que veio sorrindo angelicalmente e pediu para eu abrir o bauzinho e quando abri o mesmo e retirei o  resultado do exame de gravidez, abracei-a entre lágrimas e disse alegremente:

- Você está grávida sua linda! E ela respondeu: Sim, sim e acredite tentei fazer surpresa para você e consegui.

Naquele dia comemoramos bebendo um bom vinho com uma tábua de frios sob a luz de velas e decidimos dar o bauzinho para nosso filho que iria nascer e contar toda a história do Baú para ele. Meu filho ficou com o baú seguindo toda a tradição da nossa família e recentemente deu de presente para minha neta o pequeno Baú com a seguinte lembrete: Guarde e zele muito bem por este bauzinho que seu avô ganhou quando ele era criança. Dentro deste baú passou uma vida, a vida da nossa família.

 


terça-feira, 22 de setembro de 2020

MAPPIN

  


 E assim que desembarcou na antiga rodoviária da estação da Luz, dentro do ônibus observou uma grande movimentação de pessoas que passavam rapidamente com enormes malas pra lá e pra cá.
        O motorista abriu o grande compartimento que ficava na parte debaixo do ônibus, colocou as enormes malas do senhor João no chão, conferiu o bilhete e fechou rispidamente o enorme “maleiro” e disse:
- Felicidades e muito sucesso nesta grande metrópole!
O senhor João, sua esposa Maria e os seis filhos pequenos pegaram as enormes malas e saíram silenciosamente pelas ruas da redondeza da rodoviária sem destino, entraram num pequeno boteco e pediram alguns pastéis e duas tubaínas e lá ficaram a degustar os pastéis e olhando toda aquela movimentação da rua com muito receio da grande metrópole chamada São Paulo.
        Após saciarem a enorme fome de todos, saíram silenciosamente olhando para o chão enquanto as crianças admiravam com muita alegria e ansiedade tudo e todos.
        Embarcaram em um ônibus lotadíssimo com destino a zona Leste de São Paulo onde poderiam rever um compadre que tinha vindo para a cidade há muitos anos e prontificou-se a recebe-los até que arranjassem um pequeno cômodo por lá mesmo, um emprego e a vida pudesse ganhar o seu rumo na grande cidade.
        Durante o café da manhã o compadre disse ao senhor João:
- Olha compadre, vocês podem ficar aqui na nossa humilde casa morando conosco até “aprumarem” e depois que conseguirem um pequeno cômodo por aqui mesmo, tenho um pequeno serviço para o senhor.
O senhor João olhou para o compadre e foi logo perguntando:
- Mas que tipo de serviço eu poderia fazer se só sei capinar roçado, cuidar de gado e cortar lenha?
O compadre foi logo explicando que conhecia um senhor que trabalhava numa agência de publicidade e sempre estava precisando de pessoas para carregar algumas placas com propagandas pelo centro de São Paulo.
O senhor João um pouco receoso perguntou:
- Mas, Compadre, será que eu sirvo pra este tipo de serviço? Afinal nem ler e escrever eu sei!
- Ora compadre, é só carregar a placa pra lá e pra cá e ficar orientando o pessoal para ir até a loja, muito fácil o serviço e nem é necessário ser “letrado”.
        No outro dia lá estavam os compadres descendo do ônibus no centro da capital paulista e entrando numa agência de publicidade e o senhor João foi apresentado para um senhor obeso que fez algumas perguntas para o senhor João e alguns minutos depois lá estava o senhor João em frente a uma grande loja de departamentos chamada Mappin.
        Após algumas orientações do senhor obeso o senhor João foi “abandonado” em frente ao Mappin com uma enorme placa que cobria todo o seu esquelético corpo e seguiu entrando pela rua Sete de Abril com destino a Praça da República.
        O senhor João muito apreensivo andava pela praça toda e sempre o seu olhar parava naquela enorme loja de departamentos chamada Mappin e então ele ficava imaginando o que poderia ser encontrado naquela linda e majestosa loja com um enorme relógio, muitas letras que ele não conseguia identificar por não saber ler.
        Pessoas passavam apressadas e a maioria nem parava para observar a insignificante presença do senhor João e no finalzinho da tarde quando uma enorme chuva fez todos encostarem embaixo de enormes toldos o senhor João coçou a enorme barba e ficou com muita vontade de entrar naquela linda loja.
        O senhor obeso apareceu e depositou uma quantia em dinheiro na mãos do senhor João desejou uma boa noite e pediu que na manhã seguinte estivesse no mesmo lugar em que estivera naquela manhã e saiu apressado pelo viaduto do Chá.
        O senhor João parou em frente a grande loja e decidiu entrar e vagarosamente atravessou o andar térreo repleta de pessoas olhando tudo e ficou a imaginar na grandiosidade daquela cidade e foi andando entre alguns esbarrões parou diante de uma enorme vitrine que vendia brinquedos e humildemente perguntou quanto custava aquela pequena bonequinha com um lacinho na cabeça, a vendedora muito atenciosa disse o preço, o senhor João enfiou a mão no bolso da carcomida calça e retirou a quantia exata para adquirir aquela linda bonequinha para levar para sua filhinha caçula.
        Chegou em casa após duas horas dentro do sufocante ônibus, entrou sorrateiramente e depositou a bonequinha ao lado da filhinha que já estava dormindo, tomou um banho e foi dormir ao lado da esposa e ainda teve tempo de dizer sobre o presentinho que tinha comprado na grande loja chamada Mappin.

        Adormeceu muito feliz com a imagem da grande loja de departamentos na cabeça e o rostinho de felicidade da filhinha no dia posterior quando iria ganhar a linda bonequinha comprada no Mappin.
  

        

        

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

ANJOS DE SAMPA


A ideia surgiu do amigo Marcelinho durante uma reunião numa churrascaria na Vila Maria Baixa.
Entre vários pedaços de carnes assadas o querido amigo sugeriu que talvez fosse muito gratificante ajudar alguns moradores de rua, fornecendo roupas e comida para este pessoal que tanto necessita de comida, carinho e atenção.
Marcamos um novo encontro e imediatamente colocamos na rede social (Facebook) que estávamos arrecadando roupas de todos os tipos e mantimentos para darmos aos moradores de rua e na primeira semana de janeiro as primeiras roupas e mantimentos começaram a ser arrecadadas e ficavam armazenadas no meu quarto, que seria a central de armazenamento das roupas e mantimentos.
A semana foi passando e a Rosana, tia do Marcelinho disse que poderia preparar os marmitex e assim os alimentos também começaram a chegar: arroz, feijão, óleo e todos os tipos de alimentos que seriam utilizados para o preparo dos marmitex.
Tínhamos definido um dia para sair e entregar as roupas e os marmitex para o pessoal morador de rua: seria,17 de janeiro de 2013.
Lá pelas sete horas da noite, distribuímos todas as roupas pelos dez carros que comporia a caravana da solidariedade e fomos pegar os marmitex na casa da Rosana no Jardim Brasil e assim que tudo estava arrumado, lá pelas dez horas da noite, rumamos muito feliz para o metrô Santana para entregar os primeiros marmitex e roupas. Paramos os carros e imediatamente o pessoal morador de rua começaram acanhadamente a chegar e escolher algumas peças de roupas e receber o marmitex. Agradeciam e saiam humildemente e iam sentar-se num canto qualquer para comer a única refeição do dia, com a cabeça baixa e olhares perdidos na imensidão de pessoas que passavam rapidamente sem olhar para ninguém.
Num determinado instante quando eu estava parado distribuindo os marmitex para o pessoal, apareceu um rapaz e após receber a comida disse:
- O Du, você não se lembra de mim não?
Um pouco envergonhado em não reconhecer o rapaz disse:
- Você me desculpa amigo, mas não estou reconhecendo você não!
Ele com os olhos cheios de lágrimas disse:
- Pois, é amigão, estudamos juntos, éramos colegas de classe, lembra-se?
Após alguns minutos tentando lembrar-me do rapaz, consegui recordar e dei um fraterno abraço no querido amigo da escola e ele contou-me como tinha ido parar na rua e aquilo me deixou muito triste e emocionado, mas continuamos nosso caminho e fomos até o Mercadão Municipal e lá entregamos mais alguns marmitex e seguimos direto para Praça da Sé, onde existem muitas pessoas em condição de morador de rua.
Chegamos na Praça da Sé, sob uma linda lua que iluminava toda a praça e com todo o nosso trabalho de ajudar o próximo e paramos os carros ao lado da catedral da Sé e anunciamos que tinha muitos marmitex pra todos e foi um corre-corre danado e logo se formou uma grande fila para retirar os marmitex que foram consumidos em menos de uma hora. Pegavam os marmitex e sentavam-se nos bancos da Praça e ficavam comendo humildemente foi quando chegou uma garota que estava com uma enorme barriga e disse que queria um marmitex e eu disse:
- Querida, sinto muito, todos os marmitex foram distribuídos e não restou nenhum.
Imediatamente um morador de rua apresentando muita fome deu o seu marmitex para a garota grávida e disse:
- Olha moça, pode comer o meu marmitex, afinal você está grávida e necessita dar comida para o seu filhinho, depois eu me viro.
Aquele gesto cortou meu coração, meti a mão no bolso e dei um dinheiro para o morador de rua comer um marmitex num restaurante da Praça.
A alegria de ver todo aquele pessoal comendo e escolhendo algumas roupas nos carros é indescritível e assim que todas os marmitex acabaram, pedimos a todos que déssemos as mãos e orássemos o Pai-Nosso e agradecêssemos a Deus aquele momento maravilhoso.
Uma grande roda de pessoas que receberam a comida e as roupas foi formada na Praça entre nós participantes e assim que a oração terminou, um participante morador de rua pediu a palavra e disse:
“Em uma roda de oração se abrirmos os olhos e olharmos para o lado veremos que somos todos iguais perante a Deus”.
Os carros foram ligados e estávamos saindo da praça foi quando ouvimos de um morador de rua falar: “Se existe Deus de milagre, faz meu milagre acontecer”.
Lentamente os carros foram saindo da Praça da Sé e fiquei em grande silêncio agradecendo a Deus por participar deste ato de solidariedade que com certeza foi abençoado por Deus.
Ainda tivemos tempo de parar na Padaria Rossi na Vila Maria Baixa para comermos alguns lanches e agradecer a Deus mais uma vez este lindo ato de amor ao próximo.
Agradeço de coração a todos que partiparam deste ato de amor, que foram: Leonardo Martins, Milla, Fernanda, Diego, João, Marcelinho, Serjão, Nino, Volnei, Felipe, Rosana (nossa querida cozinheira), a namorada do Felipe, a sobrinha do Felipe, Carine, Matias, Rebelde e a todos que forneceram roupas e direta ou indiretamente ajudaram a amenizar a dor deste pessoal tão necessitado que são os moradores de rua. Deus abençoe a todos! Muito Obrigado!
Carlos Eduardo Martins de Aquino (Du)

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O TROPEIRO

 


Das poucas lembranças que ainda guardo do meu querido avô paterno José Raimundo da Silva era quando estávamos sentados ao redor de um fogão à lenha numa casinha feita de barro na cidade de Salesópolis, interior da cidade de São Paulo.

Durante as minhas férias minha mãe e meu pai permitiam que eu ficasse alguns dias naquele paraíso. Eu era garoto de dez anos e adorava quando eu pedia para meu avô contar histórias do passado e ele a princípio não gostava muito, pois, meu avô era de pouca prosa, mas de tanto eu insistir ele arriscava algumas poucas palavras.

Eu era muito curioso e as perguntas eram constantes e às vezes sentia que meu avô ficava um pouco zangado durante a enxurrada de perguntas e quem vinha ao socorro era minha avó Maria, esposa do avô Raimundo interferia na conversa e dava a versão dela a pergunta feita. O que eu gostava mesmo de perguntar era a origem, como moravam, onde trabalhavam e sentia que meu avô sentia-se um pouco envergonhado de falar da onde ele veio.

De tanta insistência acabei descobrindo que meu avô tinha sido tropeiro e eu na época nem sabia o que era tropeiro e foi então que olhos do meu avô brilhavam e ele começava a relatar em poucas palavras como era a vida de tropeiro quando ele era jovem.

O grande comércio de muares era realizado na cidade de Sorocaba, interior da cidade de São Paulo e meu bisavô e a peãozada saiam de Mogi das Cruzes e iam tocando os bois, cavalos e mulas com destino a Sorocaba para vender os bois, as mulas e fazer algumas trocas. As mercadorias, a tropa pertencia a um rico fazendeiro que enviava um homem com a peãozada para negociar em Sorocaba.

Demorava uma semana para atravessar as 47 léguas, aproximadamente 200 quilômetros que separavam as duas cidades e o caminho era de grande dificuldade, pois, tinham que atravessar rios e encarar o difícil caminho. Andavam durante o dia e a noite montavam os ranchos que era uma enorme lona onde a peãozada fazia as comidas que levavam: carne seca, farinha, toucinho, café, açúcar, fubá e pimenta-do-reino. O fogão onde eles preparavam as comidas era improvisado e quando chegavam o peão que era encarregado de cozinhar já construía o fogão em três pedras grandes em formato de um triângulo ou colocavam três varas em pé e acendia o fogo com lenha obtida no meio do mato.

Após relatar a ida de Mogi das Cruzes até Sorocaba meu avô falava que ele não chegou a fazer este trajeto e sim o pai dele que fazia.  Meu avô tinha sido tropeiro, mas apenas conduzia os animais de uma fazenda até outra fazenda.

Assim que meu avô disse que ele não tinha feito o caminho de Mogi das cruzes até Sorocaba fiquei um pouco triste, mas optei em não interferir para não quebrar o encanto da narrativa e tentar arrancar mais algumas palavras do meu avô.

Como eu sempre gostei de mato, de roça ficava imaginando o tanto quanto seria legal estar com eles nesta maravilhosa e sofrida viagem, colocava as mãos no queixo e ficava atento ao resto da narrativa.

Desarreavam os cavalos e deixava eles pastando enquanto alguns armavam suas redes, outros dormiam em esteiras ao redor da grande fogueira que faziam para espantar os animais que porventura se aproximassem.

De vez em quando meu avô parava de falar e ficava pensativo mexendo no tição do fogão à lenha e o silêncio me incomodava e eu fazia outra pergunta:

— Vô, vocês levavam suas mulheres e filhos para viajar com vocês?

Meu avô sorria e balançava a cabeça negativamente, economizando palavras e eu aceitava aquela vazia resposta e pedia ajuda para minha avó tentar fazer ele contar mais um pouco da história.

Após alguns minutos meu avô nos abandonava e saía um pouco para o grande quintal para dar milho para as galinhas e eu ficava imaginando o quão sofrido devia ser aquela longa viagem.

Depois de muito tempo conversando com meu pai José da Silva soube que meu avô morou muito tempo no bairro da terceira em Biritiba Mirim e em outra época morava perto do rio itapanhaú onde plantavam bananas e meu avô ia comercializar em Bertioga. Ia a pé com vários cachos de bananas e ainda levava meu pai em cima dos cachos de bananas, realmente ele era muito forte, falava meu pai.

Era hora de voltar para minha casa, pois, minha mãe tinha ido me buscar e durante a longa viagem de Salesópolis até São Paulo quando estávamos no trem ficava olhando as matas, as árvores e ficava imaginando que meu avô deveria ter passado por aqueles lugares.

Chegava em casa e ficava torcendo para que as próximas férias viessem logo para eu poder ouvir as maravilhosas histórias do meu querido avô tropeiro Raimundo José da Silva.

ANA SEXTA FEIRA


Depois de um longo período de árduos estudos consegui ser aprovado em um Concurso Público para trabalhar na Faculdade de Odontologia de São José dos Campos, interior da cidade de São Paulo como Auxiliar Administrativo.

Após a vasta documentação ser entregue no Recursos Humanos, fazer exame médico, fiquei aguardando a publicação no Diário Oficial do Estado de São Paulo. Demorou apenas quinze dias e fui convocado para iniciar minhas atividades na Faculdade.

No primeiro dia de serviço em qualquer lugar do mundo, ficamos muito apreensivos, ansiosos e sedentos para saber aonde iremos trabalhar, quais pessoas conheceremos, como será o ambiente de trabalho.

Apresentei me no RH no dia especificado e lá estava o Luizão, chefe do RH que se apresentou e levou eu até uma minúscula salinha e apresentou-me para o Carlos chefe da seção onde eu iria trabalhar. Naquele exato momento quase chorei de raiva e pensava: caramba! Estudei tanto, dei o melhor nos estudos, passei noites em claro debruçado em cima de apostilas, resolvendo vários exercícios de matemática e Língua Portuguesa e acabo caindo neste lixo. Respirei fundo, enxuguei um pouco do suor, esbocei um sorriso no canto da boca e assim fui abandonado naquela minúscula salinha. O Carlos apontou uma mesinha toda velha onde eu iria ficar e começou a explicar o que eu iria fazer, fiquei atento e após todo o dia explicando e apresentando todos os departamentos da Faculdade estava decidido a continuar, pelo menos por alguns dias ou meses para ver o que acontecia.

O Carlos era uma pessoa de muito alto astral, de bem com a vida, sorridente e de pouca idade assim como eu que tinha apenas vinte e um anos.

A Faculdade de Odontologia naquela época, 1978, parecia uma pequena cidade onde todos se conheciam e era muito movimentada, pois, oferecia tratamento dentário gratuito para as pessoas que necessitavam. Com o passar do tempo já me sentia em casa e aprendi todo o serviço que consistia em cadastrar todos os bens móveis da Faculdade e identificar e apresentar um relatório mensal atualizado, era a seção de Patrimônio.

Eu, naquela época fazia um curso Técnico em uma escola Técnica Federal em São José dos Campos, era casado recente e todos os dias eu ia a pé até a Faculdade.

O Carlos, muito brincalhão e sorridente começou a colocar apelido em todas as pessoas que trabalhavam na Faculdade e ainda me envolvia nas suas brincadeiras, no início ficava um pouco temeroso, mas com o passar do tempo até sugeria alguns apelidos, foi o que aconteceu com uma colega que trabalhava no Departamento de Dentística e fui logo sugerindo durante um bate-papo na hora do almoço:

— Carlão, o que você acha da Ana? Após alguns segundo pensando o Carlão respondeu:

— Ah! Acho ela uma pessoa muito brincalhona, feliz com a vida, muito sorridente, por quê?

- Você não pensa que a Ana tem a cara da sexta-feira?

Após uma sonora gargalhada o Carlão disse:

— Está aí, a partir deste momento está decretado que nossa querida Ana passará a chamar-se Ana Sexta Feira, e não falamos mais nisso e que ela demore a descobrir o que se enconde atrás dos nossos sorrisos quando ela aparecer na nossa frente.

O tempo foi passando e a relação de pessoas que iam ganhando apelidos era enorme e sempre que a Ana ia tirar xerox passava na nossa minúscula salinha para dar um alô e jogar meia dúzia de palavras fora e era quando começávamos a sorrir.

Inicialmente a querida colega Ana não entendia nada o que estava acontecendo e a conversa continuava normalmente até que em um dia no Diretório Acadêmico da Faculdade, exatamente em uma sexta-feira estávamos bebendo algumas cervejas para oxigenar a mente e após alguns copos de cervejas a Ana fez a seguinte pergunta:

- Sabe pessoal, tenho notado que quando apareço na seção na qual vocês trabalham vocês ficam com sorrisinhos entre uma conversa e outra, o porquê destes sorrisos?

O Carlão olhou pra mim e resolvemos contar para a Ana o porquê dos nossos sorrisos: e o Carlão falou:

- Sabe Ana, eu e meu amigo Luiz começamos a apelidar todos os funcionários da Faculdade e você também ganhou um apelido, sabia? A Ana muito curiosa quis saber qual era o apelido e foi logo perguntando:

— Qual apelido vocês deram para mim e o por quê?

O Carlão sorrindo disse: seu apelido é Ana Sexta Feira e já foi logo explicando: porque você tem a cara da alegria, a cara da felicidade, é uma pessoa muito bonita e gostamos muito de você.

Sentimos algumas lágrimas rolarem no rosto da Ana e ela levantou e deu um forte abraço na gente e agradeceu muito pelo apelido e nós ficamos aliviados em acertar o apelido para nossa amiga.

A partir daquele dia a Ana que já era uma pessoa muita alegre, extrovertida sempre que nós nos encontrávamos ela sorria com aqueles lindos dentes branquinhos e dizia:

- Já sei que meu apelido é Ana Sexta Feira e tenham um bom dia! e saía apressada sempre sorrindo para levar um documento em algum departamento.

Quando chegou final do mês de janeiro de 1981 minha esposa Ivete ía ganhar o primeiro filho, o Márcio e eu estava muito feliz e disse para Ana se ela poderia levar minha esposa de São José dos Campos até Jacareí quando o garoto nascesse e ela prontamente disse que sim. Naquele dia foi muito engraçado, pois, fomos até o hospital no lindo fuscão vermelho que a Ana tinha e ela falava: Segura que aqui é volante! e sentava o pé no acelerador. Chegando em casa ela se prontificou a furar o bico da mamadeira para dar a um chazinho para o Márcio e quase matamos o garoto, pois, a Ana fez um buraco muito grande na pequena mamadeira e ele se engasgou. Após o susto passar, entre um sorriso e outro a Ana se despediu desejando Felicidades para todos nós.


Todas as sextas-feiras participávamos de um jogo de futebol na quadra devidamente uniformizados e já tínhamos até torcida organizada e sempre nossa querida Ana Sexta Feira fazia se presente.E quando para nossa surpresa a Ana falou que iria se casar que gostaria muitíssimo que fossemos e foi um casamento muito diferente, pois, não sabíamos que o namorado da Ana era um soldado do Corpo de Bombeiros e quando todos estávamos dentro da igreja escutamos várias sirenes ao redor da igreja e saímos para ver o que estava acontecendo e eis que parou um carro da corporação do corpo de bombeiros e a Ana saiu do carro toda sorridente e entrou na igreja com aquele sorriso maravilhoso.


O tempo foi passando, passando e em um determinado dia após eu me formar em Eletrônica fui trabalhar em uma fábrica de equipamentos para Aeroportos. Despedi-me de todos, dei um forte abraço na querida Ana Sexta Feira e saí com aquele sorriso lindo na minha mente da querida Ana, Ana Sexta Feira.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...