quinta-feira, 1 de outubro de 2020

FAZENDO E VENDENDO COXINHAS



Estávamos no início de 2008, a ideia de fazer coxinhas tinha vindo depois de uma longa viagem à Ubatuba. Depois de várias tentativas de fazer uma coxinha diferente de todas aquelas já existente, conseguimos fazer uma que era diferente de todas as outras. Fizemos um verdadeiro “laboratório experimental” com temperos, recheios e o sabor foi ficando cada vez mais afinado com o paladar de todos.

Após um período de dois meses em Ubatuba na casa da tia Ana, onde testamos várias receitas, chegamos a uma que colocamos o nome de Coxinha Caiçara e era esta receita que apresentei para minha filha e disse que a partir daquele momento iríamos viver de fazer as tais coxinhas e vendê-las pelo comércio local da Vila Maria Alta em São Paulo-SP e redondeza.
Minha filha ficou estupefata com a ideia, mas como não tinha outra opção, pois, morávamos numa pequena casa de aluguel, eu minha filha e minha netinha. Abraçou a ideia para não passarmos necessidades e assim começamos nossa atividade de salgadeiros, especificamente fazendo a tal da coxinha caiçara.
Fazer as coxinhas não era problema, pois, já tinha dado certo no litoral e não tinha como dar errado na capital, já que o sabor era deliciosíssimo, a textura surpreendente, sequinha. Combinamos um preço bem razoável, fizemos as primeiras quarenta unidades e saí pelo comércio local em busca de nossos novos clientes. A dificuldade foi enorme no início, pois, ninguém conhecia nossas coxinhas e todos se mostravam cépticos em relação ao nosso produto. Foi uma grande batalha no início para provar para todos os novos clientes que estávamos vendendo um produto de qualidade, muito delicioso e que todos deveriam provar.
Trabalhar por conta própria é muito bom, mas exige um esforço enorme. Levantava-me às 6 horas da manhã e ia comprar os ingredientes num mercado próximo de casa, preparava tudo, desde colocar o frango para cozinhar, até os temperos para podermos fazer a noite.
Lá pelas 8 horas da manhã começava a fritar vinte coxinhas e ia vendê-las pela redondeza, vender salgados de manhã não é lá tarefa muito fácil, mas precisávamos e não tinha para onde correr e lá ia eu com minha caixa de isopor, uma garrafa de café que oferecia de brinde aos meus clientes. Quando estava próximo do meio-dia já tinha vendido todas as coxinhas e, nessa altura retornava para casa, almoçava e ficava esperando dar 2 horas da tarde para fritar mais vinte coxinhas e sair à tarde.
Os clientes já estavam conquistados, tinha em média uns vinte clientes fiéis que adoravam nossas coxinhas, o restante era conquistado dia a dia, andando muito, tomando muita chuva, entrando em quase todos os estabelecimentos comerciais e esbanjando carisma, bom humor e sempre enaltecendo a grande diferença das nossas coxinhas e das outras encontradas pelos bares e padarias do bairro.
Todos os dias era uma grande batalha, pois, dependíamos de vender as quarenta coxinhas todos os dias e o dinheiro arrecadado era para pagar o aluguel, água, luz, comprar fraldas e leite para a netinha e um pouco de comida para nós.
Foi oito meses vendendo todos os dias em média quarenta coxinhas e algumas histórias interessantes aconteceram neste período. Num sábado quando minha filha estava fritando as coxinhas o gás acabou e ela desabou a chorar dizendo que estava cansada de ser pobre, soltei um grande sorriso e disse que também estava cansado, mas não era de ser pobre e sim de andar  pelas ruas do bairro, ela sorriu entre algumas lágrimas e foi comprar o gás.
O secretário de uma escola estadual pediu para vendermos as coxinhas num sábado à tarde na escola, pois, alguns alunos estariam na escola para aulas de recuperação. Fizemos cinquenta coxinhas e fomos até a escola e chegando lá, simplesmente não havia ninguém, as aulas foram adiadas. Ficamos aflitos, sentamos na beira da guia e ficamos imaginando o que faríamos, até que escutemos barulho de instrumentos musicais vindo do clube Thomas Mazzoni, fomos correndo até lá, onde estava acontecendo uma final de campeonato de time de futebol, tinha muita gente, subi as arquibancadas e fui vendendo, vendendo e após uma hora já tinha vendido todas as coxinhas, fomos embora muito feliz e com grande alívio , tínhamos garantido nossa próxima remessa de coxinhas, naquele dia compramos até uma pizza para comemorar nossas vendas.
Numa sexta-feira a tarde apareceu meu sobrinho Leandro e seu filho Diego comprou toda a “carga” de coxinhas, ele ainda trouxe várias latas de cervejas, onde bebemos e comemos todas as coxinhas. Raras vezes isto acontecia, mas de vez em quando acontecia.
Às vezes, a tarde, convidávamos minha irmã Silvinha e meu sobrinho John Lennon para tomar café com coxinhas em casa, ficávamos muito feliz com a presença da minha irmã na nossa humilde casa, inesquecíveis aqueles momentos.
Muitas passagens aconteceram, umas tristes outras alegres e aprendemos uma lição maravilhosa que jamais passaremos fome neste País, desde que estejamos propensos a “meter a mão na massa”, suar a camisa e queimar a barriga no fogão. Conseguimos sobreviver! Vai uma coxinha aí?

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

OS BAILES DA VILA RÉ




Em 1970, eu era um adolescente de 15 anos e estava vivendo a melhor época de toda a minha vida, isto eu ainda não sabia, digo isto agora..., mas como todo garoto daquela época, já trabalhava com carteira assinada numa cia. de seguros, no centro da cidade de São Paulo, tinha algumas paquerinhas e adorava passar as tardes de sábados no Centro Educacional da Moóca, na piscina, e quando eu chegava em casa começava a preparar-me para ir a um baile chamado “O Cafona”, que ficava na Vila Ré, zona leste da cidade de São Paulo.

Assim que eu chegava em casa tomava um demorado banho de balde, perfumava-me com um desodorante barato e vestia uma calças boca de sino azul com listras brancas e cintura bem alta, uma camisa “Gola Olímpica”, que chamávamos carinhosamente de “Volta ao Mundo”, um sapato com saltos enormes, chamado salto carrapeta e um cinto com uma fivela imensa. Repartia meus cabelos compridos ao meio, emprestava algum dinheiro do meu pai e ia ao encontro dos amigos Israel e Luizão para encontramos as meninas mais bonitas da nossa região, nos bailes do Cafona.

Assim que eu encontrava com meus amigos eu era zombado com vários assobios, enaltecendo meus trajes e o agradável odor de perfume de quinta categoria e lá seguíamos nós em plena “louçania” dos nossos 15 anos, falando muito sobre o cotidiano, das lindas meninas que se déssemos sorte encontraríamos no baile, sorrisos altos e olhos observadores para tudo e para todos.

Após uma caminhada de uns trinta minutos, chegávamos ao Cafona e ficávamos observando as lindas meninas chegarem com os cabelos estilo Chanel, com muito “laquê”, vestidos rodados e sorrisos alegres, algumas vinham acompanhadas dos pais, o que nos deixava muito apreensivos, pois, sabíamos que seria muito difícil abordá-las.

Após alguns minutos naquele flerte, tomávamos coragem, passávamos a língua nos lábios e entrávamos sem muita purpurina. Às vezes éramos notados logo na entrada e ficava fácil bailarmos as três horas apenas com uma única menina. Isto acontecia muito raramente, pois, na maioria das vezes éramos obrigados a garimpar nosso tesouro com muito esforço, mas sempre acabava por arranjar alguma garota interessante.

Os meus amigos se davam muito bem, pois, eles eram “galinhas”, hoje o pessoal fala “pegador”, bailavam com quase todas as meninas, sem restrição, agora eu era um pouco tímido e meio “bobão”, pois, não aceitava bailar com qualquer menina e sempre escolhia as mais bonitas, o que diminuía muito minhas chances de arranjar alguma menina para dançar. Quantas vezes passava o baile todo observando os meus amigos bailando e eu bebendo guaraná e de olho em alguma “linda” e ela não dava a mínima chance de aproximação.

Quando anunciavam a última música, ficávamos desesperados para encontrar alguém, valia tudo, o importante era dançar a última música que se chamava Rock Roll Lo Lo Bye cantada por B.J.Thomas. Rostos colados e os olhares de algumas mães colados na gente, nada de grave acontecia, a não ser alguns cochichos inaudíveis prometendo vir no próximo baile e sempre enaltecendo a beleza que às vezes não condizia com a realidade, mas valia tudo, até dar alguns “pisões” nos pés das damas e ser largado em plena música. Que vergonha!

Terminada a música, dávamos um enorme suspiro e saíamos com a alma repleta de felicidade, alguns beijinhos em algumas meninas sempre prometendo o retorno no próximo final de semana e pé na estrada porque se fazia tarde, afinal tínhamos que chegar em casa antes da meia-noite.

Quantos bailes! Quantas alegrias vividas ao longo da nossa adolescência que hoje permanecem no meu coração e faz-me sentir que vivemos nossa época intensamente, com a pureza e alegria dos jovens da geração 70. Que saudades!


APRENDIZ DE AÇOUGUEIRO








 Estava eu lá despreocupado, lendo os meus gibis do Zorro, do Super Homem, do Batman, Homem Aranha, tinha apenas quatorze anos anos foi quando minha mãe chegou do açougue do senhor Mário e anunciou meu novo serviço. Iria trabalhar com o senhor Mário, um Português que tinha um açougue na esquina da rua onde morávamos, no bairro Cidade A.E.Carcalho, zona leste da cidade de São Paulo. Eu não me contive e perguntei para minha mãe:

— Mas mãe, o que vou fazer num açougue? Não sei nem cortar um pãozinho direito, imagina eu cortando pedaços de boi! minha mãe disse que já tinha combinado até quanto eu iria receber e foi então que perguntei:

— Quantos milhares de dinheiro receberei? minha mãe disse:

— Você não receberá dinheiro algum, apenas um quilo da melhor carne por dia trabalhado.

Desmanchei-me em gargalhadas e supliquei a minha mãe que desmanchasse o contrato, pois, estaria disposto a fazer qualquer outra coisa, menos trabalhar por carne, sem ver a cor do dinheiro.

Mamãe insistiu e no outro dia lá eu estava na frente do açougue do senhor Mário esperando o mesmo abrir o estabelecimento do comércio do boi.

O senhor Mário chegou, desejou-me bom dia, entramos no açougue, apresentou-me todos os compartimentos do açougue e o meu primeiro serviço foi aprender a encher linguiça.

Era muito engraçado eu colocando pedaços de carnes e passando por uma máquina e a linguiça saía prontinha do outro lado da máquina. Até que era divertido o meu serviço.

Atendia alguns fregueses, enchia a linguiça e no final do expediente ajudava a fazer uma faxina no açougue. Jamais o senhor Mário permitia que eu cortasse carne, pois, ele tinha medo de eu acidentar-me. Ao fechar o açougue o bondoso Português cortava vários bifes de primeira qualidade, embrulhava e dava para eu levar para minha casa.

Os dias foram passando, as linguiças foram sendo feitas, o açougue andava muito limpo, até que num determinado dia resolvi que não queria mais receber os meus proventos em carne e sim em dinheiro, pois, eu tinha arranjado uma namoradinha e quando íamos ao parque de diversão não podia comprar nada, pois, não aceitavam carne para pagamento. O senhor Mário falou: não há problemas, todos os dias dou um dinheiro para você, só que as carnes você não levará mais.

Fiquei muito feliz e contei a quebra de contrato para minha mãe que não gostou da troca, pois, assim que eu dava o dinheiro recebido para ela, eu tinha que voltar ao açougue ou ir ao mercadinho para comprar “mistura”.

Trabalhei muito tempo com o senhor Mário no açougue, ora recebendo o meu salário em dinheiro, ora recebendo em carne, até que ele vendeu o açougue e começou a construir uma linda casa e lá fui eu trabalhar de servente na construção da linda casa do Sr.Mário.

O senhor Mário era um ótimo patrão, um amigo de todos e gostava muito da nossa família. Bela recordação!

domingo, 27 de setembro de 2020

CURSO DE ADMISSÃO

 Em mil novecentos e sessenta e seis conclui o curso primário e para entrar no ginásio era necessário fazer uma preparação que se chamava admissão. Eu tinha apenas onze anos e morava em um bairro chamado Ponte Rasa, Zona Leste da cidade de São Paulo.

Eu era um ótimo aluno durante o curso primário, o que levou meu pai a crer que eu poderia ser um excelente aluno durante os anos posteriores. Meu pai decidiu matricular-me em um curso de admissão existente no bairro Ermelino Matarazzo. Eu estudava no período da tarde e no começo do curso assistia as aulas regularmente, mas com o passar dos dias fiz algumas “amizades” na sala de aula com alguns alunos de caráter duvidoso e eles convidaram-me para “cabular” as aulas e irmos nadar em uma grande lagoa chamada cisper.

Inicialmente recusei o convite, pois, sabia que meus pais mais cedo ou mais tarde descobririam, mas com o passar dos dias resolvi experimentar a grande aventura, que mais tarde iria arrepender-me pelo resto da minha existência. Eu e mais alguns alunos que não queriam estudar nos encontrávamos a um quarteirão da escola e íamos alegres para a lagoa. Chegando na lagoa entrávamos na água para tomar nosso banho e refrescar-se das tardes quentes e ficávamos brincando de luta livre. Passados as horas, retornávamos para casa e dizia para nossos pais que a aula tinha sido muito interessante, pois, a professora tinha feito uma palestra sobre plantas e não tinha dado nenhuma matéria.

A ingenuidade da minha mãe naquela época não permitia que ela  observasse que eu tinha “cabulado" a aula. O tempo foi passando e às vezes nós cabulávamos as aulas para refrescar-se na lagoa. Um “colega” até pediu para fazer um carimbo de “presença” para poder carimbar nossa carteirinha escolar nos dias da nossa ausência no curso de admissão.

Lá pelo mês de outubro, meu pai começou a ficar muito desconfiado, pois, eram folhas e mais folhas do caderno em branco e resolveu ir até à escola, saber o que estava acontecendo. Acabou descobrindo que eu não ia à escola já fazia um bom tempo; agradeceu o diretor e pediu para o mesmo desligar-me da escola. Chegou em casa meu pai descreveu minuciosamente para minha mãe todo o ocorrido durante aquele período em que eu estava na escola. Após levar uma surra inesquecível com duas varas de marmelo trançadas, aplicada por minha mãe, resolveram aplicar-me um castigo. Colocaram-me com várias senhoras beatas para eu estudar “o catecismo”. Eu rezava dia e noite sem parar, preparando-me para fazer a primeira comunhão e redimir-me do meu pecado em ter cabulado várias aulas do curso de admissão e gasto o suado dinheiro do meu pai.

Foram semanas de rezas sob a supervisão acirrada de uma freira e tinha dias em que eu chorava baixinho por ter que rezar mais de cem pai-nossos e cem ave-marias. Estava definitivamente arrependido, mas o pior ainda estava por vir e após longas horas de orações meu pai anunciou enfaticamente que jamais durante a sua existência iria pagar escola para mim, se eu quisesse estudar teria que manter meus estudos com o suor do meu rosto e disse rispidamente que eu iria começar na manhã seguinte a trabalhar com ele, numa fábrica de consertos de instrumentos musicais.

No primeiro dia de serviço achei muito divertido, pois, tinha que acordar de madrugada, preparar a marmita e sair apressado para pegar o trem na estação de Ermelino Matarazzo. Como eu era muito pequeno, assim que o trem chegava na estação era muita correria para entrar no vagão e lá estava eu no meio de tantos trabalhadores, transpirando e silenciosos, pensando no que iriam enfrentar naquele dia. Ao meio-dia tínhamos que esquentar nossas marmitas numa “espiriteira”, que era uma lata de sardinha com álcool e comer a marmita sem falar absolutamente nada e voltar para lustrar enormes instrumentos de sopro sob uma espessa camada de fuligem. Uma semana foi suficiente para eu contrair uma diarreia que não esqueço até hoje, tive que ir ao hospital e resolveram suspender o meu castigo.

Com apenas doze anos eu já sentia o peso da responsabilidade em ter que arrumar qualquer serviço para pagar o meu novo curso de admissão. Foi alguns dias procurando um serviço e acabei encontrando em uma fabricazinha de cintos no bairro de Artur Alvim, como ajudante geral, fiquei muito feliz, afinal teria como pagar meu curso de admissão. Quando fui contratado deixei bem claro para o Sr.Francisco, o proprietário da fabricazinha, que eu só poderia trabalhar no período da manhã, pois, a tarde eu necessitava estudar, ele não fez nenhuma objeção, apenas iria pagar a metade do salário. Aceitei o emprego e comecei a trabalhar e foram os seis meses mais sofridos da minha vida, pois, tinha que acordar cedo, ir trabalhar, voltar apressado para casa de bicicleta, almoçar e arrumar-me para ir para o novo curso de admissão.

Terminou o ano do novo curso de admissão e fiz uma prova no Ginásio Álvares de Azevedo, em Itaquera e fui aprovado e comecei a fazer o curso ginasial à noite e trabalhava na fábrica de cintos durante o dia. Senti a responsabilidade, aprendi a dar muito valor no meu serviço e comecei a pensar muito, antes de “cabular” a aula para ir ao cinema com as namoradinhas.

Agradeço muito, do fundo do meu coração aquele castigo que meu pai impôs e até hoje serve-me de lição para eu não enganar mais ninguém e dar muito valor nas ajudas alheias, pago com sofrimento e guardado na minha memória até a hora que Deus chamar-me e solicitar a descrição detalhada do ocorrido. Não haverá sofrimento, apenas algumas lágrimas brotarão dos meus olhos e direi: valeu a Pena! Obrigado meu pai, obrigado minha mãe por tornar-me homem desde a mais tenra idade!

sábado, 26 de setembro de 2020

SENESCÊNCIA

 


Quando somos detentores de uma vasta experiência de vida somos convidados a preparar nossa malinha para a morte, para algumas pessoas até este direito é negado e não há tempo suficiente para despedidas, simplesmente é ceifado o convívio entre os mortais e pronto.

Antes das despedidas a maioria das pessoas consegue ficar velhas, é como se fosse um preparatório para a passagem para outra vida, esta etapa é a mais difícil, pois, já não temos mais aquela disposição em encarar a vida com muita naturalidade, os passos tornam-se lentos, a memória começa a dar os primeiros sintomas de esquecimento e toda aquela alegria de outrora fica acanhadamente entre sorrisos em bocas desdentadas.

As primeiras dores começam a aparecer pelo flácido corpo que insiste em estar ereto, as praias são trocadas por farmácias, os cassinos e puteiros dão lugar aos consultórios médicos e a contabilidade da vida é atualizada diariamente entre pensamentos repletos de nostalgias.

As missas que outrora eram acompanhadas somente em batizados ou casamentos tornam-se constantes e aquele sentimento de tentar cavar um lugarzinho no céu faz da fé a prioridade do cotidiano.

A visão um pouco turva requer lentes mais espessas e perder os óculos em um canto qualquer da casa faz parte de todo envelhecimento saudável, feliz é quem tem alguém que possa ajuda-lo nesta árdua tarefa.

Os banhos são mais demorados e os movimentos bem mais lentos e quando cai o sabonete no chão a única opção é pegar outro sabonete, pois, caso opte em agachar corre o sério risco em ficar curvado por bons pares de dias.


Ao olhar para o espelho e observar tantas rugas traz aquele sentimento de caminho trilhado entre morros e mares em busca da felicidade e a satisfação mistura-se com um sorriso de alegria em receber este troféu dado por Deus. Envelhecer.

FÉRIAS NA PRAIA DA MOCOCA

    








Após trabalhar trezentos e sessenta e cinco dias em uma pequena empresa em janeiro de mil novecentos e noventa e oito, com o chefe mais chato do mundo, ter que bater o “bendito” ponto, cartão, crachá e ultimamente passarmos apenas o dedo e nossa impressão digital detectar toda a nossa assiduidade. Ônibus lotados, metrô sob um calor infernal, trens parando constantemente na grande metrópole São Paulo, finalmente consegui sair de férias!

Acordei no primeiro dia de férias meio assustado sem saber o que fazer com os trinta dias conseguidos com muito mérito e fiquei vagando entre a sala e a cozinha. Abria a geladeira, assistia televisão, comecei a ler um livro e não passei da terceira página, a inquietação atormentava meu espírito e então ia ao quintal alimentar os pássaros e não sabia onde estava o alpiste e acordei a minha esposa, que carinhosamente a chamava de “patroa”. Então ela acordou meio brava dizendo que estava na segunda gaveta do armário e voltou a dormir, tentei inutilmente regar aquela flor que tanto amava e estava tão linda, mas não sabia onde estava o regador e novamente a esposa foi solicitada para dizer onde estava o tal regador. Barulho de água na chaleira e inventei depois de tanto tempo fazer um café e levar para a esposa que ainda estava deitada, não sabia onde estava o pó de café e novamente acordei a linda dona do lar. Até que num determinado instante ela ficou muito zangada comigo, acordou e dirigiu-se até a cozinha e mostrou onde estava tudo aquilo que eu procurava e eu disse:

— Desculpe-me querida, estou de férias! Ela com uma cara de leão de circo disse:

— Pois, seria muito melhor se você estivesse trabalhando, pois, só assim não seria acordada a esta hora!

— Mas querida já são nove horas deste sábado ensolarado e maravilhoso!

— E dai, não sabe que meu horário de acordar são dez horas todos os dias?

Então sai vagando pelo quintal tentando encontrar o verdadeiro significado da palavra “férias” e quando pensei que tudo estava perdido e eu estava predestinado a passar as minhas férias sendo humilhado, subitamente e prontamente acordei a minha esposa e disse:

- Arruma as malas, vamos viajar para o litoral norte do estado de São Paulo agora e não se esqueça de levar aquele biquíni branco ao qual você fica muito “gostosa”! e sorri alegremente.

A minha amada sorriu e derreteu-se toda e correu fazer as malas para partirmos para nossas merecidas férias. Nossa? Claro que não, apenas a minha, a patroa não fazia nada o ano inteiro e ainda usufruía daquele maravilhoso período.

Todas as nossas malas foram colocadas no carro e foi então que eu observei que estava faltando o principal e logo gritei:

— Mas onde está a barraca de camping, querida? Ela falou nervosamente:

— Mas nós vamos acampar Luiz? e minha resposta foi lacônica:

— Sim, vamos acampar, há alguma objeção?

Humildemente ela foi até o grande porão existente na nossa casa e retirou a enorme barraca de camping e colocou sobre o carro com minha ajuda.

Entre nós arrumarmos todas as “tralhas” no velho chevette azul e eu beber algumas poucas cervejas restantes da noite anterior na geladeira demorou poucos minutos e todos estávamos preparados para “pegar” a estrada.

Novamente nossos conflitos entravam em erupção, pois, ela adorava ouvir pagode e eu admirava música popular brasileira e música clássica. Depois de vários minutos fizemos um acordo e saíamos ouvindo o maravilhoso Chico Buarque de Holanda que logo na descida da serra, na rodovia dos Tamoios foi substituído por “grandes” grupos de pagodes. Aceitei ouvir as músicas um pouco contrariado e coloquei meu inseparável protetor auricular nos ouvidos e assim os pagodeiros desceram cantando e eu dormindo sob o efeito de algumas cervejas ingeridas antes da partida e pouco eu ouvia as vozes estridentes dos “maravilhosos” cantores da minha amada.

Quantas vezes fui acordado durante a viagem e algumas perguntas foram feitas sobre o tal grupo de pagode:

— São maravilhosos, não são Luiz? referindo ao som que estava tocando no CD e eu dizia rapidamente sem olhar para minha esposa, entre uma babada e outra:

— Realmente são excelentes! Se você encontrar músicos melhores que esses avise-me por favor!

Ria alegremente e virava meu rosto para outro lado e continuava a dormir.

Quando meus sonhos pareciam tornar-se realidade eu fui acordado com o carro na areia, sendo chacoalhado para montarmos a barraca de camping. Então abri os olhos vagarosamente e vi a chuva correndo pelos vidros do carro e pedi para minha esposa procurar uma  pousada qualquer mais próxima daquela praia e minha patroa chacoalhou-me novamente e disse com todas as forças do coração:

— Acorda seu fanfarrão, chegamos e é necessário montarmos a barraca! Está chovendo!

Abri a porta vagarosamente e meu corpo quente insistia para que eu ficasse mais alguns minutos dentro do carro, mas não houve acordo, todos me puxaram para fora do veículo e eu sai cambaleando para montar a bendita barraca.

Nunca, jamais, eu tinha montado uma barraca de camping em toda a minha vida e existia a grande necessidade de montarmos a barraca rapidamente, pois, a chuva insistia em não querer dar uma trégua.

Rapidamente sai a procura de algumas pessoas que pudessem nos ajudar a montar a barraca, que era enorme e consegui depois de percorrer várias barracas alguns garotos que disseram que adoravam montar barracas de camping e assim os garotos montaram a barraca quase tudo sozinhos, sob a minha supervisão, segurando uma grande lanterna para iluminar a área onde estava sendo montada a barraca de camping, sempre ingerindo alguns goles de cervejas geladas.

Agradeci aos garotos e começamos a colocar nossos colchonetes, fogão, um pequeno armário e roupas para dentro da barraca e logo após tudo estar bem arrumados ficamos muito alegres.

Quando tudo parecia tranquilo e todo o pessoal estar dormindo tive uma grande vontade de beber algumas cervejas bem geladas e sai a procura da tal cerveja e a encontrei em um quiosque na praia bem distante da nossa barraca com pessoas cantando e outras dançando e encostei meu umbigo no balcão e pedi uma cerveja bem gelada.

Apareceu uma linda garota e perguntou educadamente o que eu queria e eu disse a ela que desejava uma cerveja muito gelada para beber no balcão e prontamente fui atendido.

Após várias cervejas bebidas comecei a ensaiar os meus primeiros passos de dança, imbuídos sobre o efeito do álcool e assim continuei até que inesperadamente apareceu minha esposa com um enorme facão dizendo que iria cortar meu orgão genital. Rapidamente despedi-me de todos e segui em passos trôpegos acompanhando minha amada. Que vergonha! Não consegui esquecer minha última parceira de dança, uma moreninha maravilhosa que dançava alegremente por todo o quiosque.

Chegamos na barraca e meu colchonete foi apresentado, joguei-me pesadamente sobre o mesmo e adormeci com os passos da linda garota dançando na minha mente. Escutei um raivoso boa noite e um durma com Deus dito pela minha patroa e adormeci sonhando com as minhas férias.

No outro dia o Sol fez-se presente, levantei sorrateiramente e sentei na areia, em frente a barraca de camping e fiquei vários minutos olhando para o mar e refletindo sobre o acontecido no dia anterior e prometi para mim mesmo que a partir daquele dia não faria mais patifarias. Ficamos um mês, acampados na Praia da Mococa em Caraguatatuba, litoral norte da cidade de São Paulo e aprendi que nossos impulsos e emoções nos levam a cometer alguns absurdos como o ocorrido. Foi uma das melhores férias da minha vida! Quantas patifarias! Ela deve me odiar até hoje. Belas recordações!

VIDIOBEL - NOSSA PRIMEIRA TV

Em mil novecentos e sessenta e oito foi o ano que adquirimos nosso primeiro aparelho de TV na loja do turco da Praça Ana das Dores, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo. Até então não tínhamos TV e sempre assistíamos na casa da vizinha. Realmente não tínhamos uma vida muito agradável, pois, era muito constrangedor pedir humildemente para a vizinha se poderia assistir TV, às vezes nós disfarçávamos e levava um pedaço de bolo para vizinha e por lá mesmo nós ficávamos sentados num canto do sofá assistindo desenhos até começar a novela e então mamãe gritava do outro lado da rua, era hora de entrar e abandonar a televizinha.

Quando mamãe anunciou que tinha comprado uma TV, nós, crianças ficamos muito eufóricos e não víamos a hora da mesma chegar.

O caminhãozinho estacionou em frente de casa e perguntaram se era ali que morava minha mãe. Nós, alegres mostramos o caminho e os dois carregadores/montadores pegaram aquela caixa enorme e depositaram cuidadosamente na sala de casa. Imediatamente após mamãe assinar alguns papéis os homens começaram a montar a TV.

Não havia espaço para tanta alegria entre nós e acompanhávamos cada peça retirada da caixa com muita atenção e sempre perguntando se haveria a possibilidade de assistirmos a TV naquele dia e os montadores diziam que dependia muito do nosso comportamento, se ficássemos quietinhos seria possível, senão não seria possível. Houve um silêncio entre nós até a TV ser ligada e aparecer a primeira imagem de uma propaganda da Sheel (gasolina), não houve como segurar nossa explosão de felicidade e abraçamo-nos e demos vários gritos de alegria e independência da TV da vizinha. Não haveria mais sofrimento, mamãe nunca mais iria nos chamar no melhor momento do desenho. Muita alegria!

Eu tinha e ainda tenho uma relação dos melhores momentos da minha vida e este está relacionado entre os primeiros.

Naquele dia ficamos até tarde assistindo a TV até  meu pai chegar do serviço e ficar encantado com a TV. Minha mãe sentou-se num canto do sofá e sorria com ar de muita satisfação.

Após alguns dias que a TV estava em casa, já estava muito bem definido nossos programas favoritos. Eu adorava assistir luta livre, minhas irmãs deliciavam com pífias novelas e foi numa destas disputas por canal que minha irmã Suely arremessou um tamanco de madeira contra a minha pessoa e acabou acertando a lateral da nossa TV. Colocamos a mãos na cabeça e decidimos não falar nada para mamãe, até o dia que ela descobriu e aplicou uma memorável surra de vara de marmelo em nós.

Passados alguns dias minha mãe comprou na lojinha da Dona Matilde um plástico que simulava as cores da TV, o plástico tinha três cores: na parte superior era azul, simulando o céu, na parte do meio era verde que dava a impressão que era a mata e na parte inferior era cinza-claro simulando a terra, o solo. Assim nossos programas tinham mais vida e éramos muito felizes.

Foram vários os programas favoritos e que marcaram profundamente nossa vida naquela época, lembro-me de alguns programas, como: festival de música da Record, Programa de Luta Livre e Ted Boy Marino era nosso herói, a novela Irmãos Coragem, um desenho japonês chamado Nacional Kid, Corrida Maluca, Sílvio Santos, O Vigilante Rodoviário com seu querido e amado cão chamado Lobo, Viagem ao fundo do mar, perdidos no espaço com o amável e ingênuo Dr. Smith, Pernalonga, A praça é Nossa, O Zorro, Lessie, A Feiticeira, Os três Patetas, O gordo e o Magro entre outras joias raras que minha mente não alcança mais.

Maravilhosa TV Vidiobel que tanto nos proporcionou alegrias e momentos inesquecíveis e encantadores!


LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...