sexta-feira, 2 de julho de 2021

OS BAILINHOS DE GARAGEM DA DÉCADA DE 70


 Estávamos vivendo a melhor época que já existiu neste planeta, época dos anos dourados de 1970.

Em 1972 eu tinha 15 anos e já trabalhava com carteira profissional assinada em uma Companhia de Seguros na Praça Manoel da Nóbrega no centro da cidade de São Paulo como Office-boy.

A minha vida não era nada fácil, pois, trabalhava de dia e estudava a noite o curso Ginasial, (Hoje Ensino Fundamental) no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima em Itaquera.

Na minha classe existia uma linda garota que chamava Rosely e eu desde o primeiro dia de aula fiquei apaixonado pela Rosely. Rosely era uma garota jovem, tinha 15 anos, era magra, morena, cabelos negros compridos, estatura mediana e detentora de uns olhos verdes maravilhosos.

Meu grande problema naquela época é que existia vários pretendentes em querer namorar a Rosely e a disputa entre nós garotos daquela época era concorrida e fazíamos de tudo para estar ao lado da linda garota Rosely.

Naquela época existia um baile que fazíamos na garagem da nossa casa nos finais de semana, geralmente aos sábados à noite e convidávamos todas as lindas garotas que conhecíamos para participar.

Eu nunca tinha feito um “bailinho” na garagem coberta na minha casa, embora já tinha participado de vários outros bailinhos nas casas de alguns colegas. Os meus sentimentos pela Rosely cada dia que passava aumentava mais, resolvi fazer um bailinho na minha casa com o consentimento da minha mãe e do meu pai para tentar conseguir namorar a menina mais linda da escola.

Contei sobre o bailinho para o Zezinho que também estudava na mesma escola para ajudar-me a preparar o bailinho na minha casa e ele ficou muito feliz e prontificou a emprestar o som, alguns discos de vinil e algumas fitas cassete para fazermos o baile e ainda prontificou em providenciar alguns convites feitos em cartolina.

Na sexta-feira que antecedeu o bailinho o Zezinho levou seu lindo equipamento de som, vários discos de vinil e fitas cassete para minha casa e quando foi no sábado de manhã lá estávamos nós montando toda a estrutura do baile. Corri até a casa da dona Margarida, nossa vizinha e emprestei alguns bancos de madeira e algumas cadeiras, uma pequena mesa foi colocada estrategicamente num canto da garagem para colocarmos o aparelho de som, enormes caixas de som foram distribuídas pela garagem e uma enorme lona amarela foi colocada na frente da garagem para garantir um pouco nossa privacidade.

Quando pensei que tudo já estava preparado para o bailinho o Zezinho começou a mostrar todos os discos de vinil e as fitas cassete e pediu para eu ajudar a escolher as músicas que eu gostaria de ouvir durante o baile.

Deu um nó na minha garganta e fiquei um pouco envergonhado em dizer que de música pouco eu entendia e que eu poderia apenas apontar algumas músicas que gostaria de ouvir e dançar durante o bailinho.

Assim o Zezinho foi colocando os discos de vinil e as fitas cassete no som e fomos escolhendo as músicas, que eram uma mais linda que a outra e após escolhermos umas vinte músicas o Zezinho disse. Pronto, já está tudo anotado aqui no caderno, agora e só aguardar o bailinho começar e o restante deixa comigo.

Naquele dia tudo foi feito com muito esmero, desde a lavagem da garagem, alguns enfeites foram colocados nas rústicas paredes e às 16:00 tudo já estava preparado para receber as lindas garotas convidadas para o bailinho de garagem.

O Zezinho era perfeccionista e entendia muito de som e naquela época era ele que promovia todos os bailinhos de garagem da periferia sem remuneração alguma, pelo simples fato de ver um amigo ou amiga feliz lá estava o querido amigo Zezinho a ajudar e preparar o bailinho da garagem da minha casa.

Após tudo montado na garagem o Zezinho foi se arrumar para o baile e eu entrei em casa cantarolando uma música chamada Dancing Queen do conjunto Abba e minha mãe disse:

— Que felicidade é esta meu filho! Nunca te ví assim! E respondi:

— Sabe mãe hoje está sendo o dia mais feliz da minha vida, pois, irei começar a namorar a menina mais linda da minha escola! Minha mãe sorriu e disse:

Que lindo! Fico feliz por você e quero logo conhecer minha nora e ver se ela é realmente tão bonita como você diz.

Tomei um demorado banho, passei um desodorante comprado para épocas especiais e fui me trajar. Coloquei calças boca de sino azul listrada de branco, uma camisa gola Olímpica branca com o meu nome bordado na parte da frente em letras pequenas, calcei um sapato com salto carrapeta bem lustrado e coloquei um cinto de couro com uma fivela enorme, passei brilhantina no cabelo, penteei cuidadosamente repartindo o mesmo ao meio. Pronto, eu já estava preparado para receber a minha princesa.

Quando se aproximou das 18:00 o Zezinho chegou e começou a testar o som e as primeiras pessoas começaram a chegar e eu dava Boas-vindas a todos que chegavam, entravam e ficavam quietinhos sentados nos bancos de madeira conversando baixinho para não atrapalhar os ouvidos afinadíssimos do nosso DJ Zezinho.

Eu estava ao lado do Zezinho apreciando a habilidade do mesmo com a preparação do som e de olho nas pessoas que iam chegando e foi quando o Zezinho disse:

Luiz, olha para trás e vê quem está chegando. Olhei e meu coração disparou. Era a Rosely que tinha chegado trajando um lindo vestido amarelo e uma sandália prata, cabelos soltos e exalando um perfume de um odor inefável.

Carinhosamente dei um beijo nas mãos da Rosely e ela disse:

Nossa, quanta cordialidade! Obrigado Luiz. Ela entrou e ficou conversando com uma colega de classe e após alguns minutos o bailinho começou com uma música chamada: Rock and Roll Lullaby do cantor BJ Thomas e eu rapidamente convidei a Rosely para dançar aquela música e para a minha surpresa a mesma aceitou.

O baile estava muito animado e eu já tinha dançado várias músicas com as colegas de classe e vizinhas, mas meus olhos sempre estavam direcionados para a querida Rosely.

Sentei-me sutilmente ao lado da Rosely e entre uma conversa e outra eu disse:

Rosely, você aceita comprometer-se comigo? Ela deu uma sonora gargalhada e disse: O que significa isto Luiz?

Muito envergonhado falei baixinho: significa namorar. O que diz?

Ela ficou pensando e colocou as mãos no queixo e disse: necessito pensar Luiz, afinal são tantos pretendentes que fico até envergonhada. Posso dar a resposta depois?

Um pouco triste disse que sim e o baile terminou e cada um foi para sua casa. Passados alguns dias quando cheguei na sala de aula a Rosely disse que necessitava falar comigo. Ai pensei, pronto ela vai dizer que não quer namorar comigo.

Ela convidou-me para ir até o bebedouro da escola beber água com ela e eu a acompanhei e fiquei aguardando um Não. Abaixou-se para beber água e quando ergueu a cabeça para engolir a água, ficou me olhando, olhando e inesperadamente deu um beijo na minha boca. Pronto o "sim" já estava garantido. Namoramos muito tempo até que em um determinado dia ela se apaixonou pelo Zezinho e fui preparar mais um bailinho para conseguir outra namorada. O difícil era quando eu ia a um bailinho e encontrava o Zezinho  animando o bailinho ao lado da linda Rosely. Até hoje quando recordo da minha musa Rosely, várias músicas daquela época ecoam na minha mente e fico bailando mentalmente a sorrir dos maravilhosos momentos vividos durante os bailinhos de garagem na década de 70.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

UMA CAMINHONEIRA EM BUSCA DO PAI



Desde criança percebi a falta de carinho de um pai. Logo quando aprendi a falar, perguntava para minha mãe por onde andava meu pai e ela afagava meus cabelos e dizia carinhosamente que ele estava viajando, dirigindo enormes caminhões por este mundão afora.

O tempo foi passando e sempre que eu perguntava do meu pai para minha mãe ela dizia que ele ainda não tinha voltado da viagem e eu tristemente ficava pensando: nossa, a viagem que meu pai está fazendo deve ser muito longe, pois, ele nunca chega.

Comecei a cursar o primeiro ano do Ensino Fundamental e tudo corria muito bem, afinal eu era uma ótima aluna e conseguia aprender com muita facilidade e foi quando no dia dos pais resolveram fazer uma homenagem aos nossos pais e lá estava eu querendo saber do meu pai, pois, haveria a necessidade de o mesmo estar presente na festinha da escola.

Foi quando minha mãe disse para eu esperar mais um pouquinho e naquele dia um tio iria representar o meu pai na festinha. Fiquei muito triste e insistia em querer saber por onde andava meu pai.

O tempo foi passando e nada do meu pai aparecer e eu já estava quase conformada com a ausência do meu pai caminhoneiro que nunca voltava e assim a vida ia seguindo e quantas vezes deixei rolar algumas lágrimas em querer conhecer meu pai “sumido”.

Quando existia uma reunião em nossa família e descontraidamente meu padrinho Manoel perguntava o que eu queria ser quando crescesse, meus olhos brilhavam e aquela vontade enorme de conhecer meu pai caminhoneiro dava a resposta. Quero ser uma caminhoneira igual meu pai, dirigir um enorme caminhão por estas estradas do nosso querido Brasil e tentar encontrar meu pai em alguma parada de caminhoneiros.

Meu tio Manoel ria, afagava meus cabelos e dizia:

— Ah! Querida, vida de caminhoneiro é difícil! Mesmo assim você quer ser caminhoneira? eu respondia sem nenhuma dúvida:

— Quero sim padrinho, diz para mim como é a vida de um caminhoneiro.

— Eu nunca fui caminhoneiro, quem era caminhoneiro era seu pai José, ele sabia muito sobre esta profissão.

— Mas eu nem conheci meu pai até agora, mas irei encontrar quando estiver na estrada e ainda vou perguntar para todos os caminhoneiros onde está meu pai José.

Os olhos do meu padrinho lacrimejava e ele falava: vai sim querida, torço muito para você ser uma excelente caminhoneira e dirigir tão bem como seu pai José dirige e com certeza você o encontrará em algum lugar deste nosso querido país.

O tempo foi passando e quando fiz dezoito anos fui me matricular em uma autoescola no bairro da Penha, em São Paulo para poder adquirir minha carta de motorista e poder dirigir um caminhão. Foi então que eu soube que para dirigir um caminhão existia a necessidade de adquirir uma CNH (Carteira Nacional de Habilitação) categoria E.

Disse ao instrutor de autoescola que queria dirigir carretas e contei detalhadamente o porquê daquele sonho e o instrutor prontificou-se a ajudar-me a habilitar-me para dirigir um caminhão.

Antes, bem antes de matricular-me na escola já sabia dirigir carros pequenos graças ao meu tio Manoel que me ensinou e quando entrei na autoescola foi somente para fazer a prova escrita e a prova prática e após alguns meses eu já estava com minha carta de motorista na mão e pronta para começar a trilhar meu sonho.

Comecei dirigindo carros pequenos e adquiri um lindo fusca vermelho que comprei de um amigo que morava no Jardim Nordeste e fazia questão de transportar todos da minha família para ganhar experiência pelas ruas da cidade de São Paulo.

Após alguns meses dirigindo com muita atenção e sempre que eu entrava no fusca e colocava a chave na ignição para poder dar a partida no fusca meus olhos brilhavam e eu ficava pensando. Um dia ainda será de um caminhão! E seguia para o destino sempre cheio de alegria e imaginando  estar dirigindo um caminhão.

Após alguns meses dirigindo fui novamente a autoescola e fiz novas provas para adquirir a CNH para dirigir uma Van Escolar e assim comecei dirigindo para um amigo uma Van escolar. A responsabilidade era enorme em ver todas aquelas crianças com muita alegria indo para a escola e voltando sob a minha responsabilidade entre as ruas dos bairros da zona Leste da cidade de São Paulo e novamente ficava imaginando eu na estrada com meu possante caminhão.

Quando completei vinte e quatro anos consegui adquirir a CNH que me habilitava a dirigir um caminhão e, naquele momento  foi a grande dificuldade: encontrar uma transportadora que admitisse uma mocinha de apenas vinte e quatro anos dirigindo um caminhão.

Foram vários currículos entregues em várias transportadoras e eis que em um determinado dia uma transportadora do bairro da Vila Guilherme em São Paulo me chamou para uma entrevista.

Naquela noite não consegui dormir tamanha era a minha ansiedade em poder dirigir um caminhão, afinal já tinha dirigido alguns caminhões, mas não dirigindo em estradas.

Fui recebido pelo chefe de transportes e após uma longa entrevista e eu detalhar o porquê de eu querer ser uma caminhoneira ele ficou muito sensibilizado e resolveu dar-me uma oportunidade.

Comecei dirigindo pela cidade de São Paulo e grande São Paulo fazendo entregas de todo o tipo de mercadorias sempre acompanhado de um ajudante e assim após alguns meses o chefe de transportes me chamou na sala dele e disse: tenho boas referências nestes meses em que você está trabalhando conosco e sendo observada por nossos motoristas e tenho uma nova rota para você.

E foi quando o chefe de transportes propôs eu fazer a rota São Paulo-Belo Horizonte e perguntou se eu aceitava e eu imediatamente disse que sim e assim foi marcada a minha primeira viagem como caminhoneira pela Rodovia Fernão Dias até a capital de Minas Gerais, Belo Horizonte.

Bem cedinho eu já estava na transportadora ao lado de um mecânico que passou várias informações de como proceder caso algo acontecesse com o caminhão e ainda recebi várias orientações de um experiente caminhoneiro que tanto conhecia este trajeto.

Quando subi na boleia pela primeira vez para dar a partida no lindo caminhão ergui as mãos para o céu e agradeci a Deus entre algumas lágrimas que rolavam pelo meu rosto.

Cristóvão era o nome do motorista que ia me acompanhar na minha primeira viagem e assim saímos de São Paulo com destino a Belo Horizonte na manhã seguinte o motorista acompanhante dava as coordenadas das ruas por onde eu deveria passar até eu entrar na Rodovia Fernão Dias e seguir sempre em frente.

Cristóvão ia me orientando onde deveríamos parar para se alimentar e após três paradas em postos de gasolina e lanchonetes da rodovia Fernão Dias estávamos na querida Belo Horizonte.

Foram nove horas de estrada e eu estava muito feliz e quando chegamos na transportadora da capital de Minas e eu saí da boleia todos os motoristas da transportadora ficaram surpresos com a minha presença e com a minha juventude.

O tempo foi passando e as viagens foram acontecendo e foi quando conheci Paulo, um caminhoneiro um pouco mais velho do que eu e começamos a namorar. Eu continuava a fazer a viagem para Belo Horizonte e Paulo fazia a viagem de São Paulo para Salvador e quando nos encontrávamos nós namorávamos um pouco.

Depois de alguns meses namorando o Paulo ele sugeriu se poderíamos casar e eu imediatamente disse que não e disse que só aceitaria o casamento se ele fosse solicitar o casamento junto aos meus pais. Paulo sorriu muito e disse: mas Soraia, então não vamos nos casar nunca, pois, você não sabe onde está seu pai! Gargalhei muito e disse: Pois vamos procurar meu pai por este mundão afora e assim adiamos um pouco mais nosso casamento.

Após dois anos de namoro resolvemos casar e levei Paulo para conhecer minha família e solicitamos junto a empresa, férias conjunta, eu e o Paulo para realizarmos o nosso casamento. Convidamos todos os caminhoneiros e o proprietário da transportadora que nos presenteou com uma viagem após o casamento e assim aconteceu o nosso casamento que foi muito lindo.

O Paulo estava me esperando na igreja para casarmos e após longos minutos de espera, uma enorme carreta estacionou na frente da igreja e desci da boleia com muito cuidado para não danificar meu lindo vestido de noiva. Naquele exato momento em que eu estava entrando na igreja novamente senti a falta do meu pai José para entrar comigo na igreja, algumas lágrimas surgiram, sorri e entrei na igreja com muita alegria.

Paulo não se conteve e deixou as lágrimas invadirem o seu rosto. O casamento foi realizado sob os olhares de velhos e conhecidos caminhoneiros e das nossas famílias e após o casamento quando saímos da igreja fomos abraçados pelos nossos amigos caminhoneiros e nossos parentes entre alguns estampidos de fogos de artifício e o som de várias buzinas dos caminhões que estavam estacionados em frente e ao redor da igreja.

A festa foi totalmente patrocinada pelo proprietário da transportadora e assim que terminou a festa fomos descansar para no outro dia iniciar nossa viagem para Salvador, Bahia em lua de mel.

A rota São Paulo Salvador Paulo conhecia muito bem, afinal aquela era a sua rota e assim fomos nos revezando ao volante e paramos várias vezes ao longo das estradas.

Os filhos nasceram e ficavam com minha mãe quando estávamos viajando e foi quando um dia Paulo voltou de viagem e eu estava em casa com as crianças e corri para abraça-lo e disse:

Paulo, tenho uma ótima novidade: conheci uma mulher que pode nos ajudar a encontrar meu pai José! Paulo ficou super feliz e decidimos ir até o endereço citado pela mulher para tentar localizar meu pai.

Chegamos no local indicado, paramos o caminhão na estreita rua e batemos palmas e gritei o nome do meu Pai. Apareceu um senhor chamado Domingos e perguntou o que queríamos com o José. Expliquei que eu estava procurando meu pai e após algumas informações o Domingos me deu a triste notícia que meu pai tinha falecido e disse que tinha casado com outra mulher e gerado vários filhos e perguntou se eu gostaria de conhecê-los e eu imediatamente disse que sim.

Marcamos um encontro com os filhos do meu pai com a sua esposa e conseguimos reunir toda a família e consegui ganhar mais uma família linda. Parei de dirigir caminhão e o Paulo ainda continua na estrada até hoje.

Todo o meu esforço em encontrar meu pai não foi em vão, afinal encontrei o meu querido esposo Paulo e hoje temos três filhos lindos.

sábado, 26 de junho de 2021

MEU QUERIDO SOBRINHO EVANDRO


 Eu andava pela vida sempre dormindo aqui e acolá e existiu um tempo em que morei na casa da minha estimada irmã Sônia que jamais negou um “pouso” ou uma breve estadia até eu arrumar outro canto para esticar meu esquelético corpo carcomido pelo álcool.

Num determinado sábado eu estava sentado na frente da casa da minha irmã observando a tagarelice dos frenéticos feirantes e eis que surge meu querido sobrinho Evandro e fez um convite para mim:

— E aí tio, o que está fazendo agora? E respondi um pouco envergonhado.

- Ah! Baixinho, agora estou pensando na vida e tentando achar uma solução para esta minha vida de nômade.

— Que isto tio, tenho um convite para fazer para o senhor.

— Qual é o próximo negócio, o próximo empreendimento que iremos fazer?

— Nada tio, quero convidar o senhor para ir lavar o carro comigo.

— Mas...baixinho, onde fica este lava-rápido, muito longe?

— Nada tio é aqui mesmo na Estrada da Conceição, a Delicia comprou um lava-rápido sabia?

— Não, não sabia e quem é a delícia?

— Ah! Tio chega de perguntas e entra logo aqui no carro e vou apresentar a Delícia para o senhor.

Entrei no carro e passados alguns minutos já estávamos no lava-rápido da Delícia, subimos alguns degraus e lá estávamos em um lindo bar, tipo mezanino.

Quando a Delícia viu o baixinho sorriu e disse:

Senta queridos para descansar um pouco, vai querer beber alguma coisa?

O Evandro pediu uma cerveja e uma porção de calabresa acebolada e começou umas das mais deliciosas prosas que tivemos em toda nossa vida.

— E aí baixinho lembra quando você era pequenininho e eu trabalhava na Elebra e fazíamos churrasco em plena segunda-feira?

Ah! Se não lembro tio, claro que lembro, o senhor ganhava bem né?

— Imagina baixinho, ganhava razoavelmente para vez ou outra fazer um churrasquinho sob a reprovação da minha mãe que não admitia um churrasco numa segunda-feira à noite e eu adorava e você então vibrava… lembra?

— Claro tio que lembro tio.

O Evandro levantou a mão e pediu mais uma cerveja de garrafa para a Delícia e eu pensei: puts! É hoje que vou dormir na rua, pois, minha irmã proibiu eu de beber enquanto estivesse na casa onde ela morava, mas..deixa rolar para ver no que vai dar.

A Delícia colocou delicadamente a cerveja sobre a mesa, encheu nossos copos e partiu para preparar uma nova porção para degustarmos, desta vez era mandioca frita.

E ai tio, lembra quando fomos vender cafezinho e quibe na feira de sábado?

- Ah!lembro sim (risos).. Eu muito “zoião” saí com os quibes e você com o café e você vendeu tudo e eu apenas alguns quibes.

— Mas foi muito divertido ver nossa agonia em acordar de madrugada e ainda minha mãe me ajudou, lembra?

— Sim, sim, se não lembro, mas vamos pular esta parte vamos para a próxima.

Um sorriso enorme e debochado do baixinho fez se presente no bar da delícia, as cervejas e porções foram sendo consumidas e as lindas lembranças afloravam em nossa mente e fomos para mais uma lembrança.

— E ai tio, lembra quando fomos vender rodos e vassouras pelas ruas da Vila Maria, Vila Sabrina?

— Sim, se não lembro, você queria ir ao ratinho me denunciar porque queria o dinheiro das vendas dos rodos e das vassouras e acabou vendendo todos os rodos e vassouras numa comunidade. Lembra?

Outro sorriso fez-se largo no rosto do querido sobrinho e assim fomos lembrando de todas as nossas aventuras de negociantes regadas de muitas cervejas e foi quando o filho da Delícia veio dizer que o carro já estava lavado e aspirado, pronto para entrega.

O baixinho riu e disse:

— Ah!lava de novo, pois o papo com o tio Luiz está tão bom.

O filho da Delícia saiu sorrindo sem entender nada e foi lavar outro carro.

Depois de quase todos os casos vividos por nós serem lembrados nos abraçamos fraternalmente e o baixinho deu um beijo no meu rosto e disse:

- Gosto muito de você velho, se cuida viu e vamos embora encarar a Dona Sônia que deve estar brava, muito brava.

Desci as escadas da casa da minha irmã em passos trôpegos e sentei-me pesadamente em um velho sofá e fiquei imaginando o tanto quanto aquele meu querido sobrinho era gente fina.

Adormeci no sofá, acordei de madrugada balbuciando:

E ai baixinho vamos relembrar mais alguns “causos”?

Um encontro maravilhoso que nos proporcionou um grande e raro momento vividos nesta vida. Obrigado querido Evandro e descanse em paz que em breve daremos continuação a nossa prosa.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

TIA NINA NO CÉU


 O vírus covid-19 não dava trégua e continuava a fazer milhares de vítimas ao redor do mundo, motivo pelo qual alguns que passaram por aqui e contraíram o mesmo, depois de tanta luta em meio ao caos instalado em quase todos os hospitais deste planeta sucumbiam e lá estavam alguns poucos selecionados pela conduta e por merecimento por fazer o bem e esparramar gestos de generosidades entre nós aguardando na porta do céu qual seria o destino a ser tomado.

No dia 2 de maio de 2021 às 9:30, tia Nina chegou no céu e ficou espantada com tanta gente aguardando a vez de ser chamada para saber o que aconteceria a partir daquele momento.

Aquele lugar bonito e exalando perfume agradava muito tia Nina que assim que chegou no céu ficou aguardando calmamente a hora e a vez de ser chamada através de um enorme alto-falante instalado em uma árvore que ficava tocando lindas músicas orquestradas com o som quase inaudível.

Olhou de soslaio ao redor para ver se conhecia alguém para poder conversar um pouco enquanto aguardava o Pedrão chamar as pessoas e repentinamente chegou uma senhora e se apresentou dizendo que não sabia como tinha chegado até aquele lugar e perguntou para tia Nina:

— Você sabe onde estamos? O que estamos fazendo por aqui? Tia Nina respondeu:

— Não tenho a mínima ideia onde estamos, mas muito me agrada este ambiente, muito florido!

O alto-falante começou a chamar as pessoas para se apresentar na porta do céu para conversar com o porteiro Pedro e tia Nina pediu silêncio para a nova amiga ficar quieta para escutar o nome que seria anunciado pelo alto-falante.

Várias pessoas foram chamadas e após alguns minutos o alto-falante chamou tia Nina que apressadamente desvencilhou daquele aglomerado de pessoas e se apresentou sorrindo ao porteiro que falou:

Por gentileza dona Nina acompanha-me, pois existe um senhor que gostaria de conversar com a senhora.

Caminharam por enormes árvores e o porteiro apresentou um senhor barbudo para tia Nina e saiu apressado para atender o restante do pessoal.

Tia Nina olhou fixamente para aquele homem barbudo e sentiu que o conhecia, mas não lembrava de onde e foi quando ela disse:

Oi! Bom dia, meu nome é Benvinda, mas me chamavam de Nina, quem é o senhor?

Benvinda? Que nome bonito! Então seja muito bem-vinda entre nós!

O senhor sorriu angelicalmente e disse com voz baixa: Meu nome é Jesus.

Tia Nina deixou rolar algumas lágrimas e prosseguiu no questionamento:

Onde estou, o que estou fazendo aqui? Jesus respondeu: você está no céu e está aqui por merecimento, por ter sido uma pessoa muito boa na terra, por ajudar todos e por amar tanto sua linda família.

Tia nina se benzeu e perguntou: gosto muito de conversar, vou poder conversar aqui no céu?

Jesus sorriu e disse: sim vai poder conversar bastante e o melhor com pessoas que você conheceu na terra e está presente entre nós. Tia Nina já estava aliviada e muito contente em poder rever os parentes que tinham partido fazia anos e prosseguiu com o questionamento:

Gosto de cozinhar e adoro plantas, vou poder cozinhar por aqui e cuidar de algumas plantas?

Jesus respondeu: aqui nós nos alimentamos com a paz espiritual e quanto a cuidar das plantas temos todas as espécies e são de todos.

Levantaram-se lentamente daquele enorme tronco de madeira e foram caminhando entre lindas árvores e foi quando Jesus apontou várias pessoas e perguntou?

Conhece alguém deste pessoal? Um enorme sorriso da tia Nina esparramou-se pelo céu ao ver todos os parentes e pessoas conhecidas que passaram pela terra vir ao seu encontro.

Vários abraços e beijos entre todos se fizeram presentes naquele momento e tia Nina não se continha de tanta felicidade e foi quando surgiu entre o pessoal o João, esposo da tia Nina e disse:

Nina, que saudades de você! Entre abraços, beijos e várias lágrimas ficaram alguns minutos abraçados entre aplausos dos presentes. Tia Nina foi abraçando todos, um por um e assim permaneceu noite adentro entre vários sorrisos esparramados pelo céu e várias conversas sendo colocadas em dia.

TIA NINA


 ...Bati palmas no portão, alguns cachorros vieram me recepcionar e em seguida apareceu a querida tia Nina com um sorriso maravilhoso estampado no rosto. Tia Nina sempre foi e ainda é muito risonha e quando recebia visitas em sua casa ficava muito feliz.Caminhou lentamente até o portão, abriu-o e deu-me um carinhoso abraço e desejou-me uma boa estadia na sua residência.Pedi a benção e beijei a mão da tia Nina  que imediatamente começou a perguntar sobre meus pais, minhas irmãs, se todos estavam bem de saúde. Carregamos a pequena mala até um quarto e ela apresentou minha cama, o guarda-roupa e disse que eu iria dividir o mesmo com dois primos: O Edson e o Evanildo. Eu já tinha conversado com tia Nina sobre o meu objetivo em morar em Jacareí, pois ficava perto de São José dos Campos onde estava a ETEP, escola onde eu iria estudar.O tempo foi passando e tia Nina sempre alegre nos acolhia na sua residência e no seu coração. Comecei a trabalhar em uma construtora para poder manter me e meu único objetivo era estudar muito para tornar-me engenheiro e assim o tempo foi passando e minha juventude na casa da tia Nina foi maravilhosa. Sonhos e realidades misturavam-se cotidianamente e minha mente vagava entre o presente e um futuro cheio de alegria ao lado de pessoas maravilhosas. Como eu trabalhava perto da casa da tia Nina todos os dias eu ia almoçar em casa e entre o embarcar no velho ônibus preto do DNER e descer na Avenida Siqueira Campos e subir a rua Santa Cecília até o bairro do Avareí avistava muitos conhecidos. Na hora do almoço ligava meu radinho de pilha Philco e ficava ouvindo um programa na rádio Bandeirantes com o comunicador Hélio Ribeiro que traduzia lindas músicas que tanto acalentava meu coração.Nos finais de semana sempre acontecia partidas de ping-pong e entre um café e outro ainda sobrava tempo para paquerar lindas meninas que frequentava a casa da tia Nina.Fiquei hospedado na casa da tia Nina durante aproximadamente uns dois anos e foi muito gratificante e prazeroso aquele tempo que ainda trago na minha memória época de plena felicidade..Muito obrigado tia Nina por poder proporcionar época tão linda na minha vida.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

COTA DE PALAVRAS

 Recentemente foi publicada uma pesquisa que teve a “paciência” de contar quantas palavras uma mulher fala por dia e chegaram ao surpreendente número de 30 000 palavras cotidianamente.

Existiu uma época em que trabalhei numa fábrica de remédios onde trabalhavam aproximadamente umas 800 mulheres e todos os dias éramos obrigados a ouvir as 800 mulheres falando simultaneamente e existia determinado momento que apenas o protetor auricular não era suficiente para barrar o “falatório” das queridas colegas de trabalho.

Num determinado dia eu e um colega de trabalho chamado Nélson resolvemos estabelecer uma cota de palavras por dia para as colegas de trabalho e assim nós colocávamos um determinado número num papelzinho e entregávamos as colegas e pedíamos que falasse somente aquela quantidade de palavras naquele período e ajudasse-nos a combater a poluição sonora no nosso ambiente de trabalho.

Quantas vezes fomos zombados com a tal da brincadeira, mas garanto que muito valia a brincadeira, pois, a existência de um pequeno lembrete no papelzinho dizendo: após sua cota encerrada, fique quieta, pois, só assim começaremos a gostar de você!

A brincadeira ia mais longe, pois, enquanto nós embalávamos milhares de remédios tentávamos criar uma história que reduziria drasticamente a quantidade de palavras faladas pelo ser humano e assim era a história:

Assim que nascêssemos nós receberíamos uma cota de palavras e um contador regressivo e a cada palavra falada ia abatendo do contador até que a cota terminasse e a pessoa ficasse muda e, nessa altura a gente se divertia observando algumas colegas de trabalho e dizíamos:

— Tá vendo a Regina como fala, está com apenas 20 anos garanto que ficaria muda! A Tati também fala muito, garanto que aos doze anos não pronunciaria mais nenhuma palavra.

Nossa mente divagava longe do ambiente de trabalho e ficávamos pensando em vários vendedores, palestrantes, alguns apresentadores da TV e sorríamos largamente.

Nossa brincadeira durou pouco, pois, algumas colegas de trabalho temendo ficarem mudas denunciaram a gente para nossa supervisora que gentilmente pediu para que ficássemos calados. Assim prosseguíamos quietinhos embalando nossos milhares de remédios e sempre pedindo aos nobres pesquisadores farmacêuticos que inventassem um remédio que fizessem as meninas ficarem quietas.

O tempo foi passando e nossa cota de palavras acabou e a mulherada continuou a falar desesperadamente e nós ficamos quietinhos num canto da fábrica observando a beleza das palavras faladas pelas queridas colegas de trabalho.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O SORVETEIRO

 Novamente lá estava eu sem ter onde morar, dormindo de casa em casa de parentes e tentando se estabelecer em algum lugar e fui até a residência do meu primo José que morava em Guarulhos, no estado de São Paulo e mais uma vez solicitei se podia ficar um tempo morando com ele e família.

Meu primo sorriu e deve ter pensado naquele exato momento “Puts, mais uma vez este” mala” ancorando com seus sonhos na nossa família!”.

Entrei na casa do meu primo transpirando muito pela incerteza do que iria acontecer com minha vida e o meu primo convidou-me gentilmente para sentar no sofá e questionou-me qual seria a próxima aventura.

Passei a dar detalhes qual seria o meu próximo passo naquela árdua vidinha e detalhei meu plano que necessitava apenas de alguns meses para passar em um concurso público em Ilhabela. Meu primo, sorriu nervosamente, passou a mão no rosto, e perguntou quanto tempo de estadia eu necessitava e como eu iria sobreviver durante aquele tempo.

Eu já tinha programado tudo: ficaria morando na casa do meu primo, venderia sorvetes pelas ruas da cidade de Guarulhos, inscrever-me-ia no Concurso para Auxiliar de Serviços Gerais em Ilhabela que estava com as inscrições abertas, faria a prova, seria aprovado e iria morar em Ilhabela. Neste exato momento meu primo deve ter pensado: "este louco acha que é fácil passar em um Concurso Público”. Como tínhamos morados no mesmo quintal e meu primo sabia que quando eu estava resolvido realmente em passar em um Concurso Público eu me empenhava ao máximo para alcançar o meu objetivo, digamos assim, eu tinha uma certa experiência em passar em Concursos Públicos, pois, eu já tinha sido aprovado em seis Concursos Públicos, exercido o cargo e simplesmente abandonado todos por não estar feliz onde eu trabalhava. Assim, detalhei os meus planos e mais uma vez fui aceito para morar com a família do meu primo. Apresentou-me o sofá onde eu deveria dormir alguns cachorros que tanto a família amava desejou-me boa sorte e saiu da sala abandonando eu e meus sonhos compartilhados com minha sobrinha Camila que estava muito feliz em eu ir morar com todos da família e entre um gole de café e um cigarro aceso descrevia alegremente minha ida para a Ilhabela e a minha sobrinha perguntava:

— Tio, o senhor conhece Ilhabela, tem conhecidos por lá?

Sorria debochadamente e dizia: olha querida sobrinha, não conheço absolutamente ninguém, nunca estive por lá, sei apenas que é um lugar maravilhoso para morar e é disto que preciso neste exato momento: paz, sossego, alegria, praia e mar.

Minha sobrinha ria e dizia: É louco mesmo e tem espírito de andarilho, de cigano. Que Deus o guie e o proteja muito!

No dia posterior sai procurando alguém que fornecesse sorvetes para eu poder vender pelas ruas da cidade de Guarulhos. Depois de muito andar acabei descobrindo que existia uma pequena sorveteria perto da casa do meu primo.

Fui até a sorveteria e apresentei-me para a proprietária que chamava Ednéia e disse que já tinha vendido sorvetes em quase tudo quanto é canto da cidade de São Paulo e litoral norte de São Paulo e necessitava muito vender sorvetes para sobreviver e esperar ser aprovado em um concurso publico que eu iria se inscrever.

A proprietária fez mais algumas perguntas e ficou um pouco receosa em fornecer sorvetes em consignação para eu vender, pediu que viesse no próximo dia que iria liberar um carrinho para que eu pudesse vender os sorvetes pelas ruas da cidade.

No dia seguinte fui até a sorveteria retirar os sorvetes para vendê-los, a proprietária do carrinho de sorvetes, colocou apenas cinquenta picolés, desejou-me boa sorte e foi atender uns clientes que queriam comprar sorvetes.

Sai empurrando o carrinho sem rumo e resolvi montar um itinerário pelas ruas ao redor da casa do meu primo e assim os dias foram passando e eu já conseguia vender setenta sorvetes em média por dia.

Fui ganhando confiabilidade com a Ednéia e ajudado muito pelo calor que fazia naqueles dias quentes, as vendas iam de vento em popa sob o escaldante sol que insistia em nos deixar bem morenos e eu me deliciava acalentando o grande sonho de morar em uma ilha, Ilhabela.

Estávamos no mês de dezembro e eis que uma triste notícia foi dada após um dia de muito andar pelas ruas de Guarulhos: Infelizmente Luiz não vai ser possível fornecer sorvetes para você vender, disse a Ednéia. Abaixei a cabeça e perguntei tristemente: por que não será possível eu não vender mais sorvetes para você? A Ednéia disse: eu e meu marido vamos viajar para o Sul do país e vamos ficar uns vinte dias sem produzir sorvetes, você entende? Cocei a cabeça e imediatamente disse: você pode deixar um freezer com mil picolés na casa do meu primo e eu vou vendendo aos poucos todos os dias, e quando você voltar pago os mil sorvetes, o que você acha?

Como eu andava vendendo muito sorvetes ela concordou imediatamente e quando ela foi viajar deixou um enorme freezer na sala da casa do meu primo. Era uma verdadeira festa, saia para vender os sorvetes e liberava alguns sorvetes para a família do meu primo poder degustar.

Os dias ficaram mais emocionantes para mim, pois, me sentia na praia e a vontade de passar no Concurso Público crescia a cada dia que passava.

O Concurso de Ilhabela já estava com as inscrições abertas para o cargo que eu almejava, me inscrevi e dei uma olhada na banca, no conteúdo programático, na quantidade de vagas e não tive dúvida: Pensei: “Uma vaga é minha” irei passar, afinal já passei em tantos Concursos e este não me escapa.

Entre as vendas dos sorvetes pelas ruas avenidas e praças de Guarulhos ainda sobrava tempo para dar uma espiada em uma apostila velha e recordar alguns tópicos de Língua Portuguesa e Matemática e às vezes até me dava ao prazer de sentar em uma “mesa de bar” para degustar algumas cervejas enquanto meu pensamento viajava pelas ondas das praias de Ilhabela.

As vendas de sorvetes cada dia que passava sempre aumentava e até convidei minha sobrinha Camila para vender sorvetes comigo e ela aceitou, foi algumas vezes comigo e depois declinou, pois, andava muito e o calor era insuportável. Às vezes a sorte nos acompanhava e vendíamos todos os sorvetes em um orgão público e voltavamos rapidamente para casa.

Era muito engraçado nossas andanças pelas ruas, pois, eu entrava em tudo quanto é lugar e contava para todos que estava apenas vendendo os sorvetes para ir morar em Ilhabela e todos riam e falavam: Ah!. tá! Conta outra piada tiozão.Os fregueses compravam o sorvete desejavam boa sorte e lá ia eu abraçado com minha esperança empurrando o lindo carrinho de sorvetes pela linda cidade de Guarulhos que tanto tinha me acolhido e mais uma vez estava me dando mais uma oportunidade de servir de plataforma para ancorar meu sonho.

O grande dia chegou para ir fazer a prova em Ilhabela e novamente encarnei o espirito de aventureiro e coloquei a mochila e uma barraca de camping nas costas e lá fui eu acampar e fazer a prova.

Fiz a prova em quarenta minutos e fiquei em dúvida em apenas uma questão que perguntava sobre Ilhabela e eu não tinha a mínima noção da alternativa que “chutaria”, optei pela errada.

Das 40 questões eu tinha acertado 39 e as chances de ser aprovado era grande, pois, existia 150 vagas para o cargo que eu estava concorrendo.

Enquanto aguardava a classificação, envolvido no meu manto de ansiedade ia vendendo meus picolés e quando saiu a classificação e eu tinha sido classificado em 135 (centésimo trigésimo quinto) lugar.

Minha alegria foi imensa e só restava naquele exato momento aguardar a convocação para apresentar os documentos e fazer exame médico para ir morar na tão sonhada Ilha.

Demorou apenas um mês e fui convocado para ir fazer o exame médico e apresentar os documentos.

Fiz todos os exames e apresentei todos os documentos e marcaram uma data para assumir o cargo na Prefeitura.

Despedi de todos da casa do meu primo com lágrimas nos olhos e agradeci a todos, coloquei minha mochila nas costas, fiquei alguns momentos refletindo no ponto de ônibus da avenida Guarulhos com os olhos marejados e pensando: "Quando almejamos algo e desejamos arduamente que este objetivo seja alcançado todos os anjos nos ajudam” e lá fui eu e meu anjo da guarda, que insistia em ficar por alí mesmo e eu puxava o mesmo pelas mãos e assim entramos no ônibus sorrindo para todos que não entendiam absolutamente nada da nossa imensa alegria em morar em uma Ilha, Ilhabela.  Quando eu cheguei em Ilhabela...bom,  fica para a próxima crônica.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...