sábado, 26 de junho de 2021

MEU QUERIDO SOBRINHO EVANDRO


 Eu andava pela vida sempre dormindo aqui e acolá e existiu um tempo em que morei na casa da minha estimada irmã Sônia que jamais negou um “pouso” ou uma breve estadia até eu arrumar outro canto para esticar meu esquelético corpo carcomido pelo álcool.

Num determinado sábado eu estava sentado na frente da casa da minha irmã observando a tagarelice dos frenéticos feirantes e eis que surge meu querido sobrinho Evandro e fez um convite para mim:

— E aí tio, o que está fazendo agora? E respondi um pouco envergonhado.

- Ah! Baixinho, agora estou pensando na vida e tentando achar uma solução para esta minha vida de nômade.

— Que isto tio, tenho um convite para fazer para o senhor.

— Qual é o próximo negócio, o próximo empreendimento que iremos fazer?

— Nada tio, quero convidar o senhor para ir lavar o carro comigo.

— Mas...baixinho, onde fica este lava-rápido, muito longe?

— Nada tio é aqui mesmo na Estrada da Conceição, a Delicia comprou um lava-rápido sabia?

— Não, não sabia e quem é a delícia?

— Ah! Tio chega de perguntas e entra logo aqui no carro e vou apresentar a Delícia para o senhor.

Entrei no carro e passados alguns minutos já estávamos no lava-rápido da Delícia, subimos alguns degraus e lá estávamos em um lindo bar, tipo mezanino.

Quando a Delícia viu o baixinho sorriu e disse:

Senta queridos para descansar um pouco, vai querer beber alguma coisa?

O Evandro pediu uma cerveja e uma porção de calabresa acebolada e começou umas das mais deliciosas prosas que tivemos em toda nossa vida.

— E aí baixinho lembra quando você era pequenininho e eu trabalhava na Elebra e fazíamos churrasco em plena segunda-feira?

Ah! Se não lembro tio, claro que lembro, o senhor ganhava bem né?

— Imagina baixinho, ganhava razoavelmente para vez ou outra fazer um churrasquinho sob a reprovação da minha mãe que não admitia um churrasco numa segunda-feira à noite e eu adorava e você então vibrava… lembra?

— Claro tio que lembro tio.

O Evandro levantou a mão e pediu mais uma cerveja de garrafa para a Delícia e eu pensei: puts! É hoje que vou dormir na rua, pois, minha irmã proibiu eu de beber enquanto estivesse na casa onde ela morava, mas..deixa rolar para ver no que vai dar.

A Delícia colocou delicadamente a cerveja sobre a mesa, encheu nossos copos e partiu para preparar uma nova porção para degustarmos, desta vez era mandioca frita.

E ai tio, lembra quando fomos vender cafezinho e quibe na feira de sábado?

- Ah!lembro sim (risos).. Eu muito “zoião” saí com os quibes e você com o café e você vendeu tudo e eu apenas alguns quibes.

— Mas foi muito divertido ver nossa agonia em acordar de madrugada e ainda minha mãe me ajudou, lembra?

— Sim, sim, se não lembro, mas vamos pular esta parte vamos para a próxima.

Um sorriso enorme e debochado do baixinho fez se presente no bar da delícia, as cervejas e porções foram sendo consumidas e as lindas lembranças afloravam em nossa mente e fomos para mais uma lembrança.

— E ai tio, lembra quando fomos vender rodos e vassouras pelas ruas da Vila Maria, Vila Sabrina?

— Sim, se não lembro, você queria ir ao ratinho me denunciar porque queria o dinheiro das vendas dos rodos e das vassouras e acabou vendendo todos os rodos e vassouras numa comunidade. Lembra?

Outro sorriso fez-se largo no rosto do querido sobrinho e assim fomos lembrando de todas as nossas aventuras de negociantes regadas de muitas cervejas e foi quando o filho da Delícia veio dizer que o carro já estava lavado e aspirado, pronto para entrega.

O baixinho riu e disse:

— Ah!lava de novo, pois o papo com o tio Luiz está tão bom.

O filho da Delícia saiu sorrindo sem entender nada e foi lavar outro carro.

Depois de quase todos os casos vividos por nós serem lembrados nos abraçamos fraternalmente e o baixinho deu um beijo no meu rosto e disse:

- Gosto muito de você velho, se cuida viu e vamos embora encarar a Dona Sônia que deve estar brava, muito brava.

Desci as escadas da casa da minha irmã em passos trôpegos e sentei-me pesadamente em um velho sofá e fiquei imaginando o tanto quanto aquele meu querido sobrinho era gente fina.

Adormeci no sofá, acordei de madrugada balbuciando:

E ai baixinho vamos relembrar mais alguns “causos”?

Um encontro maravilhoso que nos proporcionou um grande e raro momento vividos nesta vida. Obrigado querido Evandro e descanse em paz que em breve daremos continuação a nossa prosa.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

TIA NINA NO CÉU


 O vírus covid-19 não dava trégua e continuava a fazer milhares de vítimas ao redor do mundo, motivo pelo qual alguns que passaram por aqui e contraíram o mesmo, depois de tanta luta em meio ao caos instalado em quase todos os hospitais deste planeta sucumbiam e lá estavam alguns poucos selecionados pela conduta e por merecimento por fazer o bem e esparramar gestos de generosidades entre nós aguardando na porta do céu qual seria o destino a ser tomado.

No dia 2 de maio de 2021 às 9:30, tia Nina chegou no céu e ficou espantada com tanta gente aguardando a vez de ser chamada para saber o que aconteceria a partir daquele momento.

Aquele lugar bonito e exalando perfume agradava muito tia Nina que assim que chegou no céu ficou aguardando calmamente a hora e a vez de ser chamada através de um enorme alto-falante instalado em uma árvore que ficava tocando lindas músicas orquestradas com o som quase inaudível.

Olhou de soslaio ao redor para ver se conhecia alguém para poder conversar um pouco enquanto aguardava o Pedrão chamar as pessoas e repentinamente chegou uma senhora e se apresentou dizendo que não sabia como tinha chegado até aquele lugar e perguntou para tia Nina:

— Você sabe onde estamos? O que estamos fazendo por aqui? Tia Nina respondeu:

— Não tenho a mínima ideia onde estamos, mas muito me agrada este ambiente, muito florido!

O alto-falante começou a chamar as pessoas para se apresentar na porta do céu para conversar com o porteiro Pedro e tia Nina pediu silêncio para a nova amiga ficar quieta para escutar o nome que seria anunciado pelo alto-falante.

Várias pessoas foram chamadas e após alguns minutos o alto-falante chamou tia Nina que apressadamente desvencilhou daquele aglomerado de pessoas e se apresentou sorrindo ao porteiro que falou:

Por gentileza dona Nina acompanha-me, pois existe um senhor que gostaria de conversar com a senhora.

Caminharam por enormes árvores e o porteiro apresentou um senhor barbudo para tia Nina e saiu apressado para atender o restante do pessoal.

Tia Nina olhou fixamente para aquele homem barbudo e sentiu que o conhecia, mas não lembrava de onde e foi quando ela disse:

Oi! Bom dia, meu nome é Benvinda, mas me chamavam de Nina, quem é o senhor?

Benvinda? Que nome bonito! Então seja muito bem-vinda entre nós!

O senhor sorriu angelicalmente e disse com voz baixa: Meu nome é Jesus.

Tia Nina deixou rolar algumas lágrimas e prosseguiu no questionamento:

Onde estou, o que estou fazendo aqui? Jesus respondeu: você está no céu e está aqui por merecimento, por ter sido uma pessoa muito boa na terra, por ajudar todos e por amar tanto sua linda família.

Tia nina se benzeu e perguntou: gosto muito de conversar, vou poder conversar aqui no céu?

Jesus sorriu e disse: sim vai poder conversar bastante e o melhor com pessoas que você conheceu na terra e está presente entre nós. Tia Nina já estava aliviada e muito contente em poder rever os parentes que tinham partido fazia anos e prosseguiu com o questionamento:

Gosto de cozinhar e adoro plantas, vou poder cozinhar por aqui e cuidar de algumas plantas?

Jesus respondeu: aqui nós nos alimentamos com a paz espiritual e quanto a cuidar das plantas temos todas as espécies e são de todos.

Levantaram-se lentamente daquele enorme tronco de madeira e foram caminhando entre lindas árvores e foi quando Jesus apontou várias pessoas e perguntou?

Conhece alguém deste pessoal? Um enorme sorriso da tia Nina esparramou-se pelo céu ao ver todos os parentes e pessoas conhecidas que passaram pela terra vir ao seu encontro.

Vários abraços e beijos entre todos se fizeram presentes naquele momento e tia Nina não se continha de tanta felicidade e foi quando surgiu entre o pessoal o João, esposo da tia Nina e disse:

Nina, que saudades de você! Entre abraços, beijos e várias lágrimas ficaram alguns minutos abraçados entre aplausos dos presentes. Tia Nina foi abraçando todos, um por um e assim permaneceu noite adentro entre vários sorrisos esparramados pelo céu e várias conversas sendo colocadas em dia.

TIA NINA


 ...Bati palmas no portão, alguns cachorros vieram me recepcionar e em seguida apareceu a querida tia Nina com um sorriso maravilhoso estampado no rosto. Tia Nina sempre foi e ainda é muito risonha e quando recebia visitas em sua casa ficava muito feliz.Caminhou lentamente até o portão, abriu-o e deu-me um carinhoso abraço e desejou-me uma boa estadia na sua residência.Pedi a benção e beijei a mão da tia Nina  que imediatamente começou a perguntar sobre meus pais, minhas irmãs, se todos estavam bem de saúde. Carregamos a pequena mala até um quarto e ela apresentou minha cama, o guarda-roupa e disse que eu iria dividir o mesmo com dois primos: O Edson e o Evanildo. Eu já tinha conversado com tia Nina sobre o meu objetivo em morar em Jacareí, pois ficava perto de São José dos Campos onde estava a ETEP, escola onde eu iria estudar.O tempo foi passando e tia Nina sempre alegre nos acolhia na sua residência e no seu coração. Comecei a trabalhar em uma construtora para poder manter me e meu único objetivo era estudar muito para tornar-me engenheiro e assim o tempo foi passando e minha juventude na casa da tia Nina foi maravilhosa. Sonhos e realidades misturavam-se cotidianamente e minha mente vagava entre o presente e um futuro cheio de alegria ao lado de pessoas maravilhosas. Como eu trabalhava perto da casa da tia Nina todos os dias eu ia almoçar em casa e entre o embarcar no velho ônibus preto do DNER e descer na Avenida Siqueira Campos e subir a rua Santa Cecília até o bairro do Avareí avistava muitos conhecidos. Na hora do almoço ligava meu radinho de pilha Philco e ficava ouvindo um programa na rádio Bandeirantes com o comunicador Hélio Ribeiro que traduzia lindas músicas que tanto acalentava meu coração.Nos finais de semana sempre acontecia partidas de ping-pong e entre um café e outro ainda sobrava tempo para paquerar lindas meninas que frequentava a casa da tia Nina.Fiquei hospedado na casa da tia Nina durante aproximadamente uns dois anos e foi muito gratificante e prazeroso aquele tempo que ainda trago na minha memória época de plena felicidade..Muito obrigado tia Nina por poder proporcionar época tão linda na minha vida.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

COTA DE PALAVRAS

 Recentemente foi publicada uma pesquisa que teve a “paciência” de contar quantas palavras uma mulher fala por dia e chegaram ao surpreendente número de 30 000 palavras cotidianamente.

Existiu uma época em que trabalhei numa fábrica de remédios onde trabalhavam aproximadamente umas 800 mulheres e todos os dias éramos obrigados a ouvir as 800 mulheres falando simultaneamente e existia determinado momento que apenas o protetor auricular não era suficiente para barrar o “falatório” das queridas colegas de trabalho.

Num determinado dia eu e um colega de trabalho chamado Nélson resolvemos estabelecer uma cota de palavras por dia para as colegas de trabalho e assim nós colocávamos um determinado número num papelzinho e entregávamos as colegas e pedíamos que falasse somente aquela quantidade de palavras naquele período e ajudasse-nos a combater a poluição sonora no nosso ambiente de trabalho.

Quantas vezes fomos zombados com a tal da brincadeira, mas garanto que muito valia a brincadeira, pois, a existência de um pequeno lembrete no papelzinho dizendo: após sua cota encerrada, fique quieta, pois, só assim começaremos a gostar de você!

A brincadeira ia mais longe, pois, enquanto nós embalávamos milhares de remédios tentávamos criar uma história que reduziria drasticamente a quantidade de palavras faladas pelo ser humano e assim era a história:

Assim que nascêssemos nós receberíamos uma cota de palavras e um contador regressivo e a cada palavra falada ia abatendo do contador até que a cota terminasse e a pessoa ficasse muda e, nessa altura a gente se divertia observando algumas colegas de trabalho e dizíamos:

— Tá vendo a Regina como fala, está com apenas 20 anos garanto que ficaria muda! A Tati também fala muito, garanto que aos doze anos não pronunciaria mais nenhuma palavra.

Nossa mente divagava longe do ambiente de trabalho e ficávamos pensando em vários vendedores, palestrantes, alguns apresentadores da TV e sorríamos largamente.

Nossa brincadeira durou pouco, pois, algumas colegas de trabalho temendo ficarem mudas denunciaram a gente para nossa supervisora que gentilmente pediu para que ficássemos calados. Assim prosseguíamos quietinhos embalando nossos milhares de remédios e sempre pedindo aos nobres pesquisadores farmacêuticos que inventassem um remédio que fizessem as meninas ficarem quietas.

O tempo foi passando e nossa cota de palavras acabou e a mulherada continuou a falar desesperadamente e nós ficamos quietinhos num canto da fábrica observando a beleza das palavras faladas pelas queridas colegas de trabalho.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O SORVETEIRO

 Novamente lá estava eu sem ter onde morar, dormindo de casa em casa de parentes e tentando se estabelecer em algum lugar e fui até a residência do meu primo José que morava em Guarulhos, no estado de São Paulo e mais uma vez solicitei se podia ficar um tempo morando com ele e família.

Meu primo sorriu e deve ter pensado naquele exato momento “Puts, mais uma vez este” mala” ancorando com seus sonhos na nossa família!”.

Entrei na casa do meu primo transpirando muito pela incerteza do que iria acontecer com minha vida e o meu primo convidou-me gentilmente para sentar no sofá e questionou-me qual seria a próxima aventura.

Passei a dar detalhes qual seria o meu próximo passo naquela árdua vidinha e detalhei meu plano que necessitava apenas de alguns meses para passar em um concurso público em Ilhabela. Meu primo, sorriu nervosamente, passou a mão no rosto, e perguntou quanto tempo de estadia eu necessitava e como eu iria sobreviver durante aquele tempo.

Eu já tinha programado tudo: ficaria morando na casa do meu primo, venderia sorvetes pelas ruas da cidade de Guarulhos, inscrever-me-ia no Concurso para Auxiliar de Serviços Gerais em Ilhabela que estava com as inscrições abertas, faria a prova, seria aprovado e iria morar em Ilhabela. Neste exato momento meu primo deve ter pensado: "este louco acha que é fácil passar em um Concurso Público”. Como tínhamos morados no mesmo quintal e meu primo sabia que quando eu estava resolvido realmente em passar em um Concurso Público eu me empenhava ao máximo para alcançar o meu objetivo, digamos assim, eu tinha uma certa experiência em passar em Concursos Públicos, pois, eu já tinha sido aprovado em seis Concursos Públicos, exercido o cargo e simplesmente abandonado todos por não estar feliz onde eu trabalhava. Assim, detalhei os meus planos e mais uma vez fui aceito para morar com a família do meu primo. Apresentou-me o sofá onde eu deveria dormir alguns cachorros que tanto a família amava desejou-me boa sorte e saiu da sala abandonando eu e meus sonhos compartilhados com minha sobrinha Camila que estava muito feliz em eu ir morar com todos da família e entre um gole de café e um cigarro aceso descrevia alegremente minha ida para a Ilhabela e a minha sobrinha perguntava:

— Tio, o senhor conhece Ilhabela, tem conhecidos por lá?

Sorria debochadamente e dizia: olha querida sobrinha, não conheço absolutamente ninguém, nunca estive por lá, sei apenas que é um lugar maravilhoso para morar e é disto que preciso neste exato momento: paz, sossego, alegria, praia e mar.

Minha sobrinha ria e dizia: É louco mesmo e tem espírito de andarilho, de cigano. Que Deus o guie e o proteja muito!

No dia posterior sai procurando alguém que fornecesse sorvetes para eu poder vender pelas ruas da cidade de Guarulhos. Depois de muito andar acabei descobrindo que existia uma pequena sorveteria perto da casa do meu primo.

Fui até a sorveteria e apresentei-me para a proprietária que chamava Ednéia e disse que já tinha vendido sorvetes em quase tudo quanto é canto da cidade de São Paulo e litoral norte de São Paulo e necessitava muito vender sorvetes para sobreviver e esperar ser aprovado em um concurso publico que eu iria se inscrever.

A proprietária fez mais algumas perguntas e ficou um pouco receosa em fornecer sorvetes em consignação para eu vender, pediu que viesse no próximo dia que iria liberar um carrinho para que eu pudesse vender os sorvetes pelas ruas da cidade.

No dia seguinte fui até a sorveteria retirar os sorvetes para vendê-los, a proprietária do carrinho de sorvetes, colocou apenas cinquenta picolés, desejou-me boa sorte e foi atender uns clientes que queriam comprar sorvetes.

Sai empurrando o carrinho sem rumo e resolvi montar um itinerário pelas ruas ao redor da casa do meu primo e assim os dias foram passando e eu já conseguia vender setenta sorvetes em média por dia.

Fui ganhando confiabilidade com a Ednéia e ajudado muito pelo calor que fazia naqueles dias quentes, as vendas iam de vento em popa sob o escaldante sol que insistia em nos deixar bem morenos e eu me deliciava acalentando o grande sonho de morar em uma ilha, Ilhabela.

Estávamos no mês de dezembro e eis que uma triste notícia foi dada após um dia de muito andar pelas ruas de Guarulhos: Infelizmente Luiz não vai ser possível fornecer sorvetes para você vender, disse a Ednéia. Abaixei a cabeça e perguntei tristemente: por que não será possível eu não vender mais sorvetes para você? A Ednéia disse: eu e meu marido vamos viajar para o Sul do país e vamos ficar uns vinte dias sem produzir sorvetes, você entende? Cocei a cabeça e imediatamente disse: você pode deixar um freezer com mil picolés na casa do meu primo e eu vou vendendo aos poucos todos os dias, e quando você voltar pago os mil sorvetes, o que você acha?

Como eu andava vendendo muito sorvetes ela concordou imediatamente e quando ela foi viajar deixou um enorme freezer na sala da casa do meu primo. Era uma verdadeira festa, saia para vender os sorvetes e liberava alguns sorvetes para a família do meu primo poder degustar.

Os dias ficaram mais emocionantes para mim, pois, me sentia na praia e a vontade de passar no Concurso Público crescia a cada dia que passava.

O Concurso de Ilhabela já estava com as inscrições abertas para o cargo que eu almejava, me inscrevi e dei uma olhada na banca, no conteúdo programático, na quantidade de vagas e não tive dúvida: Pensei: “Uma vaga é minha” irei passar, afinal já passei em tantos Concursos e este não me escapa.

Entre as vendas dos sorvetes pelas ruas avenidas e praças de Guarulhos ainda sobrava tempo para dar uma espiada em uma apostila velha e recordar alguns tópicos de Língua Portuguesa e Matemática e às vezes até me dava ao prazer de sentar em uma “mesa de bar” para degustar algumas cervejas enquanto meu pensamento viajava pelas ondas das praias de Ilhabela.

As vendas de sorvetes cada dia que passava sempre aumentava e até convidei minha sobrinha Camila para vender sorvetes comigo e ela aceitou, foi algumas vezes comigo e depois declinou, pois, andava muito e o calor era insuportável. Às vezes a sorte nos acompanhava e vendíamos todos os sorvetes em um orgão público e voltavamos rapidamente para casa.

Era muito engraçado nossas andanças pelas ruas, pois, eu entrava em tudo quanto é lugar e contava para todos que estava apenas vendendo os sorvetes para ir morar em Ilhabela e todos riam e falavam: Ah!. tá! Conta outra piada tiozão.Os fregueses compravam o sorvete desejavam boa sorte e lá ia eu abraçado com minha esperança empurrando o lindo carrinho de sorvetes pela linda cidade de Guarulhos que tanto tinha me acolhido e mais uma vez estava me dando mais uma oportunidade de servir de plataforma para ancorar meu sonho.

O grande dia chegou para ir fazer a prova em Ilhabela e novamente encarnei o espirito de aventureiro e coloquei a mochila e uma barraca de camping nas costas e lá fui eu acampar e fazer a prova.

Fiz a prova em quarenta minutos e fiquei em dúvida em apenas uma questão que perguntava sobre Ilhabela e eu não tinha a mínima noção da alternativa que “chutaria”, optei pela errada.

Das 40 questões eu tinha acertado 39 e as chances de ser aprovado era grande, pois, existia 150 vagas para o cargo que eu estava concorrendo.

Enquanto aguardava a classificação, envolvido no meu manto de ansiedade ia vendendo meus picolés e quando saiu a classificação e eu tinha sido classificado em 135 (centésimo trigésimo quinto) lugar.

Minha alegria foi imensa e só restava naquele exato momento aguardar a convocação para apresentar os documentos e fazer exame médico para ir morar na tão sonhada Ilha.

Demorou apenas um mês e fui convocado para ir fazer o exame médico e apresentar os documentos.

Fiz todos os exames e apresentei todos os documentos e marcaram uma data para assumir o cargo na Prefeitura.

Despedi de todos da casa do meu primo com lágrimas nos olhos e agradeci a todos, coloquei minha mochila nas costas, fiquei alguns momentos refletindo no ponto de ônibus da avenida Guarulhos com os olhos marejados e pensando: "Quando almejamos algo e desejamos arduamente que este objetivo seja alcançado todos os anjos nos ajudam” e lá fui eu e meu anjo da guarda, que insistia em ficar por alí mesmo e eu puxava o mesmo pelas mãos e assim entramos no ônibus sorrindo para todos que não entendiam absolutamente nada da nossa imensa alegria em morar em uma Ilha, Ilhabela.  Quando eu cheguei em Ilhabela...bom,  fica para a próxima crônica.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

VOCÊ JÁ FOI POBRE OU PEÃO?

 Tudo começou com uma brincadeira em uma indústria de fabricação de equipamentos de auxílio a radionavegação aérea na qual eu trabalhava como Técnico em Eletrônica.

Enquanto esperávamos novos contratos serem fechados para iniciarmos a produção dos equipamentos ficávamos ociosos, na expectativa de novos e milionários contratos, alguns colegas já bem posicionados mental e financeiramente tinham grandes objetivos e lá estavam eles debruçados sobre espessos livros decifrando e calculando dificílimos problemas da indústria.

Eu, como sempre, um maravilhoso zombador do cotidiano e da vida ficava imaginando como poderia existir pessoas que gastavam eternos minutos lendo e relendo e se informando sobre tudo que rodeava o mundo da tecnologia daquela época.

Em um determinado dia, conversando com alguns colegas zombadores decidi fazer uma brincadeira e lançar um questionário na empresa com a seguinte pergunta: você já foi pobre ou peão? Assim começamos a responder a pergunta ora proposta, inicialmente entre nós (zombadores) e foi quando após nós zombadores escrevermos várias respostas da pergunta um colega começou a ler na sua mesa e gargalhava altamente e foi quando nosso gerente chegou sorrateiramente por trás do colega e ficou espiando caladamente e viu o caderninho com as respostas e o meu colega não percebeu a proximidade do gerente e continuou a rir e foi quando ele se virou para trás e levou um susto, fechou rapidamente o caderninho, esboçou um sorriso de desculpa e começou a tamborilar os dedos na mesa nervosamente.

O gerente pediu o caderninho, esboçou um sorriso de compreensão e caminhou lentamente até sua mesa e começou a ler as respostas e a rir. Pronto, nossos medos estavam armazenados temporariamente e foi quando o gerente chamou meu colega para sentar ao redor da mesa e a pergunta foi apenas uma: — Quem inventou, bolou este questionário? como minha mesa ficava perto da mesa do gerente, escutei e fiz sinal para o colega dizer que era eu. O gerente pediu para o colega voltar para sua mesa e me chamou para conversar. Minha espinha dorsal esfriou, meu rosto ficou muito vermelho e eu já estava preparado para o pedido do gerente para eu ir até o departamento de Recursos Humanos e dizer que eu estava despedido.

Sentei na frente do gerente com aquela cara de perdão e foi quando a pergunta veio com ar de deboche entre um sorrisinho de alegria: foi você que criou este caderninho com esta pergunta?

Disse sem pestanejar que sim e aguardei a resposta do gerente que se limitou a dizer:

Tudo bem, pode continuar o questionário, mas paralelamente gostaria que você percorresse toda a fábrica com seu caderninho e pedisse para os funcionários responderem algumas perguntas em outro caderninho, que serão: como você vê a empresa neste exato momento? Ela está atendendo sua expectativa quando a sua remuneração? O que você faria para mudar a empresa para melhor? Dê alguma sugestão de como tornar esta empresa grande e você crescer com ela.

Pensei alguns segundos e perguntei: posso dizer que foi o senhor que está fazendo esta pesquisa ou não?

O gerente sorriu, levantou os braços calmamente para dar uma espreguiçada, olhou-me com aquela cara de maluco e disse:

Obviamente que não pode, as perguntas serão respondidas nos dois caderninhos e quando atingir a maioria dos funcionários com as respectivas respostas você traz os dois caderninhos para eu fazer uma análise e detalhe: sigilo absoluto, todos irão responder, afinal você trabalha no departamento da qualidade da empresa e todos irão pensar que é para a melhoria da empresa em todos os aspectos, o que acha?

Nunca hesitei tanto em toda a minha vida e depois de alguns minutos calado, resolvi aceitar o pedido do gerente e passados alguns minutos lá estava eu entrando e saindo de todos os departamentos da empresa com o meu caderninho e outro caderninho embaixo do braço com as perguntas do gerente de qualidade.

Armei uma estratégia, primeiro pedia para a pessoa responder a minha pergunta se a pessoa já tinha sido pobre ou peão e após a resposta registrada pedia sutilmente se podia responder as perguntas que o gerente tinha feito.

Alguns funcionários riam de algumas respostas já escritas e lá deixavam suas respostas, outros recusavam-se a responder dizendo que tinham mais o que fazer e não poderiam perder um segundo respondendo baboseiras. Em seguida eu mostrava o caderno com as perguntas que o gerente pediu para fazer e eles respondiam todas sem questionar.

Após três meses percorrendo todos os departamentos e o caderninho já não suportava tantas respostas, mudei para um caderno com duzentas folhas e assim o trabalho foi concluído entre muitas risadas em um ambiente altamente descontraído.

Entreguei os dois cadernos para o gerente e ele pediu para deixar em cima da mesa que ele iria dar uma olhada mais tarde. Voltei para minha mesa e continuei meu trabalho em redigir normas internas para inspeção dos produtos da empresa, mas sempre de olho para ver quando o gerente iria começar a ler os cadernos e ver a reação do mesmo.

Eis que após alguns dias o gerente pegou os cadernos e começou a lê-los e via-se sorrisos e cara de preocupação.

Eu, da minha mesa acompanhava as expressões faciais de sorrisos e frangir de sobrancelhas do gerente. Altos sorrisos às vezes eram ouvidos, e eu tinha certeza que ele estava lendo as respostas do nosso caderninho. Creio que deve ter ficado umas duas horas lendo os cadernos e assim que terminou chamou-me até sua mesa e disse sorrindo:

— Parabéns Luiz, ficou ótimo, muito interessante, agora gostaria que você lesse todas as respostas que deram com relação às perguntas que fiz e os empregados responderam e fizesse um resumo e um relatório do que você acha que poderemos modificar para melhoria da empresa.

Destemido e ousado como era e ainda sou, aceitei o desafio e lá estava eu montando um relatório para a melhoria da empresa. O caderninho de zombaria com as respostas dos colegas ficou confiscado até eu entregar para o gerente o relatório de melhoria da empresa.

Após alguns dias já tinha preparado minuciosamente todas as mudanças que o pessoal da empresa tinha sugerido.

Fiquei aguardando uma resposta para saber se o relatório tinha ficado bom e mais uma vez fui surpreendido pelo sábio gerente que deu o relatório na minha mão e em seguida o caderninho de zombarias e pediu que eu levasse até o dono da empresa para que o mesmo lesse o relatório e também respondesse a pergunta do meu caderninho de zombaria.

Naquele exato momento pensei: acho que o gerente quer que o próprio dono da empresa me dispense e lá fui eu com meu receio entregar o relatório para o dono da empresa.

Fiquei alguns minutos conversando com a recepcionista e fui recebido pelo dono da empresa com um amável sorriso que pediu para eu sentar que gostaria de conversar comigo.

Novamente pensei: agora vem a demissão!

— Soube do seu maravilhoso trabalho em querer ajudar a empresa a crescer e fico muito grato por ser muito participativo. Deixa o relatório comigo e o caderninho de zombaria vou responder sim, mas preciso de algum tempo para recordar se alguma vez já fui pobre ou peão nesta vida, sorriu, despediu-se e fiquei na ansiedade aguardando a demissão e a posterior resposta do dono da empresa que após alguns dias recebi o caderninho com a resposta do proprietário da empresa que dizia:

Não, não posso mentir, nunca fui pobre de verdade, nunca fui peão em toda minha vida, mas adorei as respostas e conhecer um pouquinho mais os nossos colaboradores.

Em posse do nosso caderninho com quase trezentas respostas a gente se divertia lendo a respostas dos aperreios dos colegas fora do horário de trabalho.

Assim, aquilo que nasceu de uma brincadeira tornou uma valiosa fonte de consulta e melhoria para a empresa. Fiquei trabalhando durante cinco anos nesta empresa, onde cresci profissional e pessoalmente ao lado de grandes mestres formados por um renomado Instituto de São José dos Campos e depois fui vender meus conhecimentos para uma indústria bélica.

sábado, 10 de outubro de 2020

O PRIMEIRO DIA DE AULA

 O passarinho do relógio cuco apareceu na pequena gaiola e cantarolou cinco vezes, a mãe de Francisco despertou, e ficou algum tempo sentado na cama com os olhos voltados para o altar de Santo Antônio que sempre estava iluminado por uma vela branca, fazendo as orações matinais pedindo a Deus que protegesse toda a família e para que todos tivessem um dia maravilhoso.

Dona Rosa era a mãe de Francisco, uma senhora muito bondosa que adorava ajudar todas as pessoas e muito dedicada ao lar, gostava muito de cozinhar para todos da família que consistia do marido José, e seus filhos: Francisco, Regina e Rebeca.

Dona Rosa levantou e foi acordar Francisco que ainda dormia e depois de várias sacoalhadas no corpo esquelético de Francisco disse:

 Acorda Chiquinho, é o seu primeiro dia de aula na escola e não podemos chegar atrasados. Saiu do quarto e dirigiu-se a cozinha que ficava do lado de fora da casa, atravessou a sala silenciosamente e entrou na cozinha empurrando a porta que nunca ficava trancada e colocou uma chaleira que apitava com água no fogo para preparar o café matinal.

O Senhor José acordou desejou bom dia para Rosa dando-lhe um carinhoso beijo no rosto e foi tomar banho e quando passou perto da cama do Chiquinho ainda disse em tom de brincadeira.

 Acorda rapaz vai estudar para não ter que carregar carroça! Sorriu e entrou no banheiro assobiando uma música, estilo chorinho de outrora.

Francisco, virou-se na cama e levantou coçando os olhos e sem ter noção que horas eram, que dia era e foi logo ao encontro da mãe na cozinha que “pelejava” sintonizar o antigo rádio em uma estação onde transmitia notícias do dia. Entre o chiado do rádio e o chiado da chaleira ouvia o menino pedindo a benção para dona Rosa que deu um abraço no pequeno garoto e disse: Deus te abençoe meu filho!

 Vamos se arrumar para ir para escola, assim que seu pai sair do banheiro vê se toma um banho bem caprichado e lava todo o corpo bem direitinho, entendeu? Francisco balançou a cabeça em sinal de concordar e ficou sentado na cama aguardando o senhor José sair do banheiro para ele tomar banho.

Assim que o senhor José saiu do banho Francisco entrou, fechou a porta e ligou o chuveiro e começou a pensar:

“Poxa! finalmente meu primeiro dia de aula. Como será a minha escola? Vou ficar muito feliz em conhecer a minha professora, meus colegas de classe, a diretora.”

Entre divagações Chiquinho escutou baterem na porta, era sua mãe dizendo:

 Vamos garoto, acaba logo com este banho, a água lava o corpo e não lava a alma não, viu? Saiu rapidamente para a cozinha para preparar a marmita que José levaria para o serviço. O preparo da marmita de José era feito com muito carinho, pois, Rosa fazia arroz todos os dias quando acordava para preparar a marmita do marido José, pois, ela temia que a marmita pudesse azedar.

O cheiro agradabilíssimo do café invadia toda a cozinha e enquanto Francisco se enxugava ouvia o barulho da colher em contato com a chaleira adoçando o café e a mãe pedindo para ele ir pegar o leite que o leiteiro deixava em frente do portão todos os dias.

Escuta-se um grito vindo da rua dizendo: leiteiro, leiteiro. Era o senhor Joaquim que vinha trazer todos os dias o leite para o café matinal da família e deixava do lado de fora do portão. Chiquinho corria para ir pegar o leite e enquanto subia os intermináveis degraus do antigo casarão onde moravam que ficava em um bairro de classe média da cidade de São Paulo pensava:

 Poxa! meus pais realmente acreditam em tudo, acreditam até na honestidade das pessoas. Se passar um ladrão e roubar o leite e sair correndo?

Colocava o leite sobre a mesa que já estava devidamente arrumada para receber todos da família, com exceção de Regina e Rebeca que ainda dormiam um sono profundo.

O leite era fervido enquanto Rosa preparava umas deliciosas rabanadas que tanto o senhor José gostava e sentavam-se ao redor da mesa para degustar a primeira refeição matinal: O café com rabanadas e alguns pães que a dona Rosa preparava e armazenava em uma vasilha vermelha devidamente identificada.

Assim que sentavam ao redor da mesa, dona Rosa abaixava a cabeça e fazia uma oração mentalmente agradecendo aquele sublime momento. Comiam e bebiam o café entre alguns comentários de dona Rosa:

 Pois, é Francisco, hoje é seu primeiro dia de aula, vê se comporta na sala de aula e não fica conversando com os seus amiguinhos que você conhecerá.

O pai de Francisco sorria e dizia: ora Rosa, o moleque é comportado e vai se comportar direitinho, não é meu filho?

Chiquinho balançava a cabeça afirmativamente e dava mais uma mordida na deliciosa rabanada e assim entre um diálogo e outro terminavam de comer e beber o café matinal.

José abria a pequena maleta e depositava a marmita, o guarda-chuva e um pequeno livro para ser lido durante o trajeto até o trabalho no centro da cidade de São Paulo, dava um beijo em Rosa, outro em Francisco e nas filhas Regina e Rebeca que ainda estavam dormindo e saia apressado para embarcar no lotado ônibus que o levaria até o serviço.

Dona Rosa foi acordar as filhas para dar o café matinal e deixa-las na casa de uma vizinha chamada dona Arminda enquanto ia levar o Francisco para a escola.

Enquanto Francisco conferia o pouco material que deveria levar para a escola, dona Rosa alimentava as filhas Regina e Rebeca e fazia um ovo mexido com tomate que colocado dentro de um pedaço de pão serviria de lanche para o filho Francisco poder comer na hora da merenda. A lancheira estava arrumada com um bom lanche e um suco de laranja e Francisco já estava pronto para encarar o primeiro compromisso fora de casa. Calça curta azul, sustentada por um suspensórios amarelo, camiseta branca, tênis azul com meias brancas era o uniforme que Chiquinho iria usar na escola e após a dona Rosa estar pronta para ir à escola foi até a casa de uma vizinha, dona Arminda e pediu que ficasse com as filhas Regina e Rebeca enquanto fosse levar o Francisco até a escola.

O caminho até a escola Albino César não era distante, apenas três quilômetros da casa onde morava Francisco , conseguiram fazer este percurso em apenas trinta minutos a pé, caminhando lentamente e após a caminhada estavam diante da enorme escola, imponente diante daquele lindo dia em que a diretora da escola dona Magali e várias professoras aguardavam os alunos no corredor de entrada da escola.

Dona rosa e seu filho Francisco chegaram na escola, subiram vagarosamente as escadas e adentraram o corredor de entrada onde foram recebidos pela diretora dona Magali com um enorme sorriso estampado no rosto.

A quantidade de alunos que estavam iniciando o primeiro ano do curso primário naquele dia era muito grande o que deixou Francisco um pouco apreensivo. Francisco meio assustado segurava firmemente a mão da mãe até que dona Rosa se apresentou para a diretora e disse que seria o primeiro dia de aula do filho.

A diretora Magali disse para a dona Rosa que ficasse sossegada, pois, o Francisco seria muito bem tratado e que viesse pegar o garoto meio-dia pelo portão principal da escola onde estariam alguns inspetores de alunos que conduziriam a dona Rosa até a sala de aula para pegar o querido filho.

A mãe de Francisco deu um carinhoso abraço e um beijo no rosto do filho e saiu com os olhos marejados. Um inspetor de alunos jovem pegou na mão do assustado Francisco e o conduziu até um enorme pátio cheio de crianças conversando e falando alto, deixou o garoto em uma fila e disse:

 Fica nesta fila, porque daqui a pouco a professora vem pegar vocês para entrar na sala de aula, entendeu?

Francisco um pouco amedrontado balançou a cabeça em sinal de positivo e novamente pôs-se a pensar:

“Meu Deus! o que será de mim agora? Minha mãe me abandonou no meio desta barulhenta criançada toda que nem conheço e disse que voltará em breve para me buscar. Será que ela virá mesmo? E se ela não vir me buscar o que vou fazer?”

Olhou para o teto do pátio da escola que estava cheio de bandeirinhas multicoloridas e logo deduziu: Acho que por aqui eles devem fazer muitas festas, estou começando a gostar daqui, será que tem muitos doces? Assim entre várias divagações apareceu no grande palco da escola a diretora Magali com todos os professores e foi logo pedindo silêncio a todos e começou a descrever a escola e apresentar todos os professores, um por um e Francisco olhava admirado e com os olhos brilhando tudo aquilo que estava acontecendo e foi quando após terminar de apresentar todos os professores, inspetores de alunos, pessoal da secretaria e o pessoal da limpeza pediu novamente silêncio a todos os alunos e que prestassem muita atenção, pois, iriam escutar um hino. O hino nacional brasileiro começou a ser tocado e todos os alunos permaneceram em um grande silêncio. Após o hino ser tocado as professoras desceram do palco e foram até a fila pertencente a classe onde elas iriam lecionar e ficaram silenciosamente observando todos os alunos e assim que a diretora Magali autorizou a querida mestra Judite pegou na mão de uma aluna e pediu que os demais alunos acompanhassem a mesma para ir até à sala de aula.

Assim que chegaram na sala de aula a professora Judite ordenou que todos sentassem silenciosamente em qualquer “carteira”. Francisco se acomodou em uma “carteira” bem em frente da mesa da professora e ficou a observar a linda professora Judite:

A professora Judite era jovem, cabelos ruivos, olhos azuis e usava uma saia branca que a deixava mais linda ainda. A professora Judite sentou-se na cadeira e disse que todos prestassem atenção, pois, ela iria chamar o nome de cada um e se o aluno estivesse na sala era para ficar em pé e levantar a mão direita e dizer bem alto: presente.

Aquele primeiro dia de aula para Francisco foi muito agradável, pois, a professora pediu que os alunos se reunirem em grupos e conversassem entre eles para se conhecerem melhor, enquanto a professora ajudava a organizar os grupos ia delicadamente passando a mão na cabeça de um aluno e de outro aluno e sempre falando com uma voz pausada e delicada que todos deveriam se conhecer, afinal iriam passar uma boa parte da vida entre quatro paredes e algumas aulas ao ar livre de educação física.

Novamente Francisco começou a refletir:“ Poxa! isto deve ser muito chato! Como ficar trancado entre quatro paredes enquanto minha querida bola de capotão fica em casa e como será este pessoal que está aqui comigo?” Será que posso trazer minhas irmãs Cristina e Rebeca para ficar aqui comigo?" Foi quando um menino chamado Cosme fez uma pergunta para Francisco:

— Olá, meu nome é Cosme, qual o seu nome? Francisco respondeu um pouco acanhado.

— Meu nome é Francisco, mas o pessoal lá de casa me chama de Chiquinho.

— Onde você mora Chiquinho? É perto da escola?

— Não Cosme, eu moro um pouco longe, perto do ferro velho do seu Antonio, conhece?

Cosme deu um leve sorriso e disse:

— Sim, conheço sim, às vezes ela vai na minha casa, saber se minha mãe tem algo para doar.

- Ah! então devemos morar perto um do outro, que rua você mora Cosme?

Cosme pensou um pouco e disse: moro na rua Esperança e foi logo perguntando se era perto de um grande gramado.

Chiquinho respondeu que sim e assim a partir deste dia Francisco e Cosme tornaram-se amigos inseparáveis, pois ambos moravam na mesma rua: Rua Esperança.

A professora Judite pediu para que todos voltassem para as suas “carteiras” e começou a falar sobre a escola, sobre a disciplina que todos deveriam ter, ao respeito com o amiguinho e com todos da escola e começou a dar uma aula sobre higienização das mãos e assim quando todos estavam muito enturmados soou uma sirene assinalando que as aulas tinham terminado e a professora Judite pediu a todos os alunos que permanecem no respectivo lugar que as mães viriam busca-los na porta da sala de aula.

Francisco abaixou a cabeça e começou a rezar mentalmente para que sua mãe aparecesse rápido na porta e foi quando ouviu a professora chamar o seu nome, ergueu a cabeça, levantou-se e saiu correndo para abraçar a mãe Rosa, que agradeceu a professora Judite e foram embora conversando muito sobre aquela experiência do primeiro dia de aula do curso primário da escola Albino Cesar em 1963.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...