quinta-feira, 17 de setembro de 2020

CACHORRO LOUCO

 Eu tinha sete anos e minha companheira era a teimosia, eu realmente era muito teimoso, quando pediam para eu não fazer nada que poderia me prejudicar então era hora da teimosia entrar em ação

Adorava empinar pipas, assim como todos os garotos da região onde eu morava e nosso local predileto era em um grande parque existente na frente da residência da nossa família. Geralmente eu ia empinar pipas com meu pai, aos domingos de manhã e nem sempre existia vento suficiente para colocar minha pipa no ar. Minha mãe nunca deixava eu ir ao parque sozinho. Então eu ficava observando os moleques empinarem as pipas do muro que existia em frente a nossa residência e ficava muito triste e zangado por não poder estar empinando pipas com meus amiguinhos. Resolvi tomar uma atitude drástica e fui falar com minha mãe da minha revolta, da minha tristeza em ver meus amiguinhos empinando pipas e eu não poder participar e fui logo dizendo:

— Mãe, porque a senhora não deixa eu empinar pipas com meus amiguinhos? Ela calmamente pediu que eu sentasse em uma cadeira e foi falando.

sabe porque meu filho, porque é perigoso estar sozinho no parque e você ouviu dizer que tem um homem pegando crianças, colocando em um saco e depois joga dentro de um rio? Fiquei alguns minutos pensando na grande mentira que minha mãe estava tentando eu fazer acreditar, embora às vezes ficava muito apreensivo e falei.

— Mas mãe, é só um pouquinho, depois entro vou tomar banho, jantar e ir dormir, posso?

Senti um olhar fulminante da minha mãe e já esperava ela negar e foi quando ela falou.

— Está bom filho deixa a mãe acabar de estender esta roupa que vou um pouquinho com você no parque para você soltar seu quadrado. Entrei correndo para dentro de casa e peguei a minha pipa e a linha e corri para a frente da minha casa para esperar minha mãe.

Os minutos foram passando, passando e nada de aparecer minha mãe para irmos ao parque, desci sorrateiramente a grande escada existente na nossa residência, abri o portão e fiquei imaginando: já que minha mãe não aparece vou dar uma fugidinha e ela nem irá perceber.

Fechei o portão e observei que vinha na calçada um cachorro babando e quando passou perto de mim, tentei espantá-lo com medo que me mordesse e inesperadamente ele avançou em mim e mordeu minha mão e minha coxa esquerda e foi embora. A mordida doía muito e voltei correndo para contar o ocorrido para minha mãe que imediatamente começou a fazer o curativo sob uma enorme bronca. Após ser medicado com algumas ervas minha mãe pediu para eu ficar quietinho no sofá que ela iria preparar o jantar.

Passados alguns minutos apareceu a Marinilza que era uma vizinha e pediu para falar com minha mãe, eu corri até a cozinha e anunciei a presença da vizinha que passaram a conversar sobre o cotidiano e eis que em um determinado momento ela disse:

— Sabe Thereza, não deixa o Luiz sair sozinho por aí que disseram que tem um cachorro louco babando dando voltas pelo bairro. Minha mãe pediu mais detalhes sobre o cachorro e chegaram a conclusão que eu tinha sido mordido pelo cachorro louco.

Minha mãe agradeceu a Marinilza pela informação e voltou para mim e disse: assim que seu pai chegar nós vamos ao médico para saber como devemos fazer.

Comecei a soluçar baixinho e pensava que eu também iria ficar louco. Meu pai chegou, chamaram um táxi e dentro de uma hora estávamos na frente de um enorme hospital chamado Emílio Ribas.

O médico me atendeu, os enfermeiros fizeram alguns curativos e receitou tomar vinte e uma injeções na barriga uma injeção por dia.

Eu odiava injeções e voltamos para casa e no outro dia minha tia Terezinha foi levar eu até o hospital para tomar a primeira injeção na barriga.

Era uma verdadeira aventura chegar até o hospital, pois, eram necessários tomar dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar e estava começando a gostar das viagens cotidianas para chegar até o hospital.

Lembro-me de dois fatos muito engraçados que aconteceram durante as nossas viagens: O primeiro foi quando eu embarquei e minha tia ficou do lado de fora e o motorista começou a acelerar e o pessoal a gritar que tinha ficado um menininho órfão sozinho. Minha tia entrou no coletivo e xingou muito o motorista e eu apenas sorria.

Em outra ocasião quando estávamos passando em frente a estação ferroviária Júlio Prestes, no centro da capital paulista observamos que tinha uma multidão e nos aproximamos e lá estava o querido Mazzaropi participando de mais uma filmagem de um filme que estava sendo filmado naquele tempo.

Depois de alguns dias tomando a vacina para cachorro louco já nem chorava mais, tinha acostumado com a mesma e as enfermeiras até brincavam comigo, enaltecendo minha coragem.

O tempo passou e as vinte umas injeções foram aplicadas na minha barrica e não senti nenhum sintoma de loucura o que tranquilizou muito meus pais que a partir daquele momento sempre ficavam vigiando minhas atitudes que pareciam normal e até hoje quando me dispo e vejo a cicatriz lembro desta fantástica história.

AS MELHORES EMISSORAS DE RÁDIO

 


Se eu fosse milionário eu compraria três emissoras de rádios: Rádio Bandeirantes, Rádio Jovem Pan e Rádio CBN, pois são as rádios que ouço diariamente na minha casa atualmente. Aprendi a ouvir rádio quando eu tinha dez anos de idade, hoje estou com sessenta e quatro anos, então ouço rádio exatos cinquenta e quatro anos. Tudo começou quando morávamos em um bairro chamado Ponte Rasa, no extremo leste da cidade de São Paulo. Em 1965 lembro que quando acontecia o clássico jogo São Paulo x Santos e meu pai me convidava para ouvirmos o jogo deitados embaixo de um pé de abacate e o radinho sempre sintozidado na Rádio Bandeirantes AM. Nosso vizinho era santista e ele também gostava de ouvir os jogos que eram narrados pela rádio. Então ele ficava ouvindo o jogo na residência e nós ficávamos ouvindo o jogo embaixo do pé de abacate.

Naquela época o Santos tinha dois jogadores de futebol maravilhosos: Pelé e Coutinho, e o time era quase que imbatível, mas mesmo assim quando acontecia o jogo ao qual o São Paulo FC enfrentava outro time qualquer lá estávamos deitados e escutando o jogo, geralmente pela Rádio Bandeirantes. Era uma verdadeira festa na nossa mente quando o querido locutor esportivo Fiori Giglioti começava a transmissão: abrem-se as cortinas e começa o espetáculo e então nós ficávamos quietinhos ouvindo um dos maiores e melhores locutores esportivos de todos os tempos. Eu até aquele momento não tinha decidido para qual time eu ia torcer, mas vendo e sentindo a emoção e euforia do meu pai tornei-me São paulino também, nem tanto igual ao meu pai, mas sempre que alguém perguntava qual time eu torcia, respondia muito orgulhoso que era Sãopaulino.

Então a partir daquela época sempre ouvíamos as partidas memoráveis embaixo do grande pé de abacate e foi num determinado dia que ouvindo um jogo embaixo do pé de abacate que meu pai disse que tinha comprado um presente para mim. Olhei para todos os lados e nada vi foi quando ele sorrateiramente tirou do bolso da calças um pacotinho embrulhado e disse:

- Abre Luiz, você vai gostar do presente. E eu um pouco apreensivo não fazia a menor ideia o que fosse o tal do presente e imediatamente rasguei o papel e meus olhos lacrimejaram de tanta felicidade: um radinho de pilha, sim, tinha ganho um simples radinho de pilha! Dei um caloroso abraço no meu pai e imediatamente sintonizei na Rádio Bandeirantes Am. A partir daquele dia comecei a ouvir rádio, não só jogos, mas sim todos os programas, visto que naquela época nós não tínhamos televisão, então o rádio era nosso meio de comunicação.

O tempo foi passando, passando e quando eu tinha dezessete anos conheci a Rádio Pan-americana (Rádio Jovem Pan), lembro-me até hoje que fomos pintar a casa de uma tia e sintonizei meu rádio, que naquela época era um Motorola e lá ficamos a ouvir a Rádio Jovem Pan em um jogo pela Libertadores da América: São Paulo x Atlético. Era finalzinho de janeiro e estava um calor sufocante naquele domingo. O jogo terminou empatado 0 x 0 e a narração maravilhosa de Osmar Santos encantava a todos.

Bom, a partir de 1972 comecei a ouvir a Radio Jovem Pan por ter conhecido um dos maiores locutores esportivos: Osmar Santos, com uma narração vibrante e as partidas pareciam uma festa e um dos jargões que lembro até hoje era: E pimba na gorduchinha!

Nesta época eu já tinha optado em ouvir a rádio Jovem Pan e meu pai sempre fiel aos seus princípios continuava na Radio Bandeirantes e grandes conflitos aconteceram, pois cada um de nós tínhamos nossa preferência. Eu Jovem Pan e meu pai, Bandeirantes. A solução foi cada um ir para o seu canto. O tempo foi passando e conheci a rádio Eldorado FM em 1975 e fiquei encantado com a programação em FM e passei a ouvir a Eldorado e meio dia sintonizava na rádio Bandeirantes para o ouvir Hélio Ribeiro, programa maravilhoso, adorava quando ele traduzia algumas músicas do inglês para o Português. De 1975 até 1980 ouvia a rádio Eldorado FM porque tocava músicas clássicas e tinha uma programação maravilhosa, a imposição de voz dos locutores eram impressionantes, os programas eram para um público erudito, enfim, eu adorava a programação.

Quando chegou 1981 novamente voltei a ouvir a Rádio Jovem Pan Fm e fiquei apaixonado pela programação sempre dedicada ao público jovem e passei a ouvi-la e esporadicamente ouvia a rádio Bandeirantes e Eldorado FM. Foi quando em 1991 conheci a rádio CBN e lá vamos nós trocar de emissora de novo, muitas notícias, muitas informações e o dial ficava 24 horas sintonizado nesta emissora e isto me fascinava naquele momento. Foi uma fidelidade que durou aproximadamente 15 anos e eis que em 2005 um primo disse: Luiz, você que gosta de rádio, inauguram hoje uma rádio chamada BandNews Fm, sintoniza que você vai gostar. Era muito engraçado quando inauguraram ouvir o querido Ricardo Boechat falar que a Barra Funda ficava na zona Norte de São Paulo, estava perdidinho aqui em São Paulo, pois, o mesmo era carioca, cheguei até a pensar: Caramba, este locutor não vai dar certo nesta emissora e o tempo foi passando e ele tornou um ícone da BandNews e eu novamente fixei meu dial na Bandnews e desde 2005 até os dias de hoje fico oscilando entre as quatro melhores rádios em jornalismo: Bandnews FM, Bandeirantes, CBN e Jovem Pan. Estas são realmente as melhores rádios atualmente em jornalismo e às vezes fico pensando: Poxa! Tem locutores maravilhosos nesta rádio, mas também tem naquela outra e naquela outra também e fico imaginando reunir todos esses locutores em apenas uma rádio e eu não ficaria mudando de estação em estação. Ainda há tempo para que tudo isto aconteça.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

EMPADAS DA VILA

 



No início do ano de 2018 lá estava eu jogado no  mundo  novamente, peregrinando de um local para  outro   carregando    sessenta  e  três anos  de   experiência     nos  velhos    e   flácidos   ossos   e   em  um determinado dia  bebendo  umas  cervejas em um boteco da periferia comecei  a  meditar  sobre a minha estadia neste mundo e quando eu já estava  semiembriagado  comecei   a  fazer  e responder   algumas perguntas para mim mesmo. Ingeria  um  gole de cerveja e fazia uma pergunta   e   eu   mesmo   respondia  mentalmente.  Foi quando fiz a seguinte pergunta:

- E ai querido amigo Luiz até quando você irá continuar neste caminho de cigano?
Parei um pouco para pensar e meneei a cabeça em busca de uma resposta e após alguns segundos falei.
- Sabe acho que chegou a hora de tomar um rumo na minha vida, mas diga lá como posso seguir outra direção?
- Ah, então vou elucidar sua mente, o que você sabe e gosta de fazer atualmente?
Quando esta pergunta percorreu alguns poucos neurônios que ainda se mantinham lúcidos respondi rapidamente.
- Ora, pois bem, você deve saber muito bem que adoro fazer é vender empadas!
- Pois aí está a chave da porta da sua nova vida, porém existem algumas restrições, não pode mais beber bebida alcoólica enquanto você estiver se aprumando, o que diz?
Pensei, pensei e quase desisti do acordo com meu subconsciente, mas meio contrariado disse que iria seguir as orientações impostas pelo mesmo.
Paguei a conta e fui caminhando sem rumo pelas ruas desertas do distante bairro da periferia e tentando achar onde poderia ficar até eu conseguir minha independência financeira e num estalo na mente resolvi mais uma vez pedir uma estadia por pouco tempo na casa da minha irmã Sônia e contar todo o meu planejamento para ela.
Logo de manhã apareci na casa da minha irmã e pedi se poderia ficar alguns meses na casa da mesma e manteria-me fazendo e vendendo empadinhas. Minha irmã sorriu e com ar de desconfiada foi logo dizendo.
- Olha Luiz você pode ficar aqui o tempo que você quiser fazendo e vendendo suas empadinhas, mas tem um porém, não pode beber bebida alcoólica, o que diz?
- Sim, digo que sim, pois necessito muito conseguir algum dinheiro para poder alugar um cômodo e ir morar sozinho, aceito.
Acertamos uma determinada quantia que eu precisava pagar diariamente e lá comecei eu a fazer minhas empadas e vendê-las pelas ruas dos bairros da zona norte da cidade de São Paulo.
Quando você tem um suporte ou alguém para ajudá-o em uma determinada empreitada o fardo torna-se bem mais leve, mas eu não contava com o apoio de ninguém, eu fazia as empadas e eu mesmo tinha que vender.
No começo a minha intenção era vender algumas empadas diariamente e ganhar o suficiente para pagar minha estadia e quando novamente o meu subconsciente voltou a conversar comigo:
- Oh! querido, desta maneira de pensar e agir você sempre estará sob os pés de alguém, sempre será aquele cisco insignificante que fica embaixo do rodapé.
Parei um pouco sob uma árvore em uma grande praça e fiquei digerindo aquelas dicas do meu subconsciente e esbocei um sorriso de deboche e continuei de comércio em comércio oferecendo minhas empadas.
No começo, como todos os começos de uma atividade é muito difícil  até conseguir conquistar os primeiros fregueses, mas eu não esmorecia jamais e vamos andando e oferecendo as empadas. Quando eu saia para vender minhas empadas, inicialmente poucas, muito poucas, apenas vinte empadas diariamente, o que seria suficiente para pagar minha estadia na casa da minha irmã e beber uma tubaína num boteco qualquer.
Fazia as empadas durante a madrugada para não atrapalhar os preparos dos alimentos da família da minha irmã, pois eu utilizava a mesma cozinha para fazer as empadas.
Após algumas semanas fazendo e vendendo as empadas já tinha conquistado e definido alguns clientes em potencial, eram eles, pessoas idosas e pessoas orientais.
Pronto, pensei até em vender no bairro da liberdade, onde aos domingos tem uma feirinha repleta de pessoas com os olhinhos puxados, mas logo optei por um não, pois a feirinha acontecia aos sábados e aos domingos de manhã.
Tracei e planejei vender em cinco bairros diferentes na zona norte: segunda-feira venderia na Vila Maria baixa, na terça feira venderia na Vila Medeiros, na quarta-feira venderia na Vila Sabrina, na quinta-feira venderia no Jardim Japão e na sexta-feira venderia no bairro do Belém, o único que ficava na zona Leste de São Paulo e aos sábados e domingos venderia as empadas nas feiras da Vila Maria Baixa e na feira da Vila Medeiros.
Pronto, as primeiras forminhas foram compradas, a caixa de isopor e necessitava de uma bolsa para carregar a caixa de isopor e através da minha querida irmã Silvinha fomos até uma costureira perto de casa e lá estava a Dona Gemina pronta para ajudar a confecção da primeira bolsa. Bolsa confeccionada, forminhas de alumínio, forminhas de papel, guardanapo, saquinhos de papel comprados era hora de desenvolver, prospectar um bom fornecedor para minha matéria-prima, as empadas. Inicialmente comprava em um supermercado próximo da casa da minha irmã e com o passar do tempo comprava tudo em um grande atacadista no bairro do jaçanã.
Consegui trinta clientes fieis que compravam diariamente e os outros dez clientes eram pessoas que ora compravam ou não compravam. Minha meta era vender pelo menos quarenta empadas diariamente e esta meta foi alcançada em apenas dois meses de muito trabalho e muito sapato gasto, pois andava muito.
Em um determinado dia vendendo minhas empadas resolvi prestar mais um concurso público e me inscrevi pela internet, fui fazer a prova e fui aprovado. Chamaram para apresentação dos documentos dois meses após a realização da prova. Comecei a trabalhar em um órgão público, aluguei uma casa em um bairro muito distante da Vila Maria, em Guarulhos e abandonei minha empresa de empadas. Mas continuei fazendo as empadas, apenas para degustação em família. Mas em breve, quando eu aposentar retorno com minha nano empresa de empadas, mas desta vez irei vendê-las na praia, apenas para passar o tempo e conhecer novas pessoas, novos ares.

 

domingo, 16 de agosto de 2020

O ORNITÓLOGO

  

 Existiu uma época em que eu trabalhei como porteiro num parque municipal na cidade onde moro e todos os domingos aparecia por lá um rapaz trajando calças jeans, camiseta branca, um “surrado” tênis e uma máquina fotográfica profissional e ao entrar no parque pedia permissão para poder fotografar os pássaros existentes no local.

         A primeira vez em que ele apareceu no parque o sol ainda estava preguiçosamente começando a surgir no horizonte e a tímida lua negava-se a abandonar o céu entre o chilrear dos pássaros que misturava com os barulhos das folhas das árvores que o vento fraco lançava sobre o meu escritório ao ar livre.
         Consultei a minha encarregada sobre a permanência daquele rapaz no parque e expliquei a ela que o mesmo era um ornitólogo e vinha ao parque somente para fotografar espécies raras de pássaros e ela pediu para que eu acompanhasse a permanência do ornitólogo no parque.
         Recebi a ordem com muito carinho e alegria, pois seria a primeira vez que teria a oportunidade de acompanhar um ornitólogo e aquele momento me pareceu muito apropriado para saber um pouco mais sobre pássaros e sobre a atividade daquele rapaz que a princípio mostrou-se um pouco acanhado com a minha presença ao lado dele e deu-me algumas instruções que como eu deveria comportar-me diante das situações que surgiriam a partir daquele momento.
         Seguia-o a distância e ficava atônito com tanta paciência daquele rapaz que ao ver algum pássaro raro entre as árvores, colocava o dedo indicador sobre os lábios e pedia silêncio absoluto para que o pássaro pudesse pousar delicadamente em algum galho da árvore e ele imediatamente retirava a sua potente máquina fotográfica profissional mirava para o pássaro e lá ficava eternos minutos para capturar o melhor ângulo, a melhor paisagem e eu ficava observando ao longe e ficava encantado quando escutava o barulho da máquina fotográfica sendo acionada e torcendo para que o pássaro tivesse sido fotografado e a foto tivesse uma ótima definição.
         Após fotografar o pássaro observava-o levantar-se vagarosamente e caminhar lentamente entre as árvores mexendo na máquina fotográfica e meu coração ficava muito feliz e aliviado quando observava um sorriso de felicidade no rosto do ornitólogo, pois tinha certeza que a foto tinha sido um êxito e ele imediatamente mostrava a foto através de um pequeno visor como se fosse um troféu, mexia aqui, mexia acolá na máquina e novamente ficava olhando para o topo das árvores para capturar novos pássaros que faziam uma verdadeira festa naquele lindo domingo ensolarado.
         Lá pelas nove horas da manhã, ele guardava a máquina carinhosamente colocando-a na mochila, despedia-se educadamente e retirava-se silenciosamente do parque desejando-me um bom dia e até a próxima semana.
         Então eu voltava novamente para a guarita e ficava imaginando que qualquer dia ainda iria escrever uma crônica sobre o meu amigo ornitólogo que tanto amava e ainda ama os pássaros, assim como São Francisco de Assis.O nome deste ornitólogo era Carlos Salles. Obrigado amigo!

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A HOMENAGEM

O casal de jovens era integrante de uma grande escola de samba da cidade de São Paulo, ela como passista e ele como tocador de pandeiro da ala bateria.
         Os ensaios eram constantes e o amor entre os dois enchiam nossos olhos de alegria e emoção em vê-los na quadra desfilando e cantando o samba enredo da escola de samba.
         Quando nos avistavam nas arquibancadas jogavam beijinhos e acenavam e ela começava a sambar sob o mavioso som do pandeiro do amado esparramando beleza de tanta felicidade.
         A alegria e o amor entre o casal era inefável e todos os integrantes da escola de samba gostavam muito do casal e quando a diretoria soube que eles casariam uma semana antes do carnaval o presidente chamou os dois até sua sala e disse que iria dar um belo presente aos dois que jamais iriam esquecer por toda a vida.
         Fomos convidados pelo jovem casal para o enlace matrimonial e um pouco antes do querido tocador de pandeiro entrar na igreja confessou que estava muito feliz por casar-se com a passista mais linda do mundo e disse que estava ansioso por saber qual presente um presidente de uma escola de samba poderia dar para um integrante da escola.
         Um pouco antes do início do casamento a igreja já estava lotada de pessoas que tanto queriam bem o jovem casal e foi dado inicio ao casamento e um grande momento de emoção foi quando o filhinho do casal entregou as alianças e saiu correndo e chorando para os braços da vovó e lá ficou a soluçar sob lágrimas dos pais e sob os olhos enternecidos de todos os presentes na igreja.
         Após o término do casamento fomos todos saindo para darmos os comprimentos aos noivos foi quando fomos surpreendidos pelos integrantes de toda a bateria da escola de samba que estavam colocados em frente à igreja e começaram a cantar o samba enredo da escola de samba daquele ano e davam algumas paradas para felicitar os noivos e após alguns minutos de grande emoção o casal foi recebido pelo presidente da escola de samba que lhes entregou uma linda medalha um grande abraço e centenas de salva de palmas ao som da bateria, várias garrafas de champanhe estouradas e uma queima de fogos maravilhosa. Lindo casamento. Bela homenagem!

HISTÓRIAS DE PAPAI

Enquanto papai não chegasse em casa não poderíamos jantar, às vezes ficava com muita raiva, devido a fome que invadia meu estômago, resignava-me num cantinho da mesa e ficava humildemente aguardando o retorno de papai e quando papai chegava em casa, levantávamos da mesa e corríamos dar um abraço e um beijo nele e pedíamos que se sentasse para jantar. Não, tínhamos que esperar papai tomar banho para iniciarmos nossa refeição. Aquele banho de papai parecia que demorava uma eternidade e meu estômago roncando, roncando. Papai sentava-se à mesa e mamãe servia o jantar, após servi-lo éramos servidos e começávamos a comer vagarosamente sempre observando a calma e o olhar de agradecimento de papai em tê-lo esperado para a janta.
                 Após a janta vinha a nossa recompensa, ficávamos algum tempo sentados num velho banco de madeira no quintal de casa ouvindo várias histórias maravilhosas contadas por papai. Jamais pedíamos para papai contar a mesma história e o repertório de histórias era vasto, mas a história que mais me impressionava era quando ele contava que por algum tempo tinha sido ajudante de carvoeiro no meio do mato. Seu relato, com voz pausada enfatizava as condições de precariedade existente naquela época e deixava-nos atônitos quanto a sua bravura em passar vários dias no meio do mato, entre bichos,  dormindo numa palhoça improvisada e colocando fogo em madeiras para virar carvão, ser ensacado e transportado para a cidade.
                 Sempre pedia detalhes sobre o que comiam, o que faziam enquanto as madeiras eram queimadas, como eles comportavam-se diante de noites chuvosas, temperaturas baixas, saudades da família. Imaginava-me no meio do mato ajudando meu avô, todo sujo de carvão  e correndo atrás de passarinhos, borboletas e a noite ouvindo o piar de corujas, pássaros estranhos e outros animais como onça, tatu, lagarto.
               Nas noites de lua cheia as histórias ficavam mais emocionantes, pois a descrição era ilustrada com algumas mulas sem cabeça, saci-pererê, curupira entre outros da nossa lenda e folclore tanto comentados pelos nossos antepassados.
              Lá pelas nove horas da noite, era hora de entrar e recolhermos para nossas camas e controlarmos nossos medos e aflições, fechar os olhos e ficar torcendo para a noite passar logo e chegar outro dia a noite para escutarmos mais histórias fantásticas. Então papai apagava a luz do lampião, dava um beijo na face de cada um de nós e recolhia-se para o seu quarto. Sempre ouvia papai conversar algumas palavras com mamãe e depois tudo se fazia silêncio, ouvíamos apenas o som de grilos e sapos que habitavam ao redor da nossa casa.Era hora de sonhar...

NÃO LEVE A VIDA TÃO A SÉRIO

Há uma receita infalível para nossa longevidade e esta receita é sorrir mais do que estamos acostumados, mas bem mais. É muito engraçado quando nós sorrimos dos nossos defeitos, das situações embaraçadas que o cotidiano nos oferece como presente por estar por aqui, vivendo, vivendo e muitas vezes esquecendo-se de ser feliz.
            Nesta semana que passou fiz um teste e deixei-me levar pelo conselho de um querido primo que disse que nossa longevidade está diretamente ligada ao nosso viver bem, deixar a vida fluir com mais naturalidade, abandonando a pressa que é nosso algoz e às vezes leva-nos a situações desagradabilíssimas.
           Os detalhes são muito importantes, quantas vezes deixamos passar um momento único em nossa vida porque estamos com pressa e não podemos perder um segundo da nossa existência, mas não lembramos que aquele momento possa ser o último neste planeta.
           Folhear aquele velho álbum de fotografia da família que faz anos que você não vê, ver como mudamos e sentir a revolução que a internet causou em nossas vidas. Afinal quem vai querer saber de um álbum de fotografia nos dias atuais se temos um álbum digital na internet, temos o “Fliker” e tantos outros recursos a nossa disposição.
          Comprar um bom jornal no domingo de manhã e sentar-se confortavelmente numa mesa e ir folheando página por página, ler o editorial, fatos políticos, regionais, a página de esporte, lazer e ficar procurando por grandes cronistas que outrora escreviam textos maravilhosos e hoje já não encontramos mais.
         Colocar uma confortável cadeira no quintal ou na varanda e ficar contando estrelas com a netinha numa noite estrelada e relembrando várias histórias que nossos antepassados nos contava faz nossa alma inflar de tanta felicidade e acrescenta milhares de pontos no nosso ranking da longevidade.
        Olhar nossos colegas de trabalho e reparar como eles são engraçados, cada um de um jeito diferente, com suas idiossincrasias, defeitos, virtudes, caras feias, caras alegres, apressados, lentos e rir disfarçadamente de situações que não estávamos acostumados a reparar até então é muito divertido!
        Poder encarar o espelho e ver aquela ruga que na semana passada não existia e não ficar desesperado, entrar em depressão, que nada, o melhor é dar uma boa gargalhada e dizer pra nós mesmos: É estou ficando velho, isto é muito bom! 
         Sair bem cedinho de bicicleta com aquele vento maravilhoso de Outono batendo no nosso rosto e pedalar sem destino e pararmos na margem de um maravilhoso rio que silenciosamente convida-nos a uma grande reflexão da seriedade desta vida.
         Sentar-se num banco de um parque, abrir aquele livro que faz tempo que está com o marcador na página vinte e nove e recomeçar a leitura silenciosamente sob o encantador e mavioso canto de pássaros e lê-lo até o fim.
         Encontrar velhos amigos e sentar-se num bar distante da grande metrópole e reviver uma época maravilhosa entre um copo e outro de cerveja faz parte do requinte do não levar a vida tão a sério.
         Ir à igreja que faz tempo que abandonamos e poder orar e agradecer tudo de bom que está acontecendo e pedir proteção para continuarmos  trilhando nosso caminho até a hora do juízo final. A fé é muito importante e uma verdadeira aliada da querida longevidade.

         Como é bom assistir a vida sobre outro ângulo de visão e prestar atenção nas pessoas que estão ao nosso redor, pois muitas vezes é apenas uma questão de pequena sincronia para sermos mais feliz, bem mais feliz do que estamos acostumados.
         Resumindo é muito importante sorrir para a vida e sorrir da vida e aproveitarmos o máximo nossa existência que Deus nos proporcionou, pois se deixarmos pra depois pode ser um pouco tarde e quando percebermos seremos acordados com um torrão de terra sobre o nosso caixão, aí amigo (a) será tarde, muito tarde e ficaremos com cara de perplexidade dizendo: “Caramba como passou rápido e eu nem sorri!” Cabe a nós calar e torcer para que exista uma outra vida para podermos dar o devido valor nesta vida e a ter levado tão a sério. Será que valeu a pena? Portanto, façamos nossa parte: Não vamos levar a vida tão a sério! Sorria!

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...