quarta-feira, 24 de abril de 2019

PIPAS NO AR NAS MANHÃS DE SÁBADOS


Em 1970, éramos adolescentes e morávamos no bairro da Cidade A. E. Carvalho e o nosso passatempo favorito era confeccionar e empinar pipas nas manhãs de sábados.
Nosso encontro acontecia nas manhãs de sábados na área de entrada da casa do meu amigo Israel.
O ritual alegre era acompanhado pela garotada da periferia que tentava descobrir como fazer belas e multicoloridas pipas.
Tudo era feito com muita descontração e alegria, desde o preparo da cola feita com farinha de trigo que eu levava de casa e que exigia muito esmero para não sujar o belíssimo fogão da dona Ondina, mãe do meu colega Israel.
As folhas de papel de seda eram adquiridas na lojinha da dona Matilde, escolhidas cuidadosamente entre as diversas cores dispostas na prateleira.
Existia um momento que exigia grande concentração, era quando começávamos a “afinar” as varetas que eram retiradas do bambu do varal de roupas da dona Ondina. Nesse momento, até que adquirisse destreza com a afiadíssima faca dialogávamos sobre as novas namoradinhas, os estudos no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, que se localizava em Itaquera e sobre o serviço como Office-boy numa Cia. de Seguros no centro de São Paulo.
O grande prazer completava-se por estar ao lado do amigo que não via há uma semana e poder detalhar o perfil da nova namorada que trocávamos assim como éramos trocados frequentemente.
Às vezes éramos obrigados a abandonar nossa área de lazer momentaneamente, pois dona Ondina queria varrer a mesma, o que ocasionava um tempo de espera encostados no velho carro Ford semidesmontado pelo Sr. Luís, pai do meu amigo, que era mecânico. Nesse momento passava o Zé Roque, irmão do meu amigo e parava na nossa frente com algumas peças de televisão na mão, pois o mesmo tinha uma oficina de conserto no quintal, e ficava zombando da nossa capacidade de confeccionar pipas. Gargalhadas espalhadas pelo ar entrecortadas pelos raios de Sol da bela manhã de sábado completava a nossa felicidade com a chegada do Lalá  com seu tradicional assobio chamando sua namorada que era a irmã do Israel. Saia toda perfumada, sorrindo e pisando cuidadosamente sobre as pipas para não amassá-las. Abraçavam-se carinhosamente e nós abaixávamos a cabeça concentrados na confecção da nossa namorada, que era a pipa.
Constantemente olhávamos o céu azul e a nossa maior preocupação era com o vento e entre a confecção das pipas e a eterna paciência em fazer aquelas “rabiolas” quilométricas, molhávamos o dedo com saliva e expunha-o ao vento para saber qual a direção que o mesmo soprava e qual era a sua intensidade. Dessa maneira tínhamos uma vaga noção por onde nossas pipas e nossos pensamentos voariam.
O vento da periferia sempre era bondoso conosco e jamais deixava de soprar aos sábados de manhã e às vezes trazia o aroma agradabilíssimo do café coado pela dona Ondina que era servido em xícaras de porcelana pelo Lalá e sua linda namorada. Sempre sorrindo e desejando-nos bons ventos.
Talvez por não existirem prédios, o vento soprava uma agradável brisa, na quantidade exata às nossas expectativas e aos nossos sonhos de adolescente, e soprava em quase todas as direções.
Fazíamos as pipas com perfeição e elas raramente deixavam de voar.
Tínhamos uma brincadeira maravilhosa que consistia em dar nomes às nossas pipas e geralmente ganhavam nomes da última namorada e assim que o mesmo ganhava o céu ficávamos imaginando subir junto com eles e ficarmos olhando lá de cima tudo o que tinha acontecido, acontecia ou iria acontecer no nosso querido bairro Cidade A. E. Carvalho.
Havia sábados em que o vento soprava em direção ao bairro de Itaquera e nesses sábados nossos pensamentos avistavam cenas e situações indescritíveis. Lá de cima podíamos avistar a padaria com sua enorme máquina de assar frangos, pessoas saindo com saquinhos de pães, carros com o volume do rádio um pouco acima do normal tocando músicas de Roberto Carlos, Caetano Veloso, Os Beatles e Morris Albert cantando “Feelings”. Olhando atentamente poderia observar minha caixa de engraxar sapatos que outrora colocava em frente à padaria e ficava aguardando pacientemente os fregueses.
O ponto de ônibus em frente à padaria, e motoristas e cobradores sorrindo entre um gole de café, uma coxinha comida e um cigarro aceso. Pessoas entrando pela porta traseira e o ônibus saindo vagarosamente com motoristas com óculos escuros acenando aos companheiros com destino à Praça Clovis Bevilaqua. Viagem longa que nossas pipas não conseguiam acompanhar.
Observava crianças correndo alegremente, pelo pátio da escola Milton Cruzeiro durante o recreio e o ônibus Mogi-Parque D.Pedro II que passava em alta velocidade deixando-nos atônitos.
O vento mudava um pouco a direção e de lá de cima enxergava minha mãe e outras mães do bairro lavando roupas na mina e conversando sobre o sofrido cotidiano. Enquanto as roupas eram “quaradas” pelo tempo de trocar uma receita de bolo ou reclamar do custo de vida que já naquela época fazia-se presente.
Eis que a pipa e os nossos pensamentos pairavam sobre a igreja do bairro e podíamos deliciar-nos com a tradicional quermesse onde recebia as meninas com seus cabelos cortados “à Chanel”, devidamente arrumados com “laquê” e trajando lindos vestidos rodados coloridos e os meninos trajando calças “boca de sino” com cintura alta, parecendo um toureiro da periferia, e suas inconfundíveis camisetas “volta ao mundo” ou “gola olímpica”.
Sentia o aroma dos bolinhos caipiras preparados pelas mães do bairro e avistava barracas coloridas, que ajudávamos a montar, que abrigavam diversos jogos e vendas de guloseimas. As meninas eram vigiadas constantemente pelas mães ou irmãos que não permitiam beijos ou abraços, o máximo era uma piscada bem longe dos olhos severos dos pais de antigamente.
O alto-falante sussurrando uma inaudível música de Nelson Ned entrecortada pela voz rouca do amigo Israel que era o locutor oficial da quermesse, anunciando o início do jogo de bingo que jamais conseguira ganhar, completava a paisagem.
O barulho estridente do trem que fazia o trajeto Brás-Mogi das Cruzes afastava os namorados que trocavam presentes na véspera do Natal.
O vento começava a parar de soprar e era hora de recolher as pipas, nossas imaginações e nossos sonhos e retornar às nossas casas, depois de um abraço e um aperto de mão. Estávamos novamente na terra e ficávamos torcendo para que a semana passasse rápida e o vento mudasse de direção para que pudéssemos nos encontrar e avistar novos lugares e acontecimentos do pacato bairro da Cidade A. E. Carvalho.
Um passado não muito distante que ganhara as alturas através da nossa criatividade e amizade sincera e que deixou muitas saudades de um tempo em que dávamos vazão a nossa imaginação de adolescente, através de uma pipa, uma pipa nas manhãs de sábados.
Esta é uma pequena homenagem ao meu amigo Israel Brienzo que faz exatamente uns trinta anos que não vejo. Soube que anda morando lá pelas “bandas” do Norte do Paraná. Abraços, amigo, e saiba que até hoje me lembro das lindas namoradas e pipas que tanto empinamos juntos.

SOLIDÃO E LEITURA



Após breve estadia na casa da minha tia em Guarulhos, no ano de 2.000, segui meu caminho por quartos de cortiços e pensões escuras, vivendo miseravelmente e comendo em restaurantes de um real, longe da maravilhosa tecnologia, sem recursos financeiros para comprar um simples livro num sebo da vida e para fugir um pouco da realidade do cotidiano comecei a ler desesperadamente  tentando achar algum lugar no mundo, nos castelos medievais, na linda cidade de Macondo do livro  "Cem anos de Solidão" de Gabriel Garcia Marques ou talvez acompanhar nosso herói Dom Quixote ou  morar na pensão onde morava Clarissa de Érico Veríssimo.
Foram vários livros lidos e inúmeras visitas a biblioteca do Seródio. Lia todos os dias aproximadamente umas oito horas, sempre à noite, quando chegava do serviço ficava até às seis horas da manhã lendo, lendo e lendo.
         Eu estava vivendo de um sonho, o sonho da leitura e da maravilhosa literatura, quanto mais eu lia mais queria ler e assim conheci um pouco da obra e vida do nosso maior escritor brasileiro Machado de Assis. Sentia-me oprimido diante de tantas crônicas maravilhosas, tantos escritores sapientíssimos e resolvi avançar um pouco mais e comecei a ler grandes clássicos da literatura universal até que um livro mudou minha vida e minha maneira de pensar sobre tudo e sobre todos.
          Num determinado dia minha filha chegou em casa e disse que tinha uma ótima dica de leitura passada por professores da faculdade e indicou-me “Os miseráveis” de Victor Hugo. Comecei a ler o livro e fiquei apaixonado pela leitura e quanto mais lia mais emotivo ficava, cheguei a alguns momentos a chorar e só ai percebi o tanto quanto um livro pode emocionar um leitor. Terminei a leitura dos Miseráveis e senti-me preparado para começar a escrever alguns pífios textos e sempre escrevia e guardava-os, com receio que alguém visse e pudesse apontar algum erro de português.
          A ousadia fez-me conhecer um pouco da obra de Fiodor Dostoievski, autor russo, o Machado de Assis dos Russos, simplesmente maravilhosas as obras. Mas... infelizmente comecei a ler um pouco tarde, somente aos quarenta anos de idade, se soubesse o prazer que uma leitura proporciona começaria a ler livros quando criança, bem criança, mas como diz o “ditado popular” antes tarde do que nunca, começamos, agora o difícil é parar. Cada dia que passa sinto uma necessidade enorme de escrever algo e ler um pouquinho mais.  Enquanto conseguir mover os dedos e enxergar seguirei escrevendo sobre emoções vividas e fatos passados e sempre acompanhando a evolução educacional da minha netinha, pois em breve será ela que lerá para mim e eu ditarei algumas poucas crônicas perdidas no fundo dos poucos neurônios carcomidos pelo tempo e pela vida. Fechar os olhos e poder dizer com dignidade: Valeu a pena viver... e ler...e escrever. “Tá escrito” leiam! O quê?

CARTA DA NETINHA PARA O VOVÔ.


Querido Vovô, 

                Já faz tempo que ando querendo escrever uma cartinha para o senhor, mas o meu “tempinho” com brincadeiras tem impedido esta árdua tarefa. Mas hoje me sobrou um tempinho e decidi escrever algumas palavras do meu pequeno vocabulário, muito ensinado pelo senhor, por mamãe, por titio e pelas tias da escolinha que tanto amo para dizer o que meu coraçãozinho anda muito feliz pela sua presença entre nós.
                 Não se assuste com algumas verdades e outras “mentirinhas” bem características da gente que tem apenas três aninhos. Tenho notado seu esforço em tentar educar-me da sua maneira um pouco arcaica, mas tenho prestado muita atenção e sinto que o sr.procura orientar-me meigamente e a sua paciência é realmente surpreendente.
                Não fique zangado comigo não, quando derrubo comida no chão, pois como o senhor sabe minha coordenação motora ainda não é muito boa.
               Obrigada por deixar-me pular alegremente sobre a cama da mamãe e ainda o senhor dizer que assim que ela chegar é para eu parar, tenho tentado parar, mas...como o senhor sabe, às vezes fico muito empolgada e mamãe dá algumas broncas e vejo que o senhor sorri marotamente. Isto me faz muito feliz!
               Adoro esconder-me embaixo da cama e sempre dizem que tem “bicho”, que o chão está frio, sujo, mas eu não me importo, se o senhor soubesse como é gostoso observar o pés de vocês aqui debaixo! é outro ângulo do mundo. Nossa, como vocês andam nervosos comigo! só porque outro dia fiquei comendo deliciosamente um Danone e refletindo sobre meu mundinho, deixei derramar apenas um pouquinho no chão, afinal não existe iluminação neste espaço.
              Agora uma das “coisas” que mais adoro é quando o senhor leva-me para dormir, cobre-me cuidadosamente com o meu cobertorzinho branco e começa a contar histórias fantásticas usando e abusando de onomatopeias nunca escutadas em toda minha vida, fico prestando uma atenção até chegar o final da história e quando a mesma termina sempre peço a continuação e o senhor diz: Não, agora vamos dormir meu anjinho que amanhã conto a continuação da história. Poxa, que tristeza ter que dormir e não ouvir a continuação!
              Quando escuto sua voz ao longe já estou quase dormindo, fecho e abro os olhos e viro-me para o lado e lembro-me que temos que rezar, aí rezamos o “Pai Nosso” que o senhor ensinou-me e pedimos ao Papai do Céu que nos abençoe, termino as últimas palavras já sonhando com os anjinhos.
               Mas o que realmente faz-me muito feliz é quando vamos ao Parque de Diversão. O senhor não imagina a minha alegria em poder andar de bicicleta, ir observando árvores, flores, casas e cantando algumas músicas tão estranhas, que é da sua época, mas canto-as, ou tento cantá-las. Sempre levamos brinquedos para brincar na areia e a sua disposição em sentar-se comigo e fazer lindos castelos que às vezes eu os desmancho e o senhor fica um pouquinho zangado, mas não liga não vovô, isto é apenas para o senhor construir outro e podermos ficar um pouquinho mais construindo castelos neste nosso mundinho de sonhos misturados com sua realidade.
             São tantas coisinhas a ser faladas que me faltam palavras, mas o que quero grafar e dizer de coração é que amo o senhor mais que o resto do mundo! Obrigado por existir e fazer-me muito feliz. Um beijinho! Eu te amo! Conta outra “históinha”?

terça-feira, 23 de abril de 2019

AQUELE ABRAÇO


Você combinou com os amigos beber aquele chopinho bem gelado à noite, combinou com a namorada levá-la ao cinema após  o happy-hour, passear no Parque domingo de manhã, pagar suas contas atrasadas, atualizar seus e-mails, terminar de ler aquele livro abandonado na estante faz meses, terminar seu tratamento dentário, passear na praia, ir ao cabeleireiro e no finalzinho da tarde morre.
      Poxa, isto é muito triste! Devemos fazer um protesto e exigirmos que a Morte seja anunciada, seja agendada. Nada de aparecer “de repente” e ir abraçando a gente sem ao menos dar tempo de escolhermos nossas camisas mais bonitas, passar o perfume mais gostoso, dar alguns beijos nas pessoas queridas e deixar o dinheiro para pagar as contas.
      Então aquelas fórmulas matemáticas aprendidas com tanto esforço, noites e noites estudando, provas, simulados, aulas de inglês, concursos, vestibular, faculdade e quando senta-se no banco da praça, lá está uma mulher muito linda, perfumada que começa a conversar com você e repentinamente você sente uma dor muito forte no peito, ela sorri marotamente e diz: Pois é velhinho, chegou sua vez! Prazer, sou Dona morte, vim buscá-lo, faz o favor de acompanhar-me.
     Mas o pior de tudo e não ter tempo de despedir-se de ninguém. Não há “saideira” para a Morte!
     Colocam um terno horrível em você, ajeitam sua face, te enfiam num caixão, ficam falando baixinho e rezando incessantemente. Que nada, gostaria de escolher a roupa que iria, nada falar baixinho, quero muitas piadas e sorrisos estridentes e algumas rezas para não contrariar os mais devotos.
     Bem que poderiam colocar algumas boas músicas de Tom Jobim, Chico Buarque, recitar alguns poemas de Neruda, Cecília Meireles, Jorge Luís Borges, Vinícius de Moraes e tantos outros.
    Não, não pode, ela está sempre apressada, afinal existe um cronograma a seguir e o tempo é precioso. Por isso amigo, viva tudo que há para viver, não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida....Perdoe....Sempre!
    Nunca, jamais adie qualquer sonho e viva o agora porque talvez no próximo segundo você possa pertencer aos vermes que irão rir da sua cara medíocre.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

TIO AGOSTINHO



Toda criança gostaria de ter um tio como o tio Agostinho. Desde criança, quando tio Agostinho nos visitava nossa casa transformava-se numa grande festa, tamanho era o carinho que tínhamos por ele.
         Alegre, brincalhão, sempre de bem com a vida, participativo e adorava todas as crianças, nós amávamos tio Agostinho, principalmente quando ele nos protegia das surras de vara de marmelo que mamãe sempre aplicava na gente. Mamãe pedia para ele sair da frente e ele não saia e levava várias varadas de marmelo por nós e ria alto, zombando com tudo e com todos. Que maravilha aquele momento! Nós crianças adorávamos aquele momento que sempre terminava com um comentário de mamãe dizendo: Você acaba “estragando” meu castigo e ele sempre respondia: Ah, Thereza! Deixa pra lá eles ainda são crianças! Quando eu for embora você pode aplicar a surra, agora não. Faz um cafezinho pra gente comemorar a surra frustrada! Mamãe caia na gargalhada e ia preparar o tal do cafezinho.  Nós olhávamos com tanta admiração para tio Agostinho e gostaríamos que ele ficasse morando conosco eternamente, mas tio Agostinho era caminhoneiro e após várias brincadeiras, contar várias piadas e risos ecoados pela casa beijava-nos e dirigia-se a boleia do caminhão para pegar a estrada sem destino, levando apenas a solidão e nossos gritos e risadas na sua mente pela longa estrada.
         Nós fomos crescendo e nossa admiração por tio Agostinho acompanhava nosso crescimento, passamos da fase de criança para adolescente e alguns momentos na minha vida são inesquecíveis e os levarei comigo e contarei a todos onde estiver com um orgulho danado.
         Nunca tinha ido ao cinema e quando completei doze anos tio Agostinho prometeu que iria levar-me ao cinema, fiquei eufórico e lá fomos nós assistir meu primeiro filme chamado “De caniço e Samburá” com Jerry Lewis no cine Júpiter no bairro da Penha, em São Paulo. Saí do cinema encantado, vocês não imaginam quanta alegria invadiu minha alma naquele dia.
          Minha primeira bicicleta foi um presente por ter passado de ano na escola, lembro-me perfeitamente que eu estava jogando bolinha de gude com alguns moleques na rua, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo e lá aparece tio Agostinho com uma linda bicicleta preta, aro 28. Não me contive de felicidade, joguei todas as bolinhas para o alto, dei um apertado abraço no tio e saí pedalando por baixo do quadro, pois eu não conseguia atravessar as raquíticas pernas por cima do quadro.
        Pedi para fazer uma viagem para qualquer lugar em um imponente caminhão ao qual ele estava dirigindo e saímos de São Paulo à Belo Horizonte, comemos um frango assado por lá, fizemos algumas paradas e nos divertimos muitíssimo, com a paisagem, a estrada e o clima da viagem.
         Foram várias passagens e histórias ao lado do tio Agostinho, pois se fosse contá-las ficaria muitas horas descrevendo tanto carinho e alegria em estar ao seu lado.
        Valeu a pena passar por esta vida, ser criança, adolescente e ter um tio tão maravilhoso como tio Agostinho. Obrigado tio Agostinho. De coração!

PAQUERAS NA PRAÇA DA MATRIZ


 E quando eu cheguei em Jacareí, interior da cidade de São Paulo no início da década de 1970, fiquei encantado em saber que existia uma praça onde os jovens podiam paquerar livremente as lindas garotas existentes naquela época na aconchegante e linda cidade.
         Naquela época eu tinha dezessete anos e algumas meninas que participavam das alegres partidas de ping-pong que aconteciam no quintal da casa da minha tia achavam que eu era “bonito” embora eu tinha lá as minhas dúvidas quando encarava o espelho e via o meu rosto repleto de espinhas durante os demorados banhos dos finais de semana.
         Aos sábados quando eu retornava da “Prainha”, um aprazível local a beira do despoluído rio Paraíba onde eu ia ler os grandes clássicos da literatura Brasileira solicitado pelo mestre de Língua Portuguesa, entrava no meu quarto que dividia com dois primos e dirigia até o nosso guarda-roupa comunitário para escolher as roupas que usaria durante as paqueras no largo da matriz.
         Naquela época era “moda” usarmos calças boca de “sino”, um tipo de calças que cobria totalmente nossos sapatos devido a dimensão exagerada de pano, camisas “gola olímpica”, estilo perfeito para tapar algumas marcas existentes em nossos pescoços após avassaladores namoros e frenéticos beijos nas bocas de lindas meninas, sapatos com enormes saltos que chamávamos carinhosamente de “carrapeta” e cintos com enormes fivelas estampadas algum personagem da época, meias e cuecas eram deixadas em segundo plano, pois as mesmas não seriam vistas pelo público alvo, então não havia a necessidade de tanto esmero com estas peças.
         A escolha das roupas que seriam usadas durante a nossa paquera exigia grande concentração e uma boa dose de vasta imaginação.
         As roupas eram delicadamente retiradas dos cabides e colocadas sobre a cama, um olhar apreensivo, a mão sob o queixo e uma expressão de dúvida franziam nosso olhar.
         Os pensamentos levavam-me ao meio da praça e via-me com uma elegante calças azul-escuro listrada de branco, uma linda camiseta branca “gola olímpica” bordada com o meu nome completo na parte frontal para tornar-se facilmente identificável diante das meninas, sapatos lustrosos e eu diante da linda menina dos olhos azuis e um corpo escultural enaltecendo minhas roupas, meu perfume de terceira categoria a meu rosto espinhento.
         Abandonava as minhas divagações, abria os olhos e pronto,  já estava decidido e escolhida a roupa com a qual eu iria ao encontro da minha princesa da praça. Guardava todas as outras roupas e deixava sobre a cama somente aquela qual seria usada.
         Após longos minutos sonhando acordado, andava vagarosamente até o banheiro cantarolando alegremente uma música de Chico Buarque de Holanda ou do Caetano Veloso, adorava aquela que dizia: “Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”, para um demorado banho.
         A minha ablução só era interrompida quando minha tia Nina batia na porta do banheiro e dizia sorrindo:
- Oh! Luiz, o banho só lava o corpo e não a alma repleta de felicidade!
Soltava uma enorme gargalhada, fechava a torneira e saia enrolado em uma confortável toalha estampada com a foto do Pateta e entrava sorrateiramente no meu quarto.
         Passados alguns minutos lá estava eu diante do espelho especulando o meu visual e tentando tirar alguma espinha mais atrevida que instalara no meu rosto nos últimos dias e passados alguns minutos eu já estava totalmente preparado e muito feliz com minha aparência.
         Sentava-me na minha cama e ficava folheando uma revista chamada “POP” enquanto aguarda meu primo tomar banho e assim que ele estava arrumado caminhávamos até o portão e enquanto fechávamos o portão eu tecia algum comentário animador:
- Não adianta a gente se arrumar tanto, com nossa melhor roupa, com o nosso “melhor” perfume de terceira categoria se não temos o essencial: Um bom “papo”, diálogo e um poder de persuasão aguçado!
- Pois é Luiz, você está repleto de razão, mas mesmo assim vale a pena a nós tentarmos, quem sabe nós encontramos uma linda Cinderela ignorante, bem mais tolinha que nós, aí sim estamos feitos! Ríamos do diálogo e saíamos apressados com destino a praça.
         Chegávamos na praça e nossos olhares miravam em todas as direções a procura da nossa princesa encantada e quando avistávamos alguma linda garota, lentamente curvávamos diante do monumento, passávamos a língua entre os lábios e reverenciávamos a nobre dama sempre enaltecendo toda a beleza existente naquele corpo.
         Algumas meninas eram simpáticas e educadas e agradeciam nossas pífias cantadas, mas a maioria nem olhavam para nossos rostos e passavam olhando para o outro lado da praça o que nos irritava muito, grandes e sublimes palavrões eram tartamudeados entre uma ou mais mordidas nos lábios.
         As meninas circulavam pela praça no sentido horário e os meninos giravam no sentido anti-horário e assim ficava muito fácil avistarmos tudo e todos durante nossa paquera na praça.
         Alguns alto-falantes eram colocados em alguns pontos estratégicos na praça e os mesmos transmitiam lindas músicas daquela época e só eram interrompidos para anunciar um casamento, algum evento importante e falecimento de pessoas influentes da cidade e seguia tocando a música e nós andando e andando pela praça e nada de achar nossa musa encantada.
         Era muito engraçado quando eu e meu primo ficávamos encantados com alguma pequena, aí fazíamos uma estranha e engraçada aposta para ver quem iria abordar a menina primeiro e quem perdesse era obrigado a “plantar uma bananeira” em plena praça, ou seja, colocar a cabeça no solo e levantar os dois pés para o alto e ficar pelo menos uns três minutos naquela posição.
         Risos nervosos e lá vinha a garota mais linda da cidade e entre um cutucão e outro parávamos na frente da menina e pedíamos carinhosamente se poderia falar um pouquinho conosco e lembro-me que quantas vezes “sacaneava” com o meu primo, pois pedia a palavra e a abordagem da vez e contava todo a nossa aposta para a menina e a mesma aceitava somente para ver o meu primo plantar a tal da bananeira e após colocar os pés no chão e ver que estávamos sorrindo a menina despedia-se e ia embora dizendo que éramos “loucos”.
         O tempo ia passando e às vezes conseguíamos alguma paquera e imediatamente convidávamos a menina para irmos a uma pequena e mal iluminada pastelaria perto da praça para comer alguns pastéis e beber Tubaína.
         Algumas meninas aceitavam nosso humilde e hilário convite, mas a maioria nos abandonavam em plena praça pedindo para convidar nossa querida mãe para tal convite. Ríamos muito alto da situação e continuávamos a procura de outra garota que aceitasse convite tão “pobre”.
         Chegava a hora de retornar para nossa residência, pois, já passava das onze horas da noite e as poucas meninas que ainda insistiam em ficar na praça conseguiam ser mais feias do que nós.
         Recolhíamos nossas emoções e saíamos da praça muito feliz em fazer-se presente e até conseguir abordar algumas meninas porém sem sucesso e assim seguíamos de braços dados com nossa querida e inseparável amiga “Esperança” que jamais nos abandonava em instante algum.
         Deitávamos em nossas camas e ficávamos lembrando dos maravilhosos e divertidos momentos na Praça e entre um sorriso e outro adormecíamos e sonhávamos com aquela linda menina dos olhos azuis que muito tempo mais tarde tornar-se-ia nossa querida namorada.

MISSA DO GALO


Já fazia algum tempo em que eu estava morando naquela pacata cidade do interior e tudo naquela tranquila cidade agradava-me, desde os gestos simples e cordial das pessoas que mesmo não me conhecendo sempre ao passar por mim cumprimentavam-me e tudo aquilo era muito estranho, pois tinha vindo de uma metrópole onde ninguém olhava para cara de ninguém.
      O tempo foi passando e meu único objetivo era estudar para formar-me engenheiro e quantas garotas pediam para namorar comigo e eu educadamente dizia: Não obrigado, no momento tenho que estudar e lá ia seguindo minha “vidinha”.
      Trabalhava durante o dia numa construtora e a noite ia para escola Técnica concluir o curso técnico e preparar para entrar numa faculdade.
      Todos os dias eu ia almoçar em casa e sempre me acompanhava um colega chamado Valdir que trabalhava junto comigo e sempre que passávamos por uma rua avistávamos uma linda garota que sempre estava a varrer o enorme quintal de terra e sempre acenava para nós e foi num determinado dia que meu colega Valdir disse:
- Olha Luiz, não sei se você já observou, mas aquela garota está paquerando você! E eu dizia para o colega: Ora Valdir e eu sou lá de chamar atenção de alguém, aperta o passo que estamos atrasados para o almoço e assim seguíamos apressadamente para o encontro da nossa refeição, sempre contando várias piadas e rindo do cotidiano.
      Na segunda quinzena do mês de dezembro de 1975 tudo era festa, pois nossa juventude aliada ao bom desempenho nos estudos e no trabalho estava em harmonia e quando num determinado dia eu estava indo trabalhar após o almoço vejo aquela linda garota fazer um sinal para eu esperar que ela gostaria de falar comigo.
      Parei em frente da casa daquela linda menina e fiquei aguardando ela caminhar vagarosamente ao meu encontro e quando chegou perto pude perceber toda a beleza que a mesma tinha: Uns olhos cor de mel e um corpo de bailarina e trajando um lindo vestido azul chegou bem pertinho e perguntou meu nome e eu imediatamente disse tartamudeando meu nome completo e fiquei pensando: “Caramba, será que meu presente de Papai Noel chegou adiantado?”
      Apresentamo-nos e marquei de ir buscá-la na escola após as aulas do período noturno. Naquela tarde trabalhei encantado diante de tanta beleza e fiquei ensaiando mentalmente o falaria para aquela linda garota quando nos encontrássemos e decidi pedi-la em namoro e tentar conciliar o namoro com os estudos e o trabalho.
      O encontro aconteceu e entre alguns beijinhos passamos a fazer várias perguntas sobre nós e ela ficou admirada e encantada com minha força de vontade e o grande objetivo em formar-me engenheiro e perguntava-me constantemente o porquê de não ficar morando na cidade de São Paulo e eu dizia que estava disposto a esquecer da grande agitação da metrópole em busca do meu sonho em estudar muito e voltar para Sampa somente depois de formado.
      Durante nossa conversa ela perguntou minha religião e eu disse que era católico e foi então que ela fez um convite para assistirmos a missa do galo na igreja da matriz junto com ela e concordei rapidamente e marcamos o encontro para irmos à igreja e nos encontrar a meia noite do dia 24 de dezembro na porta da igreja.
      Assim que cheguei à porta da igreja que já estava lotada de fieis fiquei alguns minutos tentando localizá-la na porta da igreja e eis que senti duas mãos tampando meus olhos e perguntando para eu adivinhar quem era e quando as delicadas mãos foram retiradas da minha visão pude ver a mulher mais linda que meus olhos já tinham visto neste planeta: Trajava um lindo vestido totalmente branco ornamentado com alguns botões cor de ouro, uma sandália prata e um sorriso encantador que iluminava toda a praça.
      Assistimos a missa do galo do lado de fora da igreja e foi totalmente celebrada em latim e a cada amem que eu escutava do padre erguia os olhos para o céu para agradecer meu lindo presente: Aquela linda mulher que tornar-se-ia minha esposa após dois anos daquele encontro na missa do galo.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...