segunda-feira, 16 de novembro de 2020

VOCÊ JÁ FOI POBRE OU PEÃO?

 Tudo começou com uma brincadeira em uma indústria de fabricação de equipamentos de auxílio a radionavegação aérea na qual eu trabalhava como Técnico em Eletrônica.

Enquanto esperávamos novos contratos serem fechados para iniciarmos a produção dos equipamentos ficávamos ociosos, na expectativa de novos e milionários contratos, alguns colegas já bem posicionados mental e financeiramente tinham grandes objetivos e lá estavam eles debruçados sobre espessos livros decifrando e calculando dificílimos problemas da indústria.

Eu, como sempre, um maravilhoso zombador do cotidiano e da vida ficava imaginando como poderia existir pessoas que gastavam eternos minutos lendo e relendo e se informando sobre tudo que rodeava o mundo da tecnologia daquela época.

Em um determinado dia, conversando com alguns colegas zombadores decidi fazer uma brincadeira e lançar um questionário na empresa com a seguinte pergunta: você já foi pobre ou peão? Assim começamos a responder a pergunta ora proposta, inicialmente entre nós (zombadores) e foi quando após nós zombadores escrevermos várias respostas da pergunta um colega começou a ler na sua mesa e gargalhava altamente e foi quando nosso gerente chegou sorrateiramente por trás do colega e ficou espiando caladamente e viu o caderninho com as respostas e o meu colega não percebeu a proximidade do gerente e continuou a rir e foi quando ele se virou para trás e levou um susto, fechou rapidamente o caderninho, esboçou um sorriso de desculpa e começou a tamborilar os dedos na mesa nervosamente.

O gerente pediu o caderninho, esboçou um sorriso de compreensão e caminhou lentamente até sua mesa e começou a ler as respostas e a rir. Pronto, nossos medos estavam armazenados temporariamente e foi quando o gerente chamou meu colega para sentar ao redor da mesa e a pergunta foi apenas uma: — Quem inventou, bolou este questionário? como minha mesa ficava perto da mesa do gerente, escutei e fiz sinal para o colega dizer que era eu. O gerente pediu para o colega voltar para sua mesa e me chamou para conversar. Minha espinha dorsal esfriou, meu rosto ficou muito vermelho e eu já estava preparado para o pedido do gerente para eu ir até o departamento de Recursos Humanos e dizer que eu estava despedido.

Sentei na frente do gerente com aquela cara de perdão e foi quando a pergunta veio com ar de deboche entre um sorrisinho de alegria: foi você que criou este caderninho com esta pergunta?

Disse sem pestanejar que sim e aguardei a resposta do gerente que se limitou a dizer:

Tudo bem, pode continuar o questionário, mas paralelamente gostaria que você percorresse toda a fábrica com seu caderninho e pedisse para os funcionários responderem algumas perguntas em outro caderninho, que serão: como você vê a empresa neste exato momento? Ela está atendendo sua expectativa quando a sua remuneração? O que você faria para mudar a empresa para melhor? Dê alguma sugestão de como tornar esta empresa grande e você crescer com ela.

Pensei alguns segundos e perguntei: posso dizer que foi o senhor que está fazendo esta pesquisa ou não?

O gerente sorriu, levantou os braços calmamente para dar uma espreguiçada, olhou-me com aquela cara de maluco e disse:

Obviamente que não pode, as perguntas serão respondidas nos dois caderninhos e quando atingir a maioria dos funcionários com as respectivas respostas você traz os dois caderninhos para eu fazer uma análise e detalhe: sigilo absoluto, todos irão responder, afinal você trabalha no departamento da qualidade da empresa e todos irão pensar que é para a melhoria da empresa em todos os aspectos, o que acha?

Nunca hesitei tanto em toda a minha vida e depois de alguns minutos calado, resolvi aceitar o pedido do gerente e passados alguns minutos lá estava eu entrando e saindo de todos os departamentos da empresa com o meu caderninho e outro caderninho embaixo do braço com as perguntas do gerente de qualidade.

Armei uma estratégia, primeiro pedia para a pessoa responder a minha pergunta se a pessoa já tinha sido pobre ou peão e após a resposta registrada pedia sutilmente se podia responder as perguntas que o gerente tinha feito.

Alguns funcionários riam de algumas respostas já escritas e lá deixavam suas respostas, outros recusavam-se a responder dizendo que tinham mais o que fazer e não poderiam perder um segundo respondendo baboseiras. Em seguida eu mostrava o caderno com as perguntas que o gerente pediu para fazer e eles respondiam todas sem questionar.

Após três meses percorrendo todos os departamentos e o caderninho já não suportava tantas respostas, mudei para um caderno com duzentas folhas e assim o trabalho foi concluído entre muitas risadas em um ambiente altamente descontraído.

Entreguei os dois cadernos para o gerente e ele pediu para deixar em cima da mesa que ele iria dar uma olhada mais tarde. Voltei para minha mesa e continuei meu trabalho em redigir normas internas para inspeção dos produtos da empresa, mas sempre de olho para ver quando o gerente iria começar a ler os cadernos e ver a reação do mesmo.

Eis que após alguns dias o gerente pegou os cadernos e começou a lê-los e via-se sorrisos e cara de preocupação.

Eu, da minha mesa acompanhava as expressões faciais de sorrisos e frangir de sobrancelhas do gerente. Altos sorrisos às vezes eram ouvidos, e eu tinha certeza que ele estava lendo as respostas do nosso caderninho. Creio que deve ter ficado umas duas horas lendo os cadernos e assim que terminou chamou-me até sua mesa e disse sorrindo:

— Parabéns Luiz, ficou ótimo, muito interessante, agora gostaria que você lesse todas as respostas que deram com relação às perguntas que fiz e os empregados responderam e fizesse um resumo e um relatório do que você acha que poderemos modificar para melhoria da empresa.

Destemido e ousado como era e ainda sou, aceitei o desafio e lá estava eu montando um relatório para a melhoria da empresa. O caderninho de zombaria com as respostas dos colegas ficou confiscado até eu entregar para o gerente o relatório de melhoria da empresa.

Após alguns dias já tinha preparado minuciosamente todas as mudanças que o pessoal da empresa tinha sugerido.

Fiquei aguardando uma resposta para saber se o relatório tinha ficado bom e mais uma vez fui surpreendido pelo sábio gerente que deu o relatório na minha mão e em seguida o caderninho de zombarias e pediu que eu levasse até o dono da empresa para que o mesmo lesse o relatório e também respondesse a pergunta do meu caderninho de zombaria.

Naquele exato momento pensei: acho que o gerente quer que o próprio dono da empresa me dispense e lá fui eu com meu receio entregar o relatório para o dono da empresa.

Fiquei alguns minutos conversando com a recepcionista e fui recebido pelo dono da empresa com um amável sorriso que pediu para eu sentar que gostaria de conversar comigo.

Novamente pensei: agora vem a demissão!

— Soube do seu maravilhoso trabalho em querer ajudar a empresa a crescer e fico muito grato por ser muito participativo. Deixa o relatório comigo e o caderninho de zombaria vou responder sim, mas preciso de algum tempo para recordar se alguma vez já fui pobre ou peão nesta vida, sorriu, despediu-se e fiquei na ansiedade aguardando a demissão e a posterior resposta do dono da empresa que após alguns dias recebi o caderninho com a resposta do proprietário da empresa que dizia:

Não, não posso mentir, nunca fui pobre de verdade, nunca fui peão em toda minha vida, mas adorei as respostas e conhecer um pouquinho mais os nossos colaboradores.

Em posse do nosso caderninho com quase trezentas respostas a gente se divertia lendo a respostas dos aperreios dos colegas fora do horário de trabalho.

Assim, aquilo que nasceu de uma brincadeira tornou uma valiosa fonte de consulta e melhoria para a empresa. Fiquei trabalhando durante cinco anos nesta empresa, onde cresci profissional e pessoalmente ao lado de grandes mestres formados por um renomado Instituto de São José dos Campos e depois fui vender meus conhecimentos para uma indústria bélica.

sábado, 10 de outubro de 2020

O PRIMEIRO DIA DE AULA

 O passarinho do relógio cuco apareceu na pequena gaiola e cantarolou cinco vezes, a mãe de Francisco despertou, e ficou algum tempo sentado na cama com os olhos voltados para o altar de Santo Antônio que sempre estava iluminado por uma vela branca, fazendo as orações matinais pedindo a Deus que protegesse toda a família e para que todos tivessem um dia maravilhoso.

Dona Rosa era a mãe de Francisco, uma senhora muito bondosa que adorava ajudar todas as pessoas e muito dedicada ao lar, gostava muito de cozinhar para todos da família que consistia do marido José, e seus filhos: Francisco, Regina e Rebeca.

Dona Rosa levantou e foi acordar Francisco que ainda dormia e depois de várias sacoalhadas no corpo esquelético de Francisco disse:

 Acorda Chiquinho, é o seu primeiro dia de aula na escola e não podemos chegar atrasados. Saiu do quarto e dirigiu-se a cozinha que ficava do lado de fora da casa, atravessou a sala silenciosamente e entrou na cozinha empurrando a porta que nunca ficava trancada e colocou uma chaleira que apitava com água no fogo para preparar o café matinal.

O Senhor José acordou desejou bom dia para Rosa dando-lhe um carinhoso beijo no rosto e foi tomar banho e quando passou perto da cama do Chiquinho ainda disse em tom de brincadeira.

 Acorda rapaz vai estudar para não ter que carregar carroça! Sorriu e entrou no banheiro assobiando uma música, estilo chorinho de outrora.

Francisco, virou-se na cama e levantou coçando os olhos e sem ter noção que horas eram, que dia era e foi logo ao encontro da mãe na cozinha que “pelejava” sintonizar o antigo rádio em uma estação onde transmitia notícias do dia. Entre o chiado do rádio e o chiado da chaleira ouvia o menino pedindo a benção para dona Rosa que deu um abraço no pequeno garoto e disse: Deus te abençoe meu filho!

 Vamos se arrumar para ir para escola, assim que seu pai sair do banheiro vê se toma um banho bem caprichado e lava todo o corpo bem direitinho, entendeu? Francisco balançou a cabeça em sinal de concordar e ficou sentado na cama aguardando o senhor José sair do banheiro para ele tomar banho.

Assim que o senhor José saiu do banho Francisco entrou, fechou a porta e ligou o chuveiro e começou a pensar:

“Poxa! finalmente meu primeiro dia de aula. Como será a minha escola? Vou ficar muito feliz em conhecer a minha professora, meus colegas de classe, a diretora.”

Entre divagações Chiquinho escutou baterem na porta, era sua mãe dizendo:

 Vamos garoto, acaba logo com este banho, a água lava o corpo e não lava a alma não, viu? Saiu rapidamente para a cozinha para preparar a marmita que José levaria para o serviço. O preparo da marmita de José era feito com muito carinho, pois, Rosa fazia arroz todos os dias quando acordava para preparar a marmita do marido José, pois, ela temia que a marmita pudesse azedar.

O cheiro agradabilíssimo do café invadia toda a cozinha e enquanto Francisco se enxugava ouvia o barulho da colher em contato com a chaleira adoçando o café e a mãe pedindo para ele ir pegar o leite que o leiteiro deixava em frente do portão todos os dias.

Escuta-se um grito vindo da rua dizendo: leiteiro, leiteiro. Era o senhor Joaquim que vinha trazer todos os dias o leite para o café matinal da família e deixava do lado de fora do portão. Chiquinho corria para ir pegar o leite e enquanto subia os intermináveis degraus do antigo casarão onde moravam que ficava em um bairro de classe média da cidade de São Paulo pensava:

 Poxa! meus pais realmente acreditam em tudo, acreditam até na honestidade das pessoas. Se passar um ladrão e roubar o leite e sair correndo?

Colocava o leite sobre a mesa que já estava devidamente arrumada para receber todos da família, com exceção de Regina e Rebeca que ainda dormiam um sono profundo.

O leite era fervido enquanto Rosa preparava umas deliciosas rabanadas que tanto o senhor José gostava e sentavam-se ao redor da mesa para degustar a primeira refeição matinal: O café com rabanadas e alguns pães que a dona Rosa preparava e armazenava em uma vasilha vermelha devidamente identificada.

Assim que sentavam ao redor da mesa, dona Rosa abaixava a cabeça e fazia uma oração mentalmente agradecendo aquele sublime momento. Comiam e bebiam o café entre alguns comentários de dona Rosa:

 Pois, é Francisco, hoje é seu primeiro dia de aula, vê se comporta na sala de aula e não fica conversando com os seus amiguinhos que você conhecerá.

O pai de Francisco sorria e dizia: ora Rosa, o moleque é comportado e vai se comportar direitinho, não é meu filho?

Chiquinho balançava a cabeça afirmativamente e dava mais uma mordida na deliciosa rabanada e assim entre um diálogo e outro terminavam de comer e beber o café matinal.

José abria a pequena maleta e depositava a marmita, o guarda-chuva e um pequeno livro para ser lido durante o trajeto até o trabalho no centro da cidade de São Paulo, dava um beijo em Rosa, outro em Francisco e nas filhas Regina e Rebeca que ainda estavam dormindo e saia apressado para embarcar no lotado ônibus que o levaria até o serviço.

Dona Rosa foi acordar as filhas para dar o café matinal e deixa-las na casa de uma vizinha chamada dona Arminda enquanto ia levar o Francisco para a escola.

Enquanto Francisco conferia o pouco material que deveria levar para a escola, dona Rosa alimentava as filhas Regina e Rebeca e fazia um ovo mexido com tomate que colocado dentro de um pedaço de pão serviria de lanche para o filho Francisco poder comer na hora da merenda. A lancheira estava arrumada com um bom lanche e um suco de laranja e Francisco já estava pronto para encarar o primeiro compromisso fora de casa. Calça curta azul, sustentada por um suspensórios amarelo, camiseta branca, tênis azul com meias brancas era o uniforme que Chiquinho iria usar na escola e após a dona Rosa estar pronta para ir à escola foi até a casa de uma vizinha, dona Arminda e pediu que ficasse com as filhas Regina e Rebeca enquanto fosse levar o Francisco até a escola.

O caminho até a escola Albino César não era distante, apenas três quilômetros da casa onde morava Francisco , conseguiram fazer este percurso em apenas trinta minutos a pé, caminhando lentamente e após a caminhada estavam diante da enorme escola, imponente diante daquele lindo dia em que a diretora da escola dona Magali e várias professoras aguardavam os alunos no corredor de entrada da escola.

Dona rosa e seu filho Francisco chegaram na escola, subiram vagarosamente as escadas e adentraram o corredor de entrada onde foram recebidos pela diretora dona Magali com um enorme sorriso estampado no rosto.

A quantidade de alunos que estavam iniciando o primeiro ano do curso primário naquele dia era muito grande o que deixou Francisco um pouco apreensivo. Francisco meio assustado segurava firmemente a mão da mãe até que dona Rosa se apresentou para a diretora e disse que seria o primeiro dia de aula do filho.

A diretora Magali disse para a dona Rosa que ficasse sossegada, pois, o Francisco seria muito bem tratado e que viesse pegar o garoto meio-dia pelo portão principal da escola onde estariam alguns inspetores de alunos que conduziriam a dona Rosa até a sala de aula para pegar o querido filho.

A mãe de Francisco deu um carinhoso abraço e um beijo no rosto do filho e saiu com os olhos marejados. Um inspetor de alunos jovem pegou na mão do assustado Francisco e o conduziu até um enorme pátio cheio de crianças conversando e falando alto, deixou o garoto em uma fila e disse:

 Fica nesta fila, porque daqui a pouco a professora vem pegar vocês para entrar na sala de aula, entendeu?

Francisco um pouco amedrontado balançou a cabeça em sinal de positivo e novamente pôs-se a pensar:

“Meu Deus! o que será de mim agora? Minha mãe me abandonou no meio desta barulhenta criançada toda que nem conheço e disse que voltará em breve para me buscar. Será que ela virá mesmo? E se ela não vir me buscar o que vou fazer?”

Olhou para o teto do pátio da escola que estava cheio de bandeirinhas multicoloridas e logo deduziu: Acho que por aqui eles devem fazer muitas festas, estou começando a gostar daqui, será que tem muitos doces? Assim entre várias divagações apareceu no grande palco da escola a diretora Magali com todos os professores e foi logo pedindo silêncio a todos e começou a descrever a escola e apresentar todos os professores, um por um e Francisco olhava admirado e com os olhos brilhando tudo aquilo que estava acontecendo e foi quando após terminar de apresentar todos os professores, inspetores de alunos, pessoal da secretaria e o pessoal da limpeza pediu novamente silêncio a todos os alunos e que prestassem muita atenção, pois, iriam escutar um hino. O hino nacional brasileiro começou a ser tocado e todos os alunos permaneceram em um grande silêncio. Após o hino ser tocado as professoras desceram do palco e foram até a fila pertencente a classe onde elas iriam lecionar e ficaram silenciosamente observando todos os alunos e assim que a diretora Magali autorizou a querida mestra Judite pegou na mão de uma aluna e pediu que os demais alunos acompanhassem a mesma para ir até à sala de aula.

Assim que chegaram na sala de aula a professora Judite ordenou que todos sentassem silenciosamente em qualquer “carteira”. Francisco se acomodou em uma “carteira” bem em frente da mesa da professora e ficou a observar a linda professora Judite:

A professora Judite era jovem, cabelos ruivos, olhos azuis e usava uma saia branca que a deixava mais linda ainda. A professora Judite sentou-se na cadeira e disse que todos prestassem atenção, pois, ela iria chamar o nome de cada um e se o aluno estivesse na sala era para ficar em pé e levantar a mão direita e dizer bem alto: presente.

Aquele primeiro dia de aula para Francisco foi muito agradável, pois, a professora pediu que os alunos se reunirem em grupos e conversassem entre eles para se conhecerem melhor, enquanto a professora ajudava a organizar os grupos ia delicadamente passando a mão na cabeça de um aluno e de outro aluno e sempre falando com uma voz pausada e delicada que todos deveriam se conhecer, afinal iriam passar uma boa parte da vida entre quatro paredes e algumas aulas ao ar livre de educação física.

Novamente Francisco começou a refletir:“ Poxa! isto deve ser muito chato! Como ficar trancado entre quatro paredes enquanto minha querida bola de capotão fica em casa e como será este pessoal que está aqui comigo?” Será que posso trazer minhas irmãs Cristina e Rebeca para ficar aqui comigo?" Foi quando um menino chamado Cosme fez uma pergunta para Francisco:

— Olá, meu nome é Cosme, qual o seu nome? Francisco respondeu um pouco acanhado.

— Meu nome é Francisco, mas o pessoal lá de casa me chama de Chiquinho.

— Onde você mora Chiquinho? É perto da escola?

— Não Cosme, eu moro um pouco longe, perto do ferro velho do seu Antonio, conhece?

Cosme deu um leve sorriso e disse:

— Sim, conheço sim, às vezes ela vai na minha casa, saber se minha mãe tem algo para doar.

- Ah! então devemos morar perto um do outro, que rua você mora Cosme?

Cosme pensou um pouco e disse: moro na rua Esperança e foi logo perguntando se era perto de um grande gramado.

Chiquinho respondeu que sim e assim a partir deste dia Francisco e Cosme tornaram-se amigos inseparáveis, pois ambos moravam na mesma rua: Rua Esperança.

A professora Judite pediu para que todos voltassem para as suas “carteiras” e começou a falar sobre a escola, sobre a disciplina que todos deveriam ter, ao respeito com o amiguinho e com todos da escola e começou a dar uma aula sobre higienização das mãos e assim quando todos estavam muito enturmados soou uma sirene assinalando que as aulas tinham terminado e a professora Judite pediu a todos os alunos que permanecem no respectivo lugar que as mães viriam busca-los na porta da sala de aula.

Francisco abaixou a cabeça e começou a rezar mentalmente para que sua mãe aparecesse rápido na porta e foi quando ouviu a professora chamar o seu nome, ergueu a cabeça, levantou-se e saiu correndo para abraçar a mãe Rosa, que agradeceu a professora Judite e foram embora conversando muito sobre aquela experiência do primeiro dia de aula do curso primário da escola Albino Cesar em 1963.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

BAR DO FISGUETI





Dos vários bares que conheci ao longo dos meus sessenta e quatro anos, existiu um bar que jamais irei esquecê-lo, chamava-se Bar do Fisgueti.

Diferente de tudo aquilo que um experiente boêmio possa desejar, o bar ficava localizado na rua Barão de Jacareí em Jacareí-Sp. De uma simplicidade invejável lá estava o querido e saudoso Fisgueti para receber todos os boêmios no finalzinho da noite, início da madrugada.

Muito linda era a hora da abertura do bar, nunca antes das onze da noite e fechava apenas quando saísse o último freguês devidamente alcoolizado.

Uma televisão antiga, preto e branco pendurada numa das rústicas paredes, um enorme balcão e vários boêmios postados ao redor do enorme balcão de madeira, bebericando todos os tipos de bebidas alcoólicas existentes naquela época e degustando deliciosos churrascos no pão ou apetitosas almôndegas que repousavam numa estufa clamando uma boa mordida.

Conheci o bar após sair de uma choperia e ainda sentir muita sede de beber a famosa “saideira” e após rodarmos quase toda a cidade, lá estava nosso Oásis e assim que chegamos ao bar  ficamos um pouco apreensivos, mas mesmo assim entramos e sentamos numa carcomida mesinha e ficamos bebericando nossa “última” cerveja da noite.

A partir deste dia sempre fazíamos uma parada no bar do Fisgueti nas madrugadas e assim íamos seguindo e acabei descobrindo o que existia de mais engraçado e inusitado no bar: era a corrida de São Fisgueti, que acontecia no dia 30 de dezembro para não existir concorrência com a São Silvestre.

Resolvi participar da corrida São Fisgueti e antes da corrida começar, existia uma grande concentração no próprio bar do Fisgueti, regada a muitas cervejas, cachaças, vinhos, batidas e todo tipo de bebida alcoolica e assim fazíamos nosso aquecimento entre vários sorrisos e abraços de felicidade.

O mais engraçado e inusitado é que só podia participar da corrida quem estivesse devidamente alcoolizado, caso estivesse sóbrio, era eliminado assim que a corrida começasse, foi exatamente o que aconteceu comigo, pois, eu não estava devidamente alcoolizado e após cem metros fui gentilmente retirado da corrida por importantes fiscais semialcoolizados.

A estrutura era enorme, pois, existia até uma ambulância cedida pela prefeitura da cidade acompanhando os atletas e socorrendo os mesmo de possíveis quedas e era muito divertido, pois, eram apenas mil metros a serem percorridos e quando a largada era anunciada via-se alguns atletas que mal conseguiam dar alguns passos e saiam da avenida e voltavam para a avenida e vencia quem chegava por último e a concentração novamente era no bar,com muita euforia e alegria entre abraços e o gritos de felicidade dos atletas alcoolizados.

Até hoje quando eu me lembro do bar do Fisgueti sinto uma certa tontura e dou gostosas gargalhadas do que existiu de mais belo para todos os boêmios de plantão daquela época em Jacareí. Bar do Fisgueti!


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

FAZENDO E VENDENDO COXINHAS



Estávamos no início de 2008, a ideia de fazer coxinhas tinha vindo depois de uma longa viagem à Ubatuba. Depois de várias tentativas de fazer uma coxinha diferente de todas aquelas já existente, conseguimos fazer uma que era diferente de todas as outras. Fizemos um verdadeiro “laboratório experimental” com temperos, recheios e o sabor foi ficando cada vez mais afinado com o paladar de todos.

Após um período de dois meses em Ubatuba na casa da tia Ana, onde testamos várias receitas, chegamos a uma que colocamos o nome de Coxinha Caiçara e era esta receita que apresentei para minha filha e disse que a partir daquele momento iríamos viver de fazer as tais coxinhas e vendê-las pelo comércio local da Vila Maria Alta em São Paulo-SP e redondeza.
Minha filha ficou estupefata com a ideia, mas como não tinha outra opção, pois, morávamos numa pequena casa de aluguel, eu minha filha e minha netinha. Abraçou a ideia para não passarmos necessidades e assim começamos nossa atividade de salgadeiros, especificamente fazendo a tal da coxinha caiçara.
Fazer as coxinhas não era problema, pois, já tinha dado certo no litoral e não tinha como dar errado na capital, já que o sabor era deliciosíssimo, a textura surpreendente, sequinha. Combinamos um preço bem razoável, fizemos as primeiras quarenta unidades e saí pelo comércio local em busca de nossos novos clientes. A dificuldade foi enorme no início, pois, ninguém conhecia nossas coxinhas e todos se mostravam cépticos em relação ao nosso produto. Foi uma grande batalha no início para provar para todos os novos clientes que estávamos vendendo um produto de qualidade, muito delicioso e que todos deveriam provar.
Trabalhar por conta própria é muito bom, mas exige um esforço enorme. Levantava-me às 6 horas da manhã e ia comprar os ingredientes num mercado próximo de casa, preparava tudo, desde colocar o frango para cozinhar, até os temperos para podermos fazer a noite.
Lá pelas 8 horas da manhã começava a fritar vinte coxinhas e ia vendê-las pela redondeza, vender salgados de manhã não é lá tarefa muito fácil, mas precisávamos e não tinha para onde correr e lá ia eu com minha caixa de isopor, uma garrafa de café que oferecia de brinde aos meus clientes. Quando estava próximo do meio-dia já tinha vendido todas as coxinhas e, nessa altura retornava para casa, almoçava e ficava esperando dar 2 horas da tarde para fritar mais vinte coxinhas e sair à tarde.
Os clientes já estavam conquistados, tinha em média uns vinte clientes fiéis que adoravam nossas coxinhas, o restante era conquistado dia a dia, andando muito, tomando muita chuva, entrando em quase todos os estabelecimentos comerciais e esbanjando carisma, bom humor e sempre enaltecendo a grande diferença das nossas coxinhas e das outras encontradas pelos bares e padarias do bairro.
Todos os dias era uma grande batalha, pois, dependíamos de vender as quarenta coxinhas todos os dias e o dinheiro arrecadado era para pagar o aluguel, água, luz, comprar fraldas e leite para a netinha e um pouco de comida para nós.
Foi oito meses vendendo todos os dias em média quarenta coxinhas e algumas histórias interessantes aconteceram neste período. Num sábado quando minha filha estava fritando as coxinhas o gás acabou e ela desabou a chorar dizendo que estava cansada de ser pobre, soltei um grande sorriso e disse que também estava cansado, mas não era de ser pobre e sim de andar  pelas ruas do bairro, ela sorriu entre algumas lágrimas e foi comprar o gás.
O secretário de uma escola estadual pediu para vendermos as coxinhas num sábado à tarde na escola, pois, alguns alunos estariam na escola para aulas de recuperação. Fizemos cinquenta coxinhas e fomos até a escola e chegando lá, simplesmente não havia ninguém, as aulas foram adiadas. Ficamos aflitos, sentamos na beira da guia e ficamos imaginando o que faríamos, até que escutemos barulho de instrumentos musicais vindo do clube Thomas Mazzoni, fomos correndo até lá, onde estava acontecendo uma final de campeonato de time de futebol, tinha muita gente, subi as arquibancadas e fui vendendo, vendendo e após uma hora já tinha vendido todas as coxinhas, fomos embora muito feliz e com grande alívio , tínhamos garantido nossa próxima remessa de coxinhas, naquele dia compramos até uma pizza para comemorar nossas vendas.
Numa sexta-feira a tarde apareceu meu sobrinho Leandro e seu filho Diego comprou toda a “carga” de coxinhas, ele ainda trouxe várias latas de cervejas, onde bebemos e comemos todas as coxinhas. Raras vezes isto acontecia, mas de vez em quando acontecia.
Às vezes, a tarde, convidávamos minha irmã Silvinha e meu sobrinho John Lennon para tomar café com coxinhas em casa, ficávamos muito feliz com a presença da minha irmã na nossa humilde casa, inesquecíveis aqueles momentos.
Muitas passagens aconteceram, umas tristes outras alegres e aprendemos uma lição maravilhosa que jamais passaremos fome neste País, desde que estejamos propensos a “meter a mão na massa”, suar a camisa e queimar a barriga no fogão. Conseguimos sobreviver! Vai uma coxinha aí?

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

OS BAILES DA VILA RÉ




Em 1970, eu era um adolescente de 15 anos e estava vivendo a melhor época de toda a minha vida, isto eu ainda não sabia, digo isto agora..., mas como todo garoto daquela época, já trabalhava com carteira assinada numa cia. de seguros, no centro da cidade de São Paulo, tinha algumas paquerinhas e adorava passar as tardes de sábados no Centro Educacional da Moóca, na piscina, e quando eu chegava em casa começava a preparar-me para ir a um baile chamado “O Cafona”, que ficava na Vila Ré, zona leste da cidade de São Paulo.

Assim que eu chegava em casa tomava um demorado banho de balde, perfumava-me com um desodorante barato e vestia uma calças boca de sino azul com listras brancas e cintura bem alta, uma camisa “Gola Olímpica”, que chamávamos carinhosamente de “Volta ao Mundo”, um sapato com saltos enormes, chamado salto carrapeta e um cinto com uma fivela imensa. Repartia meus cabelos compridos ao meio, emprestava algum dinheiro do meu pai e ia ao encontro dos amigos Israel e Luizão para encontramos as meninas mais bonitas da nossa região, nos bailes do Cafona.

Assim que eu encontrava com meus amigos eu era zombado com vários assobios, enaltecendo meus trajes e o agradável odor de perfume de quinta categoria e lá seguíamos nós em plena “louçania” dos nossos 15 anos, falando muito sobre o cotidiano, das lindas meninas que se déssemos sorte encontraríamos no baile, sorrisos altos e olhos observadores para tudo e para todos.

Após uma caminhada de uns trinta minutos, chegávamos ao Cafona e ficávamos observando as lindas meninas chegarem com os cabelos estilo Chanel, com muito “laquê”, vestidos rodados e sorrisos alegres, algumas vinham acompanhadas dos pais, o que nos deixava muito apreensivos, pois, sabíamos que seria muito difícil abordá-las.

Após alguns minutos naquele flerte, tomávamos coragem, passávamos a língua nos lábios e entrávamos sem muita purpurina. Às vezes éramos notados logo na entrada e ficava fácil bailarmos as três horas apenas com uma única menina. Isto acontecia muito raramente, pois, na maioria das vezes éramos obrigados a garimpar nosso tesouro com muito esforço, mas sempre acabava por arranjar alguma garota interessante.

Os meus amigos se davam muito bem, pois, eles eram “galinhas”, hoje o pessoal fala “pegador”, bailavam com quase todas as meninas, sem restrição, agora eu era um pouco tímido e meio “bobão”, pois, não aceitava bailar com qualquer menina e sempre escolhia as mais bonitas, o que diminuía muito minhas chances de arranjar alguma menina para dançar. Quantas vezes passava o baile todo observando os meus amigos bailando e eu bebendo guaraná e de olho em alguma “linda” e ela não dava a mínima chance de aproximação.

Quando anunciavam a última música, ficávamos desesperados para encontrar alguém, valia tudo, o importante era dançar a última música que se chamava Rock Roll Lo Lo Bye cantada por B.J.Thomas. Rostos colados e os olhares de algumas mães colados na gente, nada de grave acontecia, a não ser alguns cochichos inaudíveis prometendo vir no próximo baile e sempre enaltecendo a beleza que às vezes não condizia com a realidade, mas valia tudo, até dar alguns “pisões” nos pés das damas e ser largado em plena música. Que vergonha!

Terminada a música, dávamos um enorme suspiro e saíamos com a alma repleta de felicidade, alguns beijinhos em algumas meninas sempre prometendo o retorno no próximo final de semana e pé na estrada porque se fazia tarde, afinal tínhamos que chegar em casa antes da meia-noite.

Quantos bailes! Quantas alegrias vividas ao longo da nossa adolescência que hoje permanecem no meu coração e faz-me sentir que vivemos nossa época intensamente, com a pureza e alegria dos jovens da geração 70. Que saudades!


APRENDIZ DE AÇOUGUEIRO








 Estava eu lá despreocupado, lendo os meus gibis do Zorro, do Super Homem, do Batman, Homem Aranha, tinha apenas quatorze anos anos foi quando minha mãe chegou do açougue do senhor Mário e anunciou meu novo serviço. Iria trabalhar com o senhor Mário, um Português que tinha um açougue na esquina da rua onde morávamos, no bairro Cidade A.E.Carcalho, zona leste da cidade de São Paulo. Eu não me contive e perguntei para minha mãe:

— Mas mãe, o que vou fazer num açougue? Não sei nem cortar um pãozinho direito, imagina eu cortando pedaços de boi! minha mãe disse que já tinha combinado até quanto eu iria receber e foi então que perguntei:

— Quantos milhares de dinheiro receberei? minha mãe disse:

— Você não receberá dinheiro algum, apenas um quilo da melhor carne por dia trabalhado.

Desmanchei-me em gargalhadas e supliquei a minha mãe que desmanchasse o contrato, pois, estaria disposto a fazer qualquer outra coisa, menos trabalhar por carne, sem ver a cor do dinheiro.

Mamãe insistiu e no outro dia lá eu estava na frente do açougue do senhor Mário esperando o mesmo abrir o estabelecimento do comércio do boi.

O senhor Mário chegou, desejou-me bom dia, entramos no açougue, apresentou-me todos os compartimentos do açougue e o meu primeiro serviço foi aprender a encher linguiça.

Era muito engraçado eu colocando pedaços de carnes e passando por uma máquina e a linguiça saía prontinha do outro lado da máquina. Até que era divertido o meu serviço.

Atendia alguns fregueses, enchia a linguiça e no final do expediente ajudava a fazer uma faxina no açougue. Jamais o senhor Mário permitia que eu cortasse carne, pois, ele tinha medo de eu acidentar-me. Ao fechar o açougue o bondoso Português cortava vários bifes de primeira qualidade, embrulhava e dava para eu levar para minha casa.

Os dias foram passando, as linguiças foram sendo feitas, o açougue andava muito limpo, até que num determinado dia resolvi que não queria mais receber os meus proventos em carne e sim em dinheiro, pois, eu tinha arranjado uma namoradinha e quando íamos ao parque de diversão não podia comprar nada, pois, não aceitavam carne para pagamento. O senhor Mário falou: não há problemas, todos os dias dou um dinheiro para você, só que as carnes você não levará mais.

Fiquei muito feliz e contei a quebra de contrato para minha mãe que não gostou da troca, pois, assim que eu dava o dinheiro recebido para ela, eu tinha que voltar ao açougue ou ir ao mercadinho para comprar “mistura”.

Trabalhei muito tempo com o senhor Mário no açougue, ora recebendo o meu salário em dinheiro, ora recebendo em carne, até que ele vendeu o açougue e começou a construir uma linda casa e lá fui eu trabalhar de servente na construção da linda casa do Sr.Mário.

O senhor Mário era um ótimo patrão, um amigo de todos e gostava muito da nossa família. Bela recordação!

domingo, 27 de setembro de 2020

CURSO DE ADMISSÃO

 Em mil novecentos e sessenta e seis conclui o curso primário e para entrar no ginásio era necessário fazer uma preparação que se chamava admissão. Eu tinha apenas onze anos e morava em um bairro chamado Ponte Rasa, Zona Leste da cidade de São Paulo.

Eu era um ótimo aluno durante o curso primário, o que levou meu pai a crer que eu poderia ser um excelente aluno durante os anos posteriores. Meu pai decidiu matricular-me em um curso de admissão existente no bairro Ermelino Matarazzo. Eu estudava no período da tarde e no começo do curso assistia as aulas regularmente, mas com o passar dos dias fiz algumas “amizades” na sala de aula com alguns alunos de caráter duvidoso e eles convidaram-me para “cabular” as aulas e irmos nadar em uma grande lagoa chamada cisper.

Inicialmente recusei o convite, pois, sabia que meus pais mais cedo ou mais tarde descobririam, mas com o passar dos dias resolvi experimentar a grande aventura, que mais tarde iria arrepender-me pelo resto da minha existência. Eu e mais alguns alunos que não queriam estudar nos encontrávamos a um quarteirão da escola e íamos alegres para a lagoa. Chegando na lagoa entrávamos na água para tomar nosso banho e refrescar-se das tardes quentes e ficávamos brincando de luta livre. Passados as horas, retornávamos para casa e dizia para nossos pais que a aula tinha sido muito interessante, pois, a professora tinha feito uma palestra sobre plantas e não tinha dado nenhuma matéria.

A ingenuidade da minha mãe naquela época não permitia que ela  observasse que eu tinha “cabulado" a aula. O tempo foi passando e às vezes nós cabulávamos as aulas para refrescar-se na lagoa. Um “colega” até pediu para fazer um carimbo de “presença” para poder carimbar nossa carteirinha escolar nos dias da nossa ausência no curso de admissão.

Lá pelo mês de outubro, meu pai começou a ficar muito desconfiado, pois, eram folhas e mais folhas do caderno em branco e resolveu ir até à escola, saber o que estava acontecendo. Acabou descobrindo que eu não ia à escola já fazia um bom tempo; agradeceu o diretor e pediu para o mesmo desligar-me da escola. Chegou em casa meu pai descreveu minuciosamente para minha mãe todo o ocorrido durante aquele período em que eu estava na escola. Após levar uma surra inesquecível com duas varas de marmelo trançadas, aplicada por minha mãe, resolveram aplicar-me um castigo. Colocaram-me com várias senhoras beatas para eu estudar “o catecismo”. Eu rezava dia e noite sem parar, preparando-me para fazer a primeira comunhão e redimir-me do meu pecado em ter cabulado várias aulas do curso de admissão e gasto o suado dinheiro do meu pai.

Foram semanas de rezas sob a supervisão acirrada de uma freira e tinha dias em que eu chorava baixinho por ter que rezar mais de cem pai-nossos e cem ave-marias. Estava definitivamente arrependido, mas o pior ainda estava por vir e após longas horas de orações meu pai anunciou enfaticamente que jamais durante a sua existência iria pagar escola para mim, se eu quisesse estudar teria que manter meus estudos com o suor do meu rosto e disse rispidamente que eu iria começar na manhã seguinte a trabalhar com ele, numa fábrica de consertos de instrumentos musicais.

No primeiro dia de serviço achei muito divertido, pois, tinha que acordar de madrugada, preparar a marmita e sair apressado para pegar o trem na estação de Ermelino Matarazzo. Como eu era muito pequeno, assim que o trem chegava na estação era muita correria para entrar no vagão e lá estava eu no meio de tantos trabalhadores, transpirando e silenciosos, pensando no que iriam enfrentar naquele dia. Ao meio-dia tínhamos que esquentar nossas marmitas numa “espiriteira”, que era uma lata de sardinha com álcool e comer a marmita sem falar absolutamente nada e voltar para lustrar enormes instrumentos de sopro sob uma espessa camada de fuligem. Uma semana foi suficiente para eu contrair uma diarreia que não esqueço até hoje, tive que ir ao hospital e resolveram suspender o meu castigo.

Com apenas doze anos eu já sentia o peso da responsabilidade em ter que arrumar qualquer serviço para pagar o meu novo curso de admissão. Foi alguns dias procurando um serviço e acabei encontrando em uma fabricazinha de cintos no bairro de Artur Alvim, como ajudante geral, fiquei muito feliz, afinal teria como pagar meu curso de admissão. Quando fui contratado deixei bem claro para o Sr.Francisco, o proprietário da fabricazinha, que eu só poderia trabalhar no período da manhã, pois, a tarde eu necessitava estudar, ele não fez nenhuma objeção, apenas iria pagar a metade do salário. Aceitei o emprego e comecei a trabalhar e foram os seis meses mais sofridos da minha vida, pois, tinha que acordar cedo, ir trabalhar, voltar apressado para casa de bicicleta, almoçar e arrumar-me para ir para o novo curso de admissão.

Terminou o ano do novo curso de admissão e fiz uma prova no Ginásio Álvares de Azevedo, em Itaquera e fui aprovado e comecei a fazer o curso ginasial à noite e trabalhava na fábrica de cintos durante o dia. Senti a responsabilidade, aprendi a dar muito valor no meu serviço e comecei a pensar muito, antes de “cabular” a aula para ir ao cinema com as namoradinhas.

Agradeço muito, do fundo do meu coração aquele castigo que meu pai impôs e até hoje serve-me de lição para eu não enganar mais ninguém e dar muito valor nas ajudas alheias, pago com sofrimento e guardado na minha memória até a hora que Deus chamar-me e solicitar a descrição detalhada do ocorrido. Não haverá sofrimento, apenas algumas lágrimas brotarão dos meus olhos e direi: valeu a Pena! Obrigado meu pai, obrigado minha mãe por tornar-me homem desde a mais tenra idade!

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...