quinta-feira, 18 de junho de 2020

PASTEL DE FEIRA

O verdadeiro pastel de feira é o pastel de feira da periferia. Para comer um pastel de feira da periferia existe todo um ritual: há a necessidade, quase que uma obrigação, de ir acompanhado da “patroa”, entenda-se como esposa, companheira, amante ou mesmo a namorada. Mas tem que ir acompanhado(a) para que o prazer da degustação seja a dois.
Pode-se comer o pastel de feira logo quando se chega à feira ou ao terminar as compras, geralmente sempre pechinchando em outras bancas que é pra comer sempre mais um.
Pede-se licença, estaciona-se o carrinho de feira próximo à banca, que dependendo da hora já deve estar lotada de carrinhos. Se der muita sorte pode sentar num dos banquinhos carcomidos, que são reservados para os velhinhos e velhinhas, mas depois do meio-dia a chances são bem remotas de encontrar algum vazio.
Dependendo da periferia, o pessoal está todo uniformizado e consta até o nome da banca. E lá no fundo está um homem com os olhos puxadinhos, denunciando que é oriundo do Oriente, sempre sorridente e jamais desgrudando da escumadeira, sempre apontando aqui e ali para anunciar um freguês mais faminto e/ou apressado.
Em todas as feiras da periferia existem uma ou mais bancas de caldo de cana, a gostosa garapa, que geralmente fica ao lado da banca de pastel. Acredito que deva existir até uma parceria entre as duas bancas, mas até agora ninguém provou isso, então deixamos pra lá e vamos pedir os pastéis.
Entre várias pessoas, ergue-se o dedo indicador e pede-se com um rosto aflito: Um pastel de carne e um de frango com catupiri! Geralmente enquanto o Oriental frita os pastéis pede-se a garapa, que invariavelmente o dono pergunta se quer com limão ao abacaxi. O barulho do motor é ensurdecedor, mas o caldo é delicioso.
Nas manhãs de sábado, na Vila Maria Alta ou em Jacareí ou nas manhãs de domingo em Itaquera dava vontade de pedir “garapa com engove”, tamanha a ressaca do porre da noite anterior.
Quando os pastéis estão fritos jamais esquecer de colocar aquele tradicional vinagrete que pela sua aparência denota um sabor indiscutível e uma fatia de limão acompanha muito bem se for de carne o pastel.
Pastéis comidos e garapas bebidas, pede-se para embrulhar mais alguns pra ir comendo enquanto a “patroa” prepara o almoço de sábado ou domingo, que geralmente são mais demorados. Pode-se também levar a massa do pastel pra fazer alguns para serem comidos com uma boa cerveja gelada à noite.
Saciado, cheio e feliz paga-se e despede-se prometendo voltar na semana seguinte. Novamente pede-se licença para tirar o carrinho de feira e retorna-se para casa empurrando ou puxando o carrinho abarrotado de frutas e hortaliças dependuradas por toda a parte e tomando o maior cuidado para não amassar a “massinha”. Então é só aguardar mais uma semana para comer os tão deliciosos pastéis de feira da periferia.

ENGRAXATE DA PERIFERIA

Todos os dias era um sacrifício danado para conseguir comida para todos, afinal, éramos cinco irmãos e tínhamos uma fome de leão e papai ganhava apenas o suficiente para não passarmos fome. Eu tinha nove anos de idade e resolvi ajudar minha família no orçamento, subitamente tive uma ideia maravilhosa... Iria ser engraxate. Mas como? Não sabia nada sobre a nova atividade e não tinha dinheiro para comprar uma caixa de engraxar, resolvi pedir ajuda para o senhor Heitor, que era um velhinho ex-combatente de guerra que todas as crianças do bairro amavam. Procurei-o e contei-lhe o meu plano de ser engraxate. Ele riu muito e se propôs a me ajudar. Começamos imediatamente a construir minha ferramenta de trabalho, a caixa de engraxar. Após algumas horas, lá estava ela prontinha para ser usada.
Corri pra mostrar para papai e ele perguntou onde eu pretendia engraxar, eu disse que iria engraxar os sapatos de todos os trabalhadores da periferia e iria montar a mesma em frente de casa. Ele meneou a cabeça e sorriu, passou a mão na minha cabeça e pediu-me que fosse me deitar, pois ainda estava escuro e afinal não tinha escova nem graxa para iniciar o meu trabalho. Pedi-lhe alguns trocados e ele imediatamente deu-me algumas moedas para comprar graxa e escova. Rasguei uma calça velha da minha irmãzinha, escondido de mamãe, é claro, e, no outro dia, sob chuva, armei minha caixa de engraxar em frente de casa, fazia parte da instalação um guarda-chuva carcomido pelo tempo e uma velha cadeira.
Esperei o primeiro freguês e as horas foram passando. Eram trabalhadores que iam para seus trabalhos, apressados e com os sapatos cheios de barro, pois a rua em que morávamos não era asfaltada, ninguém parava, não respondiam ao meu bom-dia. Toda a manhã passou e mamãe chamou-me para ir à escola. Foi uma frustração total, mas esperaria outro dia... Foi a semana toda chovendo e eu armando e desarmando a caixa e ninguém parando para engraxar. Sábado amanheceu um dia maravilhoso e enchi-me de alegria e entusiasmo para engraxar meu primeiro para de sapatos. Nada... O Sol já estava se pondo e com ele toda a minha esperança, o coração foi ficando pequenininho, uma profunda tristeza invadiu minha alma... Estava derrotado, não consegui engraxar um único par de calçados. Entrei, coloquei minha caixa de engraxar ao lado do fogão e comecei a folhear um gibi, morrendo de vergonha de não conseguir engraxar absolutamente nada... Eis que batem palmas e minha mãe vai ao portão, um senhor perguntou sobre o menino engraxate e minha mãe chamou-me, e ele disse: Parabéns, garoto! Toda a semana montando e desmontando a caixa! Quantos sapatos você engraxou? Disse-lhe que não tinha engraxado nenhum. Abriu o porta-malas da Brasília e mostrou-me vinte e seis pares de sapatos para serem engraxados. Não me contive e deixei correr algumas lágrimas sobre o meu rosto, de felicidade, de alegria, de persistência. Até hoje me lembro com muita ternura dessa passagem da minha vida.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O VENDEDOR DE PIRULITOS

Sempre que alguém da nossa família ficava gripado, mamãe imediatamente preparava um xarope de Guaco para aliviar nosso sofrimento.
         Num determinado dia minha irmãzinha ficou muito gripada e imediatamente mamãe correu para cozinha para começar a preparar o tal xarope. Adorava observar mamãe cozinhar, nem tanto para aprender e sim para dar umas “beliscadas” nas delicias que sempre ela fazia.
         Mamãe mexia aquele caldo com uma paciência de Buda e eu observando pedi para ela fazer um pirulito com aquele caldo. Imediatamente fiz um canudinho de papel em formato de cone e pedi para ela encher com o melaço,  coloquei um palito de madeira e passados alguns minutos o mesmo já estava pronto para ser chupado.
        Enquanto degustava o pirulito surgiu uma ideia sensacional: Pedi para mamãe fazer alguns pirulitos com o açúcar derretido pois eu iria vender e arrecadar um “dinheirinho” para comprar mistura.
      Mamãe sorriu candidamente e aceitou o convite, mas lembrou-me que eu tinha apenas nove anos e não poderia sair da frente de casa, pois havia algumas pessoas de má índole circulando pelo bairro onde morávamos e poderiam mexer comigo.
        De tanto insistir,  mamãe concordou em fazer os pirulitos, mas enfatizou que deveria ficar próximo de casa.
         Alegremente dirige-me a casa do Sr.Heitor, um senhor idoso que todos nós adorávamos e pedi para ele construir um tabuleiro para colocar os pirulitos. Sorriu amigavelmente,  pegou uma tábua,  uma furadeira e pôs-se a fazer o furos, após algum tempo o tabuleiro já estava pronto. Sr. Heitor colocou uma alça no tabuleiro e enroscou-o no meu pescoço, afagou minha cabeça e desejou-me muita boa sorte no meu novo empreendimento.
         Mensurar a Felicidade de um garoto de nove anos diante da possibilidade de tornar-se um novo milionário vendendo pirulitos era uma grande piada escondida na minha tola cabecinha. Coisa de criança!
        Cheguei em casa eufórico e pedi para mamãe começar a fazer os pirulitos e ela disse que só faria os mesmos a noite e que eu iria vendê-los somente no dia seguinte. Um tanto frustrado acatei mamãe e não via a hora de chegar o momento de preparar os pirulitos.
        A grande panela foi colocada no fogo, em seguida o açúcar e eu xeretando ao redor, até que ela pediu para eu ir fazendo os canudinhos e colocando-os no tabuleiro. Após dispor todos os canudinhos no tabuleiro,  mamãe colocou a calda,  esperou um pouquinho e colocamos os palitos. Pronto os cinquenta pirulitos já estavam prontos, era só aguardar outro dia e sair para vendê-los.
           Quando o  Sol apareceu , coloquei o tabuleiro no pescoço e sai sem fazer nenhum barulho e fiquei em frente de casa oferecendo os pirulitos para os trabalhadores.  Nem olhavam para minha cara,  estavam apressados e seis horas da manhã não era um horário apropriado para chupar pirulito.
           Lá pelas nove horas da manhã entrei em casa sem vender nenhum pirulito e pedi para mamãe se podia dar umas voltas pelo quarteirão e ela concordou, mas insistiu que deveria retornar logo.
           Batia palmas em algumas casas e oferecia os pirulitos, alguns compravam de dó da minha pessoa, outros balançavam a cabeça negativamente e nem me atendiam. De casa em casa consegui vender quase todos os pirulitos e voltei pra casa antes do meio dia com o espírito envolvido num manto de vitória. Tinha conseguido!
          Vendia os pirulitos de segunda-feira à sábado, às vezes sobrava alguns e eu e minhas irmãzinhas chupávamos. Com o lucro das vendas dos pirulitos ajudava mamãe comprar mistura, açúcar e sempre sobrava algum trocado para comprar a Caixinha da Sorte e alguns doces de abóbora que tanto amava.
         Passado algum tempo, mudei de atividade e fui ser Engraxate. Engraxate da Periferia.

FESTA JUNINA

  A missa de domingo terminava e o padre anunciava que iria começar os preparativos para a tradicional quermesse que acontecia no mês de Junho para homenagear os três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro. Nós garotos ficávamos muito feliz, pois enquanto o padre pensava em arrecadar alguns trocados para a paróquia, nós poderíamos participar da festa em toda sua plenitude e se desse sorte até conhecer novas garotas.
     Éramos os primeiros a dar o nome para participar como voluntários na arrumação das barracas de guloseimas. Tudo era uma grande diversão e aproveitávamos nosso encontro para colocar nossas pífias conversas em dia e mais falávamos do que trabalhávamos e constantemente levávamos "um pito" ( uma advertência) do padre que pedia mais empenho, mais seriedade com relação ao serviço, pois o mesmo lembrava-nos quanto ao prazo estipulado para o início da quermesse.
      às vezes parávamos de executar um determinado tipo de serviço para conversar com alguma menina conhecida que passava em frente da igreja vindo da feira com a sacola cheia de frutas e verduras e novamente éramos presenteados com uma enérgica bronca do padre, sempre vigilante e presente, entre um beijinho no rosto da menina e um tchauzinho sempre de olho no rosto enfurecido do padre, voltávamos ao serviço, sempre sorridentes.
       No segundo final de semana do mês todas as barracas já estavam montadas e supervisionadas pelo padre que fazia questão de agradecer a todos e esquecendo nossas paqueras.
       O locutor oficial da quermesse era o meu amigo Israel que embora tivesse um gosto musical duvidoso e de muito mal gosto era muito querido e conhecido de todos. Nessa época eu trabalhava numa fábrica de cintos no bairro de Artur Alvim e cursava o primeiro ano do ginásio no Álvares de Azevedo em Itaquera, à noite.Todos os dias meu amigo Israel ia levar uma marmita no almoço que era preparada com muito esmero por mamãe. Dividia meu insignificante salário com o meu amigo Israel e mamãe e o que sobrava guardava para ir à quermesse nos finais de semana.
        No primeiro dia da quermesse eu fazia questão de ir com minha melhor roupa e nesse dia era um dia todo especial. Vestia minha calça boca de sino, que era o estilo da época, era uma calça azul escuro com listras brancas e cintura alta até o estômago, camisa de seda branca, mangas compridas, bem larga e que tinha custado quase um salário mensal. Lustrava os sapatos que tinha um salto enorme chamado de "carrapeta" e colocava um cinto fabricado por mim e tinha uma fivela enorme. Pronto, sentia-me um verdadeiro "toureiro", repartia os cabelos cumpridos ao meio, colocava um perfume comprado na lojinha da dona Matilde e saia erecto em direção a tão aguardada quermesse da igreja.
        Chegava na quermesse e era recebido com alguns assobios dos amigos Israel e Luisão, que eram irmãos, chamando-me de "lindo!, lindo!"Ficava envergonhado e meu rosto ficava mais vermelho do que já era, mas não importava-me e ia em direção a eles pedir para tocar uma música que eu gostava muito, chamada Rock rol lo lo by, cantada por B.J.Thomas, era sucesso na época e todos gostavam. Lá pelas oito da noite a quermesse já tinha pessoas suficiente para iniciar o tradicional bingo e sempre participávamos pagando um insignificante quantia em dinheiro e às vezes ganharmos alguns "bebelôs"de argila que eu trocava por bolinhos caipiras e quentões.Existia o "Correio Elegante" que era um bilhetinho que recebíamos de alguma paquerinha enaltecendo nosso trajar ou nossa obscura beleza de adolescente. Não só recebíamos como mandávamos também para as meninas mais belas da quermesse e nem sempre éramos correspondidos.Mas tudo era festa e nada do Mundo pagava o encanto daquele momento único e maravilhoso. E subitamente éramos interpelados por um grupo de meninas bonitas e falantes, agarrando-nos pelo braço e dizendo que estávamos presos. Lá estávamos dentro de uma cadeia feita de bambu que eu ajudara a construir e claro que  não apresentava resistência alguma diante de braços tão meigos e fazíamos questão de ficarmos presos e com um olhar de piedade pedir para as meninas libertar-nos que elas ganhariam um beijo. às vezes éramos atendidos, mas às vezes ficávamos vários minutos no cárcere,humilde e escutando a voz rouca do amigo Israel no alto-falante pedindo que alguém tivesse piedade e fosse soltar-nos. Aquilo doía na alma e assim que saia da prisão ia até o meu amigo pedir explicações e ele sorria largamente e oferecia-me outra música, dessa vez..Roberto Carlos. Anunciava os bolinhos caipiras, os quentões, a maçã do Amor, a barraca da linguiça e outras e convocavam-nos para assistir a apresentação da quadrilha que era composta de várias crianças do bairro, trajando como caipirinhas. Era divertidíssimo e muito engraçado.às 23 horas anunciava-se o final da quermesse e todos iam retirando-se  e nós ficávamos para ajudar as senhoras a recolher panelas, fogões e outros utensílios.Desligava-se o som, fechava-se as portas do salão paroquial e era hora e voltar para casa, transpirando muita felicidade e alegria e aguardar o próximo final de semana para participar da quermesse da Igreja da Cidade A.E.Carvalho.
        

segunda-feira, 29 de abril de 2019

BOLO DE NATAL


Papai adorava ler Karl Marx e mamãe encantava-se com a leitura de Allan Kardec. Eu, aos oito anos de idade, sem entender absolutamente nada do conteúdo daqueles “estranhos” livros, relia minha cartilha escolar do curso primário, chamada Caminho Suave e alguns gibis do Zorro e do Fantasma que eram sutilmente  escondidos entre as páginas da cartilha para não serem vistos por mamãe e evitar uma boa surra de vara de marmelo.

    Na véspera do Natal de 1.963, papai saiu de casa, no pacato bairro Parada Inglesa-SP para participar de uma importante reunião no Sindicato de Brinquedos e Instrumentos Musicais, que ficava na Av.Celso Garcia, no Brás-Sp e prometeu a mamãe que voltaria para a confraternização natalina.

    No início da noite mamãe começou a fazer um bolo de morango e quando terminou, colocou o bolo cuidadosamente sobre a mesa e disse enfaticamente que só comeríamos o bolo quando papai chegasse.

    Desolado, sentei-me diante do bolo e com as mãos no queixo e os cotovelos sobre a mesa, comecei a sussurrar uma oração para Jesus pedindo o retorno de papai o mais breve possível.

    O repetitivo “tic-tac” do relógio cuco que ficava na cozinha e alguns estampidos de fogos que iluminavam o céu, anunciavam a proximidade do dia do nascimento de Jesus e deixava-me inquieto e entre uma olhada de soslaio para mamãe e outra para a porta da cozinha para ver se papai estava chegando, colocava o dedo indicador no bolo e levava-o rapidamente até a boca.

    Faltando alguns minutos para meia-noite, papai chegou com um embrulho embaixo do braço e eu iluminei toda a cozinha com um inefável sorriso de Felicidade. Iria comer o bolo!

    Papai deu-me o embrulho acompanhado de um carinhoso beijo na testa e quando eu o abri, meus olhos marejaram diante de uma linda bola de capotão número cinco com um delicioso cheiro de couro cru. Retribuí o presente com um forte abraço e vários beijos no seu rosto.

    Posicionamo-nos ao redor da mesa e demos as mãos e mamãe iniciou uma “interminável” prece agradecendo a tudo e a todos e quando terminou, abraçamo-nos desejando Feliz Natal.

     O bolo de morango com vários furinhos produzidos pelos meus ágeis dedinhos finalmente foi cortado e servido a todos.
     Adormeci num sofá velho, na varanda, todo lambuzado de bolo, abraçado a bola de capotão, escutando o suave “tic-tac” do relógio cuco e o barulho de alguns pingos de chuva que começara a cair... Era Natal! 

domingo, 28 de abril de 2019

A ARQUITETA


 E desde que a pequena Caroline foi abandona pelos pais que a deixaram com a avó chamada Alice o grande sofrimento fez-se presente em todos os momentos da menina Carol que passou a viver sempre ao lado da querida e protetora avó.
        No pequeno quartinho alugado nos fundos de um grande cortiço, o exíguo dinheiro de uma pensão da avó Alice, uma boneca e duas camas separavam o grande sonho de Carol e sua avó: Morar em uma residência digna e sempre a garotinha de apenas seis anos dizia:
- Olha vó Alice, quando eu crescer, vou ser uma construtora de casas e construirei uma linda casa pra gente morar!
Vó Alice passava as mãos pelos lindos cabelos negros da netinha Carol e dizia:
- Dorme minha querida e sonha, porque sonhar é necessário e faz bem pra alma.
     No outro dia lá estava a vó Alice arrumando, limpando uma residência para ganhar o sustento para amparar as necessidades do cotidiano, e como diarista sempre levava a pequena Carol que ficava a admirar os pequenos livros comprados em sebos da periferia e quando abria uma página do livro e aparecia uma casa muito bonita ela saia correndo e ia mostrar para a vó Alice e dizia:
- Olha Vó, nossa casa!
Vovó Alice balançava a cabeça, sorria e dizia:
- Linda muito linda, começa a ler outra história minha querida, esta casa é muito luxuosa pra ser da gente!
- Carol encolhia-se num cantinho da sala que estava sendo limpa e pensava que um dia seria muito inteligente para construir uma linda casa como aquela que estava no livro.
        O tempo foi passando e Carol começou a estudar em uma escola do bairro e sempre seu maior interesse foi desenhar casas e sempre que a professora perguntava o porquê tanto interesse por casas, Carol respondia:
- Porque não temos casa para morar e vou construir uma casa para minha avó Alice!
        O ensino fundamental foi completado com grande êxito e os elogios dos professores sempre enaltecendo a grande facilidade em desenhos da pequena Carol deixavam vó Alice muito feliz.
        O Ensino médio foi totalmente estudado em uma escola Federal na área de Edificações e finalmente após grandes projetos e profundo estudo começou a trabalhar em uma grande Construtora da cidade de São Paulo.
        A vida de cursinho à noite após o trabalho visando fazer uma excelente Faculdade de Arquitetura fez despertar o interesse pela aquela inteligente menina do dono da Construtora que fez uma proposta para Carol.
- Olha garota, por esta construtora já passaram vários estudantes de arquitetura, edificações, engenheiros e peões, mas sua obstinação nos surpreende muito e a melhor coisa que temos que fazer é financiar os seus estudos e a partir de amanhã você não necessita mais vir trabalhar, está despedida!
Os olhos de Carol lacrimejaram e quando ela foi saindo entre soluços o dono da Construtora pediu que ela não ficasse triste, pois a empresa ajudaria naquilo que fosse necessário. Uma bolsa de estudo até o término da Faculdade de Arquitetura e não haveria mais a necessidade de trabalhar todos os dias, apenas quando necessitassem de algum apoio.
        Carol prestou o vestibular e passou em primeiro lugar e começou o curso em uma Faculdade de Arquitetura de primeira linha na cidade de São Paulo e durante os anos que foram passando conheceu Paulo, também estudante de Arquitetura e oriundo de uma família muito rica da cidade de São Paulo e entre as maquetes construídas sempre sobravam tempo para uma boa conversa entre os dois.
        Ao término do terceiro ano do curso já estavam namorando e arquitetando grandes e mirabolantes planos para o futuro e foi quando Paulo fez um pedido para Carol:
- Carol, que tal ao final do nosso curso ir morar nos Estados Unidos, em Los Angeles?
Carol riu e disse: Sim poderemos ir, após casarmos e construirmos uma linda casa para minha vó Alice!
O tempo foi passando e Carol e Paulo se formaram com grande pompa, grandes méritos e vários elogios dos grandes mestres de arquitetura por terem sidos maravilhosos alunos que tanto ajudaram em grandes projetos de pequenas moradias populares.
        O casamento entre Carol e Paulo aconteceu e o grande sonho de Carol começou a ser construída em um bairro da cidade de São Paulo, uma linda casa para avó Alice e após a casa estar totalmente construída e entregue a querida vó Alice a mesma disse:
- Olha Carol, muito obrigado pela linda casa construída, mas meu maior sonho mesmo é passar meus últimos dias ao seu lado em qualquer parte deste planeta, pois eu te amo muito!
Partiram para Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos e montaram uma enorme construtora de piscinas em Beverly Hills, hoje Carol deve ter seus quarenta anos e Paulo uns trinta e sete anos, apenas um filhinho chamado John e a linda e caridosa avó Alice seus oitenta e sete anos que todas as manhãs sentam-se em frente da grande mansão em que moram e diz:
- Carol, onde está aquele livrinho que comprei pra você num sebo, para eu mostrar para o John?

Entre abraços e beijos são servidos pelos empregados da mansão enquanto aguardam os empregados da grande construtora chegarem para mais um dia de trabalho.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

SONHO NAUFRAGADO


Aos dezessete anos de idade eu não conhecia o mar, nunca tinha ido a uma praia, somente conhecia lagoas, piscinas e rios, mas o mar jamais tinha visto de perto, apenas pela velha televisão que tínhamos em casa em preto e branco, marca videobel.
Aos sábados eu não trabalhava e a tarde adorava assistir filmes de aventuras sobre o mar, povoados distantes perdidos no mundo e foi em um desses sábados que assistindo uma reportagem sobre marinheiros embarcando em um grande navio que me despertou uma vontade enorme de ser marinheiro.
Assim que terminou a reportagem dei um pulo enorme da poltrona e gritei bem alto:
- Já sei, vou ser marinheiro e viajar pelo mundo e voltarei somente daqui a alguns anos para este pedaço de chão!
Minha mãe e meu pai arregalaram os olhos de espanto, caminharam lentamente até mim e disseram:
Ora garoto, sabemos que você tem um espírito aventureiro, mas querer entrar na marinha de guerra já é demais, vai descansar um pouco quem sabe você muda de ideia.
A mente borbulhava em pensamentos em querer ser marinheiro a qualquer custo e assim ao anoitecer fui dormir e sonhei a noite toda que eu estava embarcando em um grande navio de guerra para um local ignorado. Eram centenas de grumetes todos uniformizados de branco embarcando no porto e despedindo-se dos familiares que abanavam lenços entre lágrimas.
No outro dia, durante o café matinal que fazíamos aos domingos reunidos em família comuniquei que iria alistar-me na marinha de guerra quando chegasse a data específica do começo do alistamento.
Procurei saber se eu podia alistar-me na cidade de São Paulo e fiquei sabendo que poderia alistar-me somente na cidade de Santos e assim os dias foram passando e eis que o dia do começo do alistamento militar chegou e eu já estava com todos os documentos preparados para poder embarcar na velha rodoviária de São Paulo que naquela época ficava na estação da Luz, no centro velho de São Paulo.
Anotei o nome do quartel, o endereço, datilografei enfiei no bolso da velha calça Jeans e desci a serra com um sentimento de vitória em poder sentir que meus sonhos começavam a levantar âncoras.
 Apresentei-me no quartel e entreguei todos os documentos a um oficial que pediu para eu aguardar que iriamos fazer uma prova para poder aferir o nosso conhecimento e em seguida teríamos que voltar para fazer o exame médico em outro dia.
Entre idas e vindas de São Paulo para Santos foram umas quatro viagens após a primeira viagem eu já não pagava mais a passagem de ônibus, apenas mostrava o alistamento militar e seguia viagem gratuitamente.
As medidas da farda foram tiradas, os números dos sapatos anotados e estava tudo certo para poder engajar na marinha e foi quando fui informado que iria servir a marinha em uma cidade chamada Ladário como grumete no estado do Mato Grosso do Sul.
Fiquei super espantado, pois pensava que serviria em Santos ou Rio de Janeiro e fui falar com o comandante e ele deu um sorriso debochado e disse: Ora soldado, aqui você apenas obedece e já está definido para onde você vai ou prefere ir para o exército?
Um pouco abalado pelas circunstâncias disse que gostaria de ir para o exército e ele pediu para eu esperar que faria a minha transferência. Aguardei alguns minutos e foi quando o comandante apareceu com uma folha pedindo para eu apresentar-me ao exército que ficava no Parque Dom Pedro II. Passados alguns dias apresentei-me no exército e deram-me um atestado de excesso de contingente e meu sonho tinha acabado de naufragar naquele instante.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...