segunda-feira, 22 de abril de 2019

TIO AGOSTINHO



Toda criança gostaria de ter um tio como o tio Agostinho. Desde criança, quando tio Agostinho nos visitava nossa casa transformava-se numa grande festa, tamanho era o carinho que tínhamos por ele.
         Alegre, brincalhão, sempre de bem com a vida, participativo e adorava todas as crianças, nós amávamos tio Agostinho, principalmente quando ele nos protegia das surras de vara de marmelo que mamãe sempre aplicava na gente. Mamãe pedia para ele sair da frente e ele não saia e levava várias varadas de marmelo por nós e ria alto, zombando com tudo e com todos. Que maravilha aquele momento! Nós crianças adorávamos aquele momento que sempre terminava com um comentário de mamãe dizendo: Você acaba “estragando” meu castigo e ele sempre respondia: Ah, Thereza! Deixa pra lá eles ainda são crianças! Quando eu for embora você pode aplicar a surra, agora não. Faz um cafezinho pra gente comemorar a surra frustrada! Mamãe caia na gargalhada e ia preparar o tal do cafezinho.  Nós olhávamos com tanta admiração para tio Agostinho e gostaríamos que ele ficasse morando conosco eternamente, mas tio Agostinho era caminhoneiro e após várias brincadeiras, contar várias piadas e risos ecoados pela casa beijava-nos e dirigia-se a boleia do caminhão para pegar a estrada sem destino, levando apenas a solidão e nossos gritos e risadas na sua mente pela longa estrada.
         Nós fomos crescendo e nossa admiração por tio Agostinho acompanhava nosso crescimento, passamos da fase de criança para adolescente e alguns momentos na minha vida são inesquecíveis e os levarei comigo e contarei a todos onde estiver com um orgulho danado.
         Nunca tinha ido ao cinema e quando completei doze anos tio Agostinho prometeu que iria levar-me ao cinema, fiquei eufórico e lá fomos nós assistir meu primeiro filme chamado “De caniço e Samburá” com Jerry Lewis no cine Júpiter no bairro da Penha, em São Paulo. Saí do cinema encantado, vocês não imaginam quanta alegria invadiu minha alma naquele dia.
          Minha primeira bicicleta foi um presente por ter passado de ano na escola, lembro-me perfeitamente que eu estava jogando bolinha de gude com alguns moleques na rua, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo e lá aparece tio Agostinho com uma linda bicicleta preta, aro 28. Não me contive de felicidade, joguei todas as bolinhas para o alto, dei um apertado abraço no tio e saí pedalando por baixo do quadro, pois eu não conseguia atravessar as raquíticas pernas por cima do quadro.
        Pedi para fazer uma viagem para qualquer lugar em um imponente caminhão ao qual ele estava dirigindo e saímos de São Paulo à Belo Horizonte, comemos um frango assado por lá, fizemos algumas paradas e nos divertimos muitíssimo, com a paisagem, a estrada e o clima da viagem.
         Foram várias passagens e histórias ao lado do tio Agostinho, pois se fosse contá-las ficaria muitas horas descrevendo tanto carinho e alegria em estar ao seu lado.
        Valeu a pena passar por esta vida, ser criança, adolescente e ter um tio tão maravilhoso como tio Agostinho. Obrigado tio Agostinho. De coração!

PAQUERAS NA PRAÇA DA MATRIZ


 E quando eu cheguei em Jacareí, interior da cidade de São Paulo no início da década de 1970, fiquei encantado em saber que existia uma praça onde os jovens podiam paquerar livremente as lindas garotas existentes naquela época na aconchegante e linda cidade.
         Naquela época eu tinha dezessete anos e algumas meninas que participavam das alegres partidas de ping-pong que aconteciam no quintal da casa da minha tia achavam que eu era “bonito” embora eu tinha lá as minhas dúvidas quando encarava o espelho e via o meu rosto repleto de espinhas durante os demorados banhos dos finais de semana.
         Aos sábados quando eu retornava da “Prainha”, um aprazível local a beira do despoluído rio Paraíba onde eu ia ler os grandes clássicos da literatura Brasileira solicitado pelo mestre de Língua Portuguesa, entrava no meu quarto que dividia com dois primos e dirigia até o nosso guarda-roupa comunitário para escolher as roupas que usaria durante as paqueras no largo da matriz.
         Naquela época era “moda” usarmos calças boca de “sino”, um tipo de calças que cobria totalmente nossos sapatos devido a dimensão exagerada de pano, camisas “gola olímpica”, estilo perfeito para tapar algumas marcas existentes em nossos pescoços após avassaladores namoros e frenéticos beijos nas bocas de lindas meninas, sapatos com enormes saltos que chamávamos carinhosamente de “carrapeta” e cintos com enormes fivelas estampadas algum personagem da época, meias e cuecas eram deixadas em segundo plano, pois as mesmas não seriam vistas pelo público alvo, então não havia a necessidade de tanto esmero com estas peças.
         A escolha das roupas que seriam usadas durante a nossa paquera exigia grande concentração e uma boa dose de vasta imaginação.
         As roupas eram delicadamente retiradas dos cabides e colocadas sobre a cama, um olhar apreensivo, a mão sob o queixo e uma expressão de dúvida franziam nosso olhar.
         Os pensamentos levavam-me ao meio da praça e via-me com uma elegante calças azul-escuro listrada de branco, uma linda camiseta branca “gola olímpica” bordada com o meu nome completo na parte frontal para tornar-se facilmente identificável diante das meninas, sapatos lustrosos e eu diante da linda menina dos olhos azuis e um corpo escultural enaltecendo minhas roupas, meu perfume de terceira categoria a meu rosto espinhento.
         Abandonava as minhas divagações, abria os olhos e pronto,  já estava decidido e escolhida a roupa com a qual eu iria ao encontro da minha princesa da praça. Guardava todas as outras roupas e deixava sobre a cama somente aquela qual seria usada.
         Após longos minutos sonhando acordado, andava vagarosamente até o banheiro cantarolando alegremente uma música de Chico Buarque de Holanda ou do Caetano Veloso, adorava aquela que dizia: “Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”, para um demorado banho.
         A minha ablução só era interrompida quando minha tia Nina batia na porta do banheiro e dizia sorrindo:
- Oh! Luiz, o banho só lava o corpo e não a alma repleta de felicidade!
Soltava uma enorme gargalhada, fechava a torneira e saia enrolado em uma confortável toalha estampada com a foto do Pateta e entrava sorrateiramente no meu quarto.
         Passados alguns minutos lá estava eu diante do espelho especulando o meu visual e tentando tirar alguma espinha mais atrevida que instalara no meu rosto nos últimos dias e passados alguns minutos eu já estava totalmente preparado e muito feliz com minha aparência.
         Sentava-me na minha cama e ficava folheando uma revista chamada “POP” enquanto aguarda meu primo tomar banho e assim que ele estava arrumado caminhávamos até o portão e enquanto fechávamos o portão eu tecia algum comentário animador:
- Não adianta a gente se arrumar tanto, com nossa melhor roupa, com o nosso “melhor” perfume de terceira categoria se não temos o essencial: Um bom “papo”, diálogo e um poder de persuasão aguçado!
- Pois é Luiz, você está repleto de razão, mas mesmo assim vale a pena a nós tentarmos, quem sabe nós encontramos uma linda Cinderela ignorante, bem mais tolinha que nós, aí sim estamos feitos! Ríamos do diálogo e saíamos apressados com destino a praça.
         Chegávamos na praça e nossos olhares miravam em todas as direções a procura da nossa princesa encantada e quando avistávamos alguma linda garota, lentamente curvávamos diante do monumento, passávamos a língua entre os lábios e reverenciávamos a nobre dama sempre enaltecendo toda a beleza existente naquele corpo.
         Algumas meninas eram simpáticas e educadas e agradeciam nossas pífias cantadas, mas a maioria nem olhavam para nossos rostos e passavam olhando para o outro lado da praça o que nos irritava muito, grandes e sublimes palavrões eram tartamudeados entre uma ou mais mordidas nos lábios.
         As meninas circulavam pela praça no sentido horário e os meninos giravam no sentido anti-horário e assim ficava muito fácil avistarmos tudo e todos durante nossa paquera na praça.
         Alguns alto-falantes eram colocados em alguns pontos estratégicos na praça e os mesmos transmitiam lindas músicas daquela época e só eram interrompidos para anunciar um casamento, algum evento importante e falecimento de pessoas influentes da cidade e seguia tocando a música e nós andando e andando pela praça e nada de achar nossa musa encantada.
         Era muito engraçado quando eu e meu primo ficávamos encantados com alguma pequena, aí fazíamos uma estranha e engraçada aposta para ver quem iria abordar a menina primeiro e quem perdesse era obrigado a “plantar uma bananeira” em plena praça, ou seja, colocar a cabeça no solo e levantar os dois pés para o alto e ficar pelo menos uns três minutos naquela posição.
         Risos nervosos e lá vinha a garota mais linda da cidade e entre um cutucão e outro parávamos na frente da menina e pedíamos carinhosamente se poderia falar um pouquinho conosco e lembro-me que quantas vezes “sacaneava” com o meu primo, pois pedia a palavra e a abordagem da vez e contava todo a nossa aposta para a menina e a mesma aceitava somente para ver o meu primo plantar a tal da bananeira e após colocar os pés no chão e ver que estávamos sorrindo a menina despedia-se e ia embora dizendo que éramos “loucos”.
         O tempo ia passando e às vezes conseguíamos alguma paquera e imediatamente convidávamos a menina para irmos a uma pequena e mal iluminada pastelaria perto da praça para comer alguns pastéis e beber Tubaína.
         Algumas meninas aceitavam nosso humilde e hilário convite, mas a maioria nos abandonavam em plena praça pedindo para convidar nossa querida mãe para tal convite. Ríamos muito alto da situação e continuávamos a procura de outra garota que aceitasse convite tão “pobre”.
         Chegava a hora de retornar para nossa residência, pois, já passava das onze horas da noite e as poucas meninas que ainda insistiam em ficar na praça conseguiam ser mais feias do que nós.
         Recolhíamos nossas emoções e saíamos da praça muito feliz em fazer-se presente e até conseguir abordar algumas meninas porém sem sucesso e assim seguíamos de braços dados com nossa querida e inseparável amiga “Esperança” que jamais nos abandonava em instante algum.
         Deitávamos em nossas camas e ficávamos lembrando dos maravilhosos e divertidos momentos na Praça e entre um sorriso e outro adormecíamos e sonhávamos com aquela linda menina dos olhos azuis que muito tempo mais tarde tornar-se-ia nossa querida namorada.

MISSA DO GALO


Já fazia algum tempo em que eu estava morando naquela pacata cidade do interior e tudo naquela tranquila cidade agradava-me, desde os gestos simples e cordial das pessoas que mesmo não me conhecendo sempre ao passar por mim cumprimentavam-me e tudo aquilo era muito estranho, pois tinha vindo de uma metrópole onde ninguém olhava para cara de ninguém.
      O tempo foi passando e meu único objetivo era estudar para formar-me engenheiro e quantas garotas pediam para namorar comigo e eu educadamente dizia: Não obrigado, no momento tenho que estudar e lá ia seguindo minha “vidinha”.
      Trabalhava durante o dia numa construtora e a noite ia para escola Técnica concluir o curso técnico e preparar para entrar numa faculdade.
      Todos os dias eu ia almoçar em casa e sempre me acompanhava um colega chamado Valdir que trabalhava junto comigo e sempre que passávamos por uma rua avistávamos uma linda garota que sempre estava a varrer o enorme quintal de terra e sempre acenava para nós e foi num determinado dia que meu colega Valdir disse:
- Olha Luiz, não sei se você já observou, mas aquela garota está paquerando você! E eu dizia para o colega: Ora Valdir e eu sou lá de chamar atenção de alguém, aperta o passo que estamos atrasados para o almoço e assim seguíamos apressadamente para o encontro da nossa refeição, sempre contando várias piadas e rindo do cotidiano.
      Na segunda quinzena do mês de dezembro de 1975 tudo era festa, pois nossa juventude aliada ao bom desempenho nos estudos e no trabalho estava em harmonia e quando num determinado dia eu estava indo trabalhar após o almoço vejo aquela linda garota fazer um sinal para eu esperar que ela gostaria de falar comigo.
      Parei em frente da casa daquela linda menina e fiquei aguardando ela caminhar vagarosamente ao meu encontro e quando chegou perto pude perceber toda a beleza que a mesma tinha: Uns olhos cor de mel e um corpo de bailarina e trajando um lindo vestido azul chegou bem pertinho e perguntou meu nome e eu imediatamente disse tartamudeando meu nome completo e fiquei pensando: “Caramba, será que meu presente de Papai Noel chegou adiantado?”
      Apresentamo-nos e marquei de ir buscá-la na escola após as aulas do período noturno. Naquela tarde trabalhei encantado diante de tanta beleza e fiquei ensaiando mentalmente o falaria para aquela linda garota quando nos encontrássemos e decidi pedi-la em namoro e tentar conciliar o namoro com os estudos e o trabalho.
      O encontro aconteceu e entre alguns beijinhos passamos a fazer várias perguntas sobre nós e ela ficou admirada e encantada com minha força de vontade e o grande objetivo em formar-me engenheiro e perguntava-me constantemente o porquê de não ficar morando na cidade de São Paulo e eu dizia que estava disposto a esquecer da grande agitação da metrópole em busca do meu sonho em estudar muito e voltar para Sampa somente depois de formado.
      Durante nossa conversa ela perguntou minha religião e eu disse que era católico e foi então que ela fez um convite para assistirmos a missa do galo na igreja da matriz junto com ela e concordei rapidamente e marcamos o encontro para irmos à igreja e nos encontrar a meia noite do dia 24 de dezembro na porta da igreja.
      Assim que cheguei à porta da igreja que já estava lotada de fieis fiquei alguns minutos tentando localizá-la na porta da igreja e eis que senti duas mãos tampando meus olhos e perguntando para eu adivinhar quem era e quando as delicadas mãos foram retiradas da minha visão pude ver a mulher mais linda que meus olhos já tinham visto neste planeta: Trajava um lindo vestido totalmente branco ornamentado com alguns botões cor de ouro, uma sandália prata e um sorriso encantador que iluminava toda a praça.
      Assistimos a missa do galo do lado de fora da igreja e foi totalmente celebrada em latim e a cada amem que eu escutava do padre erguia os olhos para o céu para agradecer meu lindo presente: Aquela linda mulher que tornar-se-ia minha esposa após dois anos daquele encontro na missa do galo.

O PODER DAS PALAVRAS











Entrei na lanchonete e sentei-me em um banco em frente a um enorme balcão repleto de lindas meninas pré-universitárias. Levantei a mão e imediatamente o atendente veio ver o que eu queria e eu disse:
- Quero um lanche de pernil, uma cerveja bem gelada e se sobrar algum tempinho pede para aquela linda morena vir falar comigo!
O atendente riu e saiu apressado para preparar o meu pedido e eu fiquei esperando pacientemente com os olhos vidrados naquela linda menina toda vestida de branco, cabelos longos e pretos, um corpo escultural e uns olhos verdes maravilhosos.
O atendente chegou com meu pedido e eu imediatamente disse a ele que o pedido estava incompleto e ele sorriu e saiu sem dizer nada.
          Todos os dias eu passava naquela lanchonete e sempre encontrava a linda garota dos olhos verdes que já tinha notado meu interesse por ela através dos meus olhares diretos e freqüentes piscadas. Às vezes ela esboçava algum sorriso e virava o rosto sempre passando as mãos pelos lindos cabelos.
         Numa sexta-feira a lanchonete estava repleta de lindas garotas e lá estava minha musa sentada no mesmo banquinho de sempre e resolvi arriscar todo o meu insignificante poder de persuasão e além da cerveja pedi ao atendente uma boa dose de conhaque para animar meus ânimos e criar coragem suficiente para abordar aquela oitava maravilha do Mundo. Após ingerir a dose de conhaque, levantei-me discretamente e dirigi-me calmamente até a linda garota e pedi gentilmente se podia conhecê-la e quando já estava esperando um surpreendente e fatídico “Não” ela disse “Sim”. Quase tive um enfarto e minha garganta secou e engasguei e consegui com muito esforço apresentar-me e dizer que estuda..... e ela imediatamente disse:
- Você faz Medicina?  Fiquei vermelho e perguntei a ela como tinha adivinhado e ela apontou uma linda jaqueta branca que eu estava usando e tinha emprestado do meu amigo Takeo que fazia Medicina na USP.
Rapidamente disse que sim e ela disse:
- Que legal eu também quero ser médica, estou estudando muito no cursinho para prestar o Vestibular para Santa Casa. Ela perguntou-me onde eu estava indo e eu disse que iria estudar na casa de um amigo da Faculdade, foi então que ela disse:
- Minhas aulas terminam às 23 horas, você não quer passar aqui no cursinho para a gente se conhecer melhor?
“Já tinha mentido sobre o que eu fazia e resolvi sustentar a “mentira” para conseguir namorar aquele “monumento” e pensava:” Caramba, a menina além de linda ainda é inteligente! Vou ficar milionário e nunca mais serei humilhado pelo meu colega Israel em falar que eu só conseguia namorar com garotas feias.
          Cabulei as aulas do curso Colegial e fiquei sentado numa praça pensando profundamente o quê iria dizer aquela linda garota, fazia um verdadeiro teatro mental.
          Faltando alguns minutos para as 23 horas lá estava eu esperando a garota descer os degraus do cursinho e finalmente ela apareceu no topo da escada sorridente e enviando-me um beijinho entre as colegas que desciam discutindo os assuntos abordados na sala de aula.
          A garota chegou e abraçou minha cintura e deu-me um carinhoso beijinho no meu rosto e falou:
- Pronto, aqui estou, você poderia levar-me até minha casa?
A resposta demorou a sair e disse imediatamente que sim e seguimos pelas escuras ruas do bairro trocando informações pessoais, até o momento que ela começou a fazer várias perguntas sobre o curso de Medicina e eu não sabia responder e resolvi falar a verdade e disse:
- Olha querida, sou apenas um pobre garoto da periferia e estudante do curso colegial e esta jaqueta que estou vestindo é de um amigo que realmente faz Medicina na USP... mas....Esperei alguns segundos e já estava preparado para o tradicional pontapé no traseiro quando surpreendentemente ela disse:
- Sabe Luiz, adorei sua “cantada” e até que você saiu-se muito bem neste seu maravilhoso teatro da mentira, ainda bem que você redimiu-se e admitiu sua ignorância. E riu mostrando uns dentes alvos e brilhantes, mas mesmo assim gostaria de namorar você!
          Com as mãos trêmulas e suadas e morrendo de vergonha abracei-a e dei um “saboroso” beijo nos seus lábios carnudos.
Despedimo-nos e prometi que na outra semana a gente se encontrava, pois assim que saísse da aula passaria no cursinho e levaria ela para casa.
          Os minutos, os dias foram passando-se e eu consegui apaixonar-me perdidamente pela linda garota até que num determinado dia ela pediu que fosse buscá-la mais cedo que tinha algo muito importante para falar comigo. Já estava preparado, daquele dia não passaria, iria acontecer o fim do nosso relacionamento e quando nos encontramos as palavras foram bem claras:
- Olha Luiz, você é um “cara” muito lindo, mas não há como continuarmos a namorar, pois existe um abismo cultural muito grande entre nós e fica a dica: Procure estudar e quem sabe daqui uns 10 ou 20 anos a gente consegue conversar algo em comum.
          Confesso que algumas lágrimas esboçaram em cair, os olhos marejaram e sai perambulando pelas ruas sem destino, com o coração despedaçado e muito humilhado e segui pra casa com um único objetivo: A partir daquele dia começaria a estudar muito e tornar-me-ia alguém muito inteligente ou no mínimo equiparar-se-ia aquela garota que mudou o destino da minha vida.
          Contei o acontecido ao meu pai e ele riu muito e disse que queria conhecer a garota, pois ela realmente estava falando a verdade. Nova humilhação e passados alguns meses vim morar em Jacareí com apenas um propósito na minha vida. Estudar, estudar e estudar.
          Estes são os poderes das palavras que quando proferidas por alguém que a gente ama pode transformar nossas vidas.
          Obrigado linda garota por tão sinceras e transformadoras palavras que até hoje ecoam na minha mente. Vamos estudar!

domingo, 21 de abril de 2019

MEU PRIMEIRO CELULAR

 Há a necessidade de estarmos “antenados” com as novas Tecnologias e quando eu pensei que já tinham inventado quase tudo nesta vida surge este maravilhoso aparelhinho chamado celular.
               Quando os primeiros equipamentos apareceram por aqui em 1.997 eu tinha um velho “BIP” que utilizava para manter contatos com meus clientes de Plano de Saúde. Mas meu verdadeiro plano era sair dos “Planos de Saúde” e migrar para outra atividade qualquer e foi nesta época que surgiu a oportunidade de vender Cartões de Visita.
                Os clientes “bipavam”,eu  anotava o número e corria até um orelhão para retornar o chamado e acertar uma visita. Era muito triste estar bebendo uma cerveja bem gelada numa galeria qualquer do centro de Sampa, receber um chamado via “BIP” e ter que sair correndo para não perder o cliente e deixar o copo quase cheio sobre o balcão da lanchonete. Aquilo me deixava muito triste e eu fazia planos para adquirir um aparelho celular o mais breve possível.
                 Comecei a vender cartões de visitas para o Luis, dono de uma gráfica digital que tinha um escritório na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, bem em frente a TELESP, o que aguçava ainda mais  minha vontade de ter o tal do celular. Mas nunca sobrava dinheiro suficiente para comprar o tal do aparelho, visto que o equipamento custava muito caro. E lá eu ia seguindo com meu velho aparelhinho BIP e sempre sonhando em fazer uma boa venda de cartões para adquirir um celular, até que num determinado dia a sorte resolveu acompanhar-me e sai de casa de madrugada para oferecer meus cartões de visitas para os camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março, na antiga e surpreendente Feirinha da Madrugada.
            Lá pelas dez horas da manhã de um determinado dia já tinha vendido vários cartões e ia embora quando fui abordado por um camelô pedindo se eu poderia fazer apenas cem cartões de visita para ele, disse educadamente que só vendia múltiplos de mil, ou seja: mil, dois mil e assim por diante e ele disse que os produtos que ele comercializava eram poucos e não havia clientes suficientes para poder fazer um pedido de mil cartões. Foi então que fiz uma brincadeira com ele e disse:
- Olha amigo, só faço cem cartões pra você se você apresentar-me um próspero comerciante que faça dez mil cartões comigo.
Ele riu humildemente, colocou a mão no queixo e ficou pensativo até que inesperadamente disse:
- Pois é senhor vendedor de cartões, tenho um primo que é muito rico e vou dar o endereço dele para o senhor fazer uma visita, quem sabe ele faça alguns cartões com o senhor! Mas preciso de cem cartões!
Passei a mão no meu bloquinho de pedidos e imediatamente anotei o pedido de cem cartões para o humilde camelô. Sabia que não poderia apresentar apenas um pedido de cem cartões e tinha resolvido que iria fazer mil cartões e arcaria com o resto do custo. Coloquei o endereço do primo rico no bolso e segui meu caminho e quando estava dentro da estação São Bento do Metrô, resolvi voltar e ir até o tal do primo rico ver se conseguia mais um significante pedido de cartões de visita.
            Quando cheguei em frente ao endereço, fiquei muito surpreso, pois eu estava em frente a um shopping, peguei o elevador e apresentei-me a secretária e ela pediu que eu aguardasse alguns minutos que ela iria anunciar-me ao próspero comerciante.
             Entrei e apresentei-me ao “Primo rico” do comerciante da rua vinte e cinco de Março e ele cordialmente perguntou-me:
- Quem enviou você até aqui? E eu contei toda a história dos cartões e que ele tinha um primo que vendia alguns carrinhos de plásticos e foi exatamente aquele primo que pediu para eu ir falar com ele.
O comerciante sorriu e levantou-se da cadeira e disse:
- Onde está este querido primo que não o vejo faz anos! Dei o endereço a ele e o comerciante encomendou quarenta mil cartões para uma nova loja que ele estava inaugurando sobre artigos exotéricos.
          Como o Luis, dono da gráfica não fazia aquele tipo de cartões encomendados, procurei um amigo que tinha uma gráfica com várias máquinas no Tatuapé e ele fez os cartões.
          O dono da gráfica do Tatuapé entregou os cartões ao rico comerciante e pediu para eu passar na gráfica para receber minha comissão e ele foi logo dizendo:
- Muito obrigado pelo pedido, quanto lhe devo?
Eu zombando, brinquei dizendo que precisava de dinheiro suficiente para comprar um bom celular, pois estava cansado de tanto usar meu simples “BIP”, ele sorriu e deu uma quantia que dava pra comprar dois celulares. E lá fui eu para a região da Rua Santa Efigênia comprar meu primeiro celular. Era enorme, parecia um tijolo, pesado, mas... funcionava!
            Sai da loja todo encantado com meu celular e liguei pra todos os meus contatos e acabei com todo meu crédito. A partir deste dia andava com meu pesado celular preso a minha cinta e sempre que precisava telefonar usava-o e ficava agradecendo aquele humilde camelô que tinha proporcionado tal conforto.
            Depois muitos outros celulares eu tive, mas este conseguido com uma brincadeira serviu-me de lição: Nunca duvide de uma pessoa por sua insignificante posição social, pois ela pode surpreender você a qualquer momento, assim como aconteceu comigo e a partir deste dia passei a não duvidar de mais ninguém nesta vida. E viva o Celular! 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

ESPÍRITO DE CACHACEIRO


Eu já vinha programando minha mudança para um local qualquer, pois eu estava morando com uma irmã num bairro para poder ir comprando uns móveis velhos para mobiliar meu novo lar.
Um primo disse que existia uma casa desocupada por um preço bem acessível e resolvi espiar a tal casa. Marcamos de ir ver a casa e a priori não achei muito bom, pela localização e por ficar no pé de um morro bem íngreme, mas para quem não tinha onde morar estava mais que bom.
Acertei o primeiro aluguel com o proprietário e fiquei de mudar no final daquele mês, mas uma irmã disse para eu mudar logo, afinal já tinha pago o aluguel e nada mais justo que ir morar na casa.
Uma sobrinha prontificou-se a levar-me até a casa e lá fomos nós, com apenas um colchão e algumas roupas de cama e lá me deixaram e foram embora me largando entre quatro paredes e o colchão jogado no meio do quarto.
Olhei as paredes carcomidas, fiquei parado na porta da cozinha vazia e na minha frente existia um enorme muro que dava impressão de estar em um presídio, mas não me abalei, afinal já tinha morado em locais bem mais aterrorizantes que aquele.
Tomei um demorado banho com um pedaço de sabonete que achei jogado em cima da pia e fui para o boteco tomar umas biritas para poder acalmar a alma. Após estar semi embriagado desci o morro e estiquei meus ossos no velho colchão que estava no quarto.
E assim os dias foram passando e três dias depois recebi um dinheiro e fui pegar minha mobília que tinha comprado com tanto esforço vendendo empadas.
Os poucos pertences foram colocados dentro de uma van e a mudança aconteceu e quando chegamos a minha nova residência o motorista da van e meu cunhado deram um tchau e foram embora, largando tudo na frente da casa. Fui até uma obra e pedi para os serventes se poderiam ajudar-me e imediatamente fizeram o transporte dos velhos móveis.
Vagarosamente fui arrumando os móveis nos lugares que achava que ficariam bem posicionados e fui ao mercado comprar uma caixa de cerveja bem gelada para comemorar o novo lar.
Comprei um frango assado para poder degustar com as cervejas e assim que abria uma lata de cerveja escutava o barulho de uma garrafa sendo aberta e a tampa caindo no chão fazendo barulho.
A primeira vez fiquei um pouco assustado, mas não dei muita “bola”, pois pensei que fosse o barulho da velha geladeira ou algum aplicativo do celular sendo acionado. Abri e segunda lata de cerveja e novamente o barulho da garrafa sendo aberta e a tampinha caindo no chão. Bebi um gole de cachaça e assim foi acontecendo, abria a lata de cerveja e escutava a garrafa sendo aberta e o barulho da tampinha em contato com o chão.
Aquele dia fui dormir um pouco tonto e pensando o que estava acontecendo comigo que a partir daquele momento estava escutando barulhos estranhos, também não liguei muito e joguei a culpa nas cachaças e nas cervejas.
Os dias foram passando e eu continuei bebendo cervejas e escutando o barulho da garrafa e era até engraçado, pois de tanto escutar o barulho dizia em voz alta: E aí espirito cachaceiro não vai oferecer desta cerveja não? Ria e abria mais uma lata de cerveja e os dias foram passando e todas às vezes que bebia cervejas lá aparecia a tal da garrafa sendo aberta com a tampinha rolando no assoalho.
Certo dia conversando com um vizinho ele me disse que aquela casa onde eu estava tinha morrido um rapaz de tanto beber, e o papo continuou e comecei a refletir o porquê do barulho da garrafa sendo aberta. Era o espírito cachaceiro!
Sabendo daquele fato pedi para o proprietário da casa que queria mudar de casa urgentemente e fui atendido e a partir daquele dia na nova casa nunca mais escutei a garrafa sendo aberta e a tampinha rolando pelo assoalho. O espirito cachaceiro tinha ficado na casa mal assombrada ou foi para algum boteco perto da residência beber umas lisas

UM OFFICE BOY NA CIDADE DE SÃO PAULO NA DÉCADA DE 70

                               

 


No ano de 1971, eu era um garoto que morava na periferia, tinha quatorze anos de idade, era pobre de nascimento e tinha apenas o ginásio incompleto, então não restava-me outra alternativa a não ser começar a trabalhar para levar a namoradinha ao cinema nos finais de semana e comer cachorro quente com tubaina na padaria do bairro com os amigos Israel e Luizão.
Papai levou-me até o endereço citado no minúsculo anúncio do jornal comprado no domingo, apertou o botão do elevador, desejou-me boa sorte e foi embora.
As pernas tremiam e o suor começou a descer pela testa, estava muito quente e eu muito nervoso. Desci no 21º andar, super enjoado pelo trajeto do elevador, o coração disparado e a carteira de trabalho em branco.
Apresentei-me à recepcionista um pouco trêmulo, inseguro, bastante ansioso, mas com muita esperança em conseguir a vaga e não decepcionar Papai.
Fiquei aguardando eternos minutos ao lado de jovens apreensivos, trajando roupas simples, denunciando-os que também eram moradores da periferia o que deu-me um pouco mais de tranqüilidade.
Fui chamado pela recepcionista que conduziu-me até uma sala onde existia alguns móveis estilo colonial, muitos telefones, uma enorme pintura de eucaliptos na parede e eu diante do Sr.Rubens, gerente de uma Cia.de Seguros, um senhor obeso, aparência de pessoa seríssima, honesta e rica, muita rica.
O odor agradabilíssimo do perfume do Sr.Rubens invadia a sala, sem pedir licença ao nosso olfato. Não sabia se olhava a sala ou o Sr.Rubens, estava encantado com tanto luxo e beleza, tão desconhecidos aos meus olhos.
O Sr.Rubens pediu-me educadamente para eu sentar numa poltrona estilo século XVIII, senti vontade de deitar, tamanho era o conforto, mas mantive-me ereto e atento. Pigarreou algumas vezes e dirigiu-me um olhar perscrutador, examinando-me dos pés a cabeça, muito sério e com uma voz grossa perguntou-me se eu conhecia as ruas do centro da cidade de São Paulo. Senti o meu rosto enrubescer-se de vergonha em mentir e respondi tartamudeando em poucas palavras que conhecia todas as ruas, sem exceção.
"Ah, se ele soubesse que eu mal sabia retornar para minha casa, no longínquo bairro da Cidade A.E.Carvalho, na zona Leste!" teria perdido o emprego, com certeza.
Após algumas perguntas sobre minha vida, minha família, meus estudos e certificar-se que eu realmente precisava trabalhar para ajudar meus pais, levantou-se e dirigiu-se a um armário, abriu-o,mexeu em alguns papéis e retirou uma maleta preta, estilo 007, caminhou em minha direção e depositou-a sobre minhas pernas e pediu-me para passar na Seção de Contabilidade e retirar o valor em dinheiro referente a duas passagens e ir para o Bairro da Lapa.
Deu-me o endereço e pediu que entregasse alguns papéis num escritório de advocacia, desejou-me boa sorte e sentou-se pesadamente na sua confortável cadeira e acendeu um charuto enorme.
Agradeci, pedi licença e sai um pouco atordoado com a mistura dos odores, do perfume e do charuto, transpirando e sem a mínima noção de onde ficava o Bairro da Lapa.
Tinha conseguido o emprego !
Peguei o dinheiro com a Dona Joana, uma senhora idosa, muito simpática e amável. Peguei a maleta 007 e sai um tanto orgulhoso e fiquei aguardando o elevador e pensando como faria para chegar até a Lapa."Onde ficava a Lapa? Era longe? Seria igual ao meu querido bairro da Cidade A.E.Carvalho?". Deixei de divagações quando escutei um som e acendeu uma lâmpada verde sobre a porta do elevador, abriu a porta do elevador e o ascensorista falou com uma voz irritada: Dessssce!
Fazia um calor insuportável, parei numa banca de Jornal na Praça Padre Manoel da Nóbrega e perguntei humildemente para o jornaleiro como fazia para chegar na Rua Coreolano no Bairro da Lapa. Explicou-me que deveria pegar um ônibus que vinha da Penha e passava na Rua XV de Novembro. Era o famigerado Penha-Lapa.
Fiquei esperando o ônibus por longos minutos embaixo de um Sol escaldante. Estava maravilhado com toda aquela movimentação: carros, ônibus, pessoas passando de um lado para o outro, guardas apitando incessantemente. Olhava para os prédios, olhava para os ônibus, para as pessoas e tinha vontade de chorar. Avistei o ônibus e fiz sinal para que o mesmo parasse e quando olhei mais atentamente fiquei estupefato, parecia que transportava toda a Metrópole, estava lotadíssimo!
Entre um empurrão e outro consegui com muito esforço subir os dois primeiros degraus, a porta fechou e fiquei prensado entre a porta traseira e um senhor muito gordo e suado. Senti vontade de descer no próximo ponto, devolver a maleta 007 para o Sr.Rubens e voltar para minha casa.Pensei:"Mas o que falaria para Papai? E a vergonha de não ser capaz de conseguir o emprego? Engoli algumas salivas, passei a mão pela testa suada e odiei o gordo, o onibus,o Sr.Rubens e Papai.Era necessário conseguir o primeiro emprego custasse o que custasse, então tinha que suportar aquele "inferno".
Procurei o endereço e encontrei-o com alguma facilidade, entreguei os papéis e peguei o ônibus de volta e cheguei depois de duas horas, muito amarrotado, cansado, suado, mas muito orgulhoso e feliz por ter cumprido minha primeira tarefa. Estava torcendo para ser dispensado e retornar no outro dia. Ledo engano! O Sr.Rubens pediu-me para ir para Vila Guilherme, numa transportadora e retirar algumas apólices de seguro, fazia parte do meu teste.
Novamente perguntei ao velhinho jornaleiro como fazia para chegar ao endereço, deu-me todas as instruções, peguei o ônibus no Parque Dom Pedro II, fui e voltei em menos de duas horas.
Entreguei as apólices para o Senhor Rubens. Olhou-me aprovadamente, deixou transparecer um sorriso de satisfação, apertou-me a mão e disse-me: Parabéns garoto! você começa a trabalhar amanhã, pode trazer todos os documentos que iremos registrá-lo. Ah, não esqueça de vir de terno e gravata!
Não contive-me de alegria, não sabia se sorria ou chorava, tamanha a minha felicidade e tristeza em encarar o Penha-Lapa de novo e ainda ter que usar terno e gravata. Nunca tinha usado terno e gravata em toda minha vida!
No dia posterior, cheguei meia hora antes, abandonado dentro de um terno azul claro e gravata vermelha que tinha emprestado do meu amigo Israel com a promessa de devolver nos finais de semana para ele ir à igreja e devolve-lo definitivamente assim que recebesse meu primeiro pagamento.
Dei todos os documentos para Dona Joana e ela apresentou-me o itinerário completo dos lugares onde deveria ir. Quase chorei em pensar em pegar trinta e dois ônibus lotadíssimos como aquele Penha-Lapa. Felizmente não era somente o Penha-Lapa, existiam outros ônibus menos lotados.
Peguei o dinheiro referente a trinta e duas passagens, a maleta 007, um guia da cidade e corajosamente fui enfrentar meu primeiro dia de Office-Boy. Passei nas Lojas Americanas da Rua Direita para comprar algumas balas e doces e fui pegar a primeira condução na Praça Clóvis Beviláqua.
Meu trabalho consistia em retirar algumas apólices de seguro em transportadoras em doze bairros diferentes. Alguns bairros eram tão distantes que minha memória já não os alcançam mais.
Naquela época já existia grandes enchentes na cidade e lembro-me atravessando a Av. Brás Leme com a maleta preta 007 do Sr.Rubens sobre a cabeça, pois se deixasse molhar os documentos era demissão na certa.
No começo foi muito difícil, mas com o passar dos dias tudo tornou-se uma grande aventura. Encarava tudo aquilo como uma grande diversão e tudo era motivo para festa, pois adorava ver as pessoas andando apressadamente e era com muita alegria e entusiasmo que contava a meus amigos da escola as aventuras do cotidiano. Estudava no período noturno no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, no Parque do Carmo, em Itaquera.
Foi meu primeiro emprego e orgulhava-me em trabalhar no centro da maior cidade da América Latina. Adorava jogar Fliperama, pegar as seções da tarde nos antigos cinemas do centro, às vezes parava para observar os "cantadores", e ilustres "trovadores", Homem da cobra vendendo suas milagrosas pomadas para todas as enfermidades do Mundo na Praça da Sé e comer o tradicional sanduíche de churrasco grego no Largo Paiçandu, que ficava o dia todo rodando, rodando, assim como nós office boys daquela época.
Sentia muito orgulho em ser paulistano e foi minha primeira grande paixão pela cidade de São Paulo, depois viriam outras. Era um sofrimento gostoso, de estar sendo útil, de poder ajudar minha cidade, de ver e sentir novos lugares, novos aromas, novas pessoas, mas nenhum dia era igual ao outro, sempre tinha novidades. Imaginem que nós oficce boys chegávamos a promover um campeonato de futebol em pleno Pátio do Colégio com juiz, torcida e muita alegria. Era simplesmente maravilhoso!
Muito obrigado papai, muito obrigado Sr.Rubens, muito obrigado São Paulo por dar-me a oportunidade de tornar-me homem, responsável, destemido e acima de tudo um cidadão que aprendeu a amar essa cidade desde aquela época e continuar amando-a até os dias de hoje.

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...