quarta-feira, 24 de abril de 2019

CARTA DA NETINHA PARA O VOVÔ.


Querido Vovô, 

                Já faz tempo que ando querendo escrever uma cartinha para o senhor, mas o meu “tempinho” com brincadeiras tem impedido esta árdua tarefa. Mas hoje me sobrou um tempinho e decidi escrever algumas palavras do meu pequeno vocabulário, muito ensinado pelo senhor, por mamãe, por titio e pelas tias da escolinha que tanto amo para dizer o que meu coraçãozinho anda muito feliz pela sua presença entre nós.
                 Não se assuste com algumas verdades e outras “mentirinhas” bem características da gente que tem apenas três aninhos. Tenho notado seu esforço em tentar educar-me da sua maneira um pouco arcaica, mas tenho prestado muita atenção e sinto que o sr.procura orientar-me meigamente e a sua paciência é realmente surpreendente.
                Não fique zangado comigo não, quando derrubo comida no chão, pois como o senhor sabe minha coordenação motora ainda não é muito boa.
               Obrigada por deixar-me pular alegremente sobre a cama da mamãe e ainda o senhor dizer que assim que ela chegar é para eu parar, tenho tentado parar, mas...como o senhor sabe, às vezes fico muito empolgada e mamãe dá algumas broncas e vejo que o senhor sorri marotamente. Isto me faz muito feliz!
               Adoro esconder-me embaixo da cama e sempre dizem que tem “bicho”, que o chão está frio, sujo, mas eu não me importo, se o senhor soubesse como é gostoso observar o pés de vocês aqui debaixo! é outro ângulo do mundo. Nossa, como vocês andam nervosos comigo! só porque outro dia fiquei comendo deliciosamente um Danone e refletindo sobre meu mundinho, deixei derramar apenas um pouquinho no chão, afinal não existe iluminação neste espaço.
              Agora uma das “coisas” que mais adoro é quando o senhor leva-me para dormir, cobre-me cuidadosamente com o meu cobertorzinho branco e começa a contar histórias fantásticas usando e abusando de onomatopeias nunca escutadas em toda minha vida, fico prestando uma atenção até chegar o final da história e quando a mesma termina sempre peço a continuação e o senhor diz: Não, agora vamos dormir meu anjinho que amanhã conto a continuação da história. Poxa, que tristeza ter que dormir e não ouvir a continuação!
              Quando escuto sua voz ao longe já estou quase dormindo, fecho e abro os olhos e viro-me para o lado e lembro-me que temos que rezar, aí rezamos o “Pai Nosso” que o senhor ensinou-me e pedimos ao Papai do Céu que nos abençoe, termino as últimas palavras já sonhando com os anjinhos.
               Mas o que realmente faz-me muito feliz é quando vamos ao Parque de Diversão. O senhor não imagina a minha alegria em poder andar de bicicleta, ir observando árvores, flores, casas e cantando algumas músicas tão estranhas, que é da sua época, mas canto-as, ou tento cantá-las. Sempre levamos brinquedos para brincar na areia e a sua disposição em sentar-se comigo e fazer lindos castelos que às vezes eu os desmancho e o senhor fica um pouquinho zangado, mas não liga não vovô, isto é apenas para o senhor construir outro e podermos ficar um pouquinho mais construindo castelos neste nosso mundinho de sonhos misturados com sua realidade.
             São tantas coisinhas a ser faladas que me faltam palavras, mas o que quero grafar e dizer de coração é que amo o senhor mais que o resto do mundo! Obrigado por existir e fazer-me muito feliz. Um beijinho! Eu te amo! Conta outra “históinha”?

terça-feira, 23 de abril de 2019

AQUELE ABRAÇO


Você combinou com os amigos beber aquele chopinho bem gelado à noite, combinou com a namorada levá-la ao cinema após  o happy-hour, passear no Parque domingo de manhã, pagar suas contas atrasadas, atualizar seus e-mails, terminar de ler aquele livro abandonado na estante faz meses, terminar seu tratamento dentário, passear na praia, ir ao cabeleireiro e no finalzinho da tarde morre.
      Poxa, isto é muito triste! Devemos fazer um protesto e exigirmos que a Morte seja anunciada, seja agendada. Nada de aparecer “de repente” e ir abraçando a gente sem ao menos dar tempo de escolhermos nossas camisas mais bonitas, passar o perfume mais gostoso, dar alguns beijos nas pessoas queridas e deixar o dinheiro para pagar as contas.
      Então aquelas fórmulas matemáticas aprendidas com tanto esforço, noites e noites estudando, provas, simulados, aulas de inglês, concursos, vestibular, faculdade e quando senta-se no banco da praça, lá está uma mulher muito linda, perfumada que começa a conversar com você e repentinamente você sente uma dor muito forte no peito, ela sorri marotamente e diz: Pois é velhinho, chegou sua vez! Prazer, sou Dona morte, vim buscá-lo, faz o favor de acompanhar-me.
     Mas o pior de tudo e não ter tempo de despedir-se de ninguém. Não há “saideira” para a Morte!
     Colocam um terno horrível em você, ajeitam sua face, te enfiam num caixão, ficam falando baixinho e rezando incessantemente. Que nada, gostaria de escolher a roupa que iria, nada falar baixinho, quero muitas piadas e sorrisos estridentes e algumas rezas para não contrariar os mais devotos.
     Bem que poderiam colocar algumas boas músicas de Tom Jobim, Chico Buarque, recitar alguns poemas de Neruda, Cecília Meireles, Jorge Luís Borges, Vinícius de Moraes e tantos outros.
    Não, não pode, ela está sempre apressada, afinal existe um cronograma a seguir e o tempo é precioso. Por isso amigo, viva tudo que há para viver, não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida....Perdoe....Sempre!
    Nunca, jamais adie qualquer sonho e viva o agora porque talvez no próximo segundo você possa pertencer aos vermes que irão rir da sua cara medíocre.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

TIO AGOSTINHO



Toda criança gostaria de ter um tio como o tio Agostinho. Desde criança, quando tio Agostinho nos visitava nossa casa transformava-se numa grande festa, tamanho era o carinho que tínhamos por ele.
         Alegre, brincalhão, sempre de bem com a vida, participativo e adorava todas as crianças, nós amávamos tio Agostinho, principalmente quando ele nos protegia das surras de vara de marmelo que mamãe sempre aplicava na gente. Mamãe pedia para ele sair da frente e ele não saia e levava várias varadas de marmelo por nós e ria alto, zombando com tudo e com todos. Que maravilha aquele momento! Nós crianças adorávamos aquele momento que sempre terminava com um comentário de mamãe dizendo: Você acaba “estragando” meu castigo e ele sempre respondia: Ah, Thereza! Deixa pra lá eles ainda são crianças! Quando eu for embora você pode aplicar a surra, agora não. Faz um cafezinho pra gente comemorar a surra frustrada! Mamãe caia na gargalhada e ia preparar o tal do cafezinho.  Nós olhávamos com tanta admiração para tio Agostinho e gostaríamos que ele ficasse morando conosco eternamente, mas tio Agostinho era caminhoneiro e após várias brincadeiras, contar várias piadas e risos ecoados pela casa beijava-nos e dirigia-se a boleia do caminhão para pegar a estrada sem destino, levando apenas a solidão e nossos gritos e risadas na sua mente pela longa estrada.
         Nós fomos crescendo e nossa admiração por tio Agostinho acompanhava nosso crescimento, passamos da fase de criança para adolescente e alguns momentos na minha vida são inesquecíveis e os levarei comigo e contarei a todos onde estiver com um orgulho danado.
         Nunca tinha ido ao cinema e quando completei doze anos tio Agostinho prometeu que iria levar-me ao cinema, fiquei eufórico e lá fomos nós assistir meu primeiro filme chamado “De caniço e Samburá” com Jerry Lewis no cine Júpiter no bairro da Penha, em São Paulo. Saí do cinema encantado, vocês não imaginam quanta alegria invadiu minha alma naquele dia.
          Minha primeira bicicleta foi um presente por ter passado de ano na escola, lembro-me perfeitamente que eu estava jogando bolinha de gude com alguns moleques na rua, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo e lá aparece tio Agostinho com uma linda bicicleta preta, aro 28. Não me contive de felicidade, joguei todas as bolinhas para o alto, dei um apertado abraço no tio e saí pedalando por baixo do quadro, pois eu não conseguia atravessar as raquíticas pernas por cima do quadro.
        Pedi para fazer uma viagem para qualquer lugar em um imponente caminhão ao qual ele estava dirigindo e saímos de São Paulo à Belo Horizonte, comemos um frango assado por lá, fizemos algumas paradas e nos divertimos muitíssimo, com a paisagem, a estrada e o clima da viagem.
         Foram várias passagens e histórias ao lado do tio Agostinho, pois se fosse contá-las ficaria muitas horas descrevendo tanto carinho e alegria em estar ao seu lado.
        Valeu a pena passar por esta vida, ser criança, adolescente e ter um tio tão maravilhoso como tio Agostinho. Obrigado tio Agostinho. De coração!

PAQUERAS NA PRAÇA DA MATRIZ


 E quando eu cheguei em Jacareí, interior da cidade de São Paulo no início da década de 1970, fiquei encantado em saber que existia uma praça onde os jovens podiam paquerar livremente as lindas garotas existentes naquela época na aconchegante e linda cidade.
         Naquela época eu tinha dezessete anos e algumas meninas que participavam das alegres partidas de ping-pong que aconteciam no quintal da casa da minha tia achavam que eu era “bonito” embora eu tinha lá as minhas dúvidas quando encarava o espelho e via o meu rosto repleto de espinhas durante os demorados banhos dos finais de semana.
         Aos sábados quando eu retornava da “Prainha”, um aprazível local a beira do despoluído rio Paraíba onde eu ia ler os grandes clássicos da literatura Brasileira solicitado pelo mestre de Língua Portuguesa, entrava no meu quarto que dividia com dois primos e dirigia até o nosso guarda-roupa comunitário para escolher as roupas que usaria durante as paqueras no largo da matriz.
         Naquela época era “moda” usarmos calças boca de “sino”, um tipo de calças que cobria totalmente nossos sapatos devido a dimensão exagerada de pano, camisas “gola olímpica”, estilo perfeito para tapar algumas marcas existentes em nossos pescoços após avassaladores namoros e frenéticos beijos nas bocas de lindas meninas, sapatos com enormes saltos que chamávamos carinhosamente de “carrapeta” e cintos com enormes fivelas estampadas algum personagem da época, meias e cuecas eram deixadas em segundo plano, pois as mesmas não seriam vistas pelo público alvo, então não havia a necessidade de tanto esmero com estas peças.
         A escolha das roupas que seriam usadas durante a nossa paquera exigia grande concentração e uma boa dose de vasta imaginação.
         As roupas eram delicadamente retiradas dos cabides e colocadas sobre a cama, um olhar apreensivo, a mão sob o queixo e uma expressão de dúvida franziam nosso olhar.
         Os pensamentos levavam-me ao meio da praça e via-me com uma elegante calças azul-escuro listrada de branco, uma linda camiseta branca “gola olímpica” bordada com o meu nome completo na parte frontal para tornar-se facilmente identificável diante das meninas, sapatos lustrosos e eu diante da linda menina dos olhos azuis e um corpo escultural enaltecendo minhas roupas, meu perfume de terceira categoria a meu rosto espinhento.
         Abandonava as minhas divagações, abria os olhos e pronto,  já estava decidido e escolhida a roupa com a qual eu iria ao encontro da minha princesa da praça. Guardava todas as outras roupas e deixava sobre a cama somente aquela qual seria usada.
         Após longos minutos sonhando acordado, andava vagarosamente até o banheiro cantarolando alegremente uma música de Chico Buarque de Holanda ou do Caetano Veloso, adorava aquela que dizia: “Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”, para um demorado banho.
         A minha ablução só era interrompida quando minha tia Nina batia na porta do banheiro e dizia sorrindo:
- Oh! Luiz, o banho só lava o corpo e não a alma repleta de felicidade!
Soltava uma enorme gargalhada, fechava a torneira e saia enrolado em uma confortável toalha estampada com a foto do Pateta e entrava sorrateiramente no meu quarto.
         Passados alguns minutos lá estava eu diante do espelho especulando o meu visual e tentando tirar alguma espinha mais atrevida que instalara no meu rosto nos últimos dias e passados alguns minutos eu já estava totalmente preparado e muito feliz com minha aparência.
         Sentava-me na minha cama e ficava folheando uma revista chamada “POP” enquanto aguarda meu primo tomar banho e assim que ele estava arrumado caminhávamos até o portão e enquanto fechávamos o portão eu tecia algum comentário animador:
- Não adianta a gente se arrumar tanto, com nossa melhor roupa, com o nosso “melhor” perfume de terceira categoria se não temos o essencial: Um bom “papo”, diálogo e um poder de persuasão aguçado!
- Pois é Luiz, você está repleto de razão, mas mesmo assim vale a pena a nós tentarmos, quem sabe nós encontramos uma linda Cinderela ignorante, bem mais tolinha que nós, aí sim estamos feitos! Ríamos do diálogo e saíamos apressados com destino a praça.
         Chegávamos na praça e nossos olhares miravam em todas as direções a procura da nossa princesa encantada e quando avistávamos alguma linda garota, lentamente curvávamos diante do monumento, passávamos a língua entre os lábios e reverenciávamos a nobre dama sempre enaltecendo toda a beleza existente naquele corpo.
         Algumas meninas eram simpáticas e educadas e agradeciam nossas pífias cantadas, mas a maioria nem olhavam para nossos rostos e passavam olhando para o outro lado da praça o que nos irritava muito, grandes e sublimes palavrões eram tartamudeados entre uma ou mais mordidas nos lábios.
         As meninas circulavam pela praça no sentido horário e os meninos giravam no sentido anti-horário e assim ficava muito fácil avistarmos tudo e todos durante nossa paquera na praça.
         Alguns alto-falantes eram colocados em alguns pontos estratégicos na praça e os mesmos transmitiam lindas músicas daquela época e só eram interrompidos para anunciar um casamento, algum evento importante e falecimento de pessoas influentes da cidade e seguia tocando a música e nós andando e andando pela praça e nada de achar nossa musa encantada.
         Era muito engraçado quando eu e meu primo ficávamos encantados com alguma pequena, aí fazíamos uma estranha e engraçada aposta para ver quem iria abordar a menina primeiro e quem perdesse era obrigado a “plantar uma bananeira” em plena praça, ou seja, colocar a cabeça no solo e levantar os dois pés para o alto e ficar pelo menos uns três minutos naquela posição.
         Risos nervosos e lá vinha a garota mais linda da cidade e entre um cutucão e outro parávamos na frente da menina e pedíamos carinhosamente se poderia falar um pouquinho conosco e lembro-me que quantas vezes “sacaneava” com o meu primo, pois pedia a palavra e a abordagem da vez e contava todo a nossa aposta para a menina e a mesma aceitava somente para ver o meu primo plantar a tal da bananeira e após colocar os pés no chão e ver que estávamos sorrindo a menina despedia-se e ia embora dizendo que éramos “loucos”.
         O tempo ia passando e às vezes conseguíamos alguma paquera e imediatamente convidávamos a menina para irmos a uma pequena e mal iluminada pastelaria perto da praça para comer alguns pastéis e beber Tubaína.
         Algumas meninas aceitavam nosso humilde e hilário convite, mas a maioria nos abandonavam em plena praça pedindo para convidar nossa querida mãe para tal convite. Ríamos muito alto da situação e continuávamos a procura de outra garota que aceitasse convite tão “pobre”.
         Chegava a hora de retornar para nossa residência, pois, já passava das onze horas da noite e as poucas meninas que ainda insistiam em ficar na praça conseguiam ser mais feias do que nós.
         Recolhíamos nossas emoções e saíamos da praça muito feliz em fazer-se presente e até conseguir abordar algumas meninas porém sem sucesso e assim seguíamos de braços dados com nossa querida e inseparável amiga “Esperança” que jamais nos abandonava em instante algum.
         Deitávamos em nossas camas e ficávamos lembrando dos maravilhosos e divertidos momentos na Praça e entre um sorriso e outro adormecíamos e sonhávamos com aquela linda menina dos olhos azuis que muito tempo mais tarde tornar-se-ia nossa querida namorada.

MISSA DO GALO


Já fazia algum tempo em que eu estava morando naquela pacata cidade do interior e tudo naquela tranquila cidade agradava-me, desde os gestos simples e cordial das pessoas que mesmo não me conhecendo sempre ao passar por mim cumprimentavam-me e tudo aquilo era muito estranho, pois tinha vindo de uma metrópole onde ninguém olhava para cara de ninguém.
      O tempo foi passando e meu único objetivo era estudar para formar-me engenheiro e quantas garotas pediam para namorar comigo e eu educadamente dizia: Não obrigado, no momento tenho que estudar e lá ia seguindo minha “vidinha”.
      Trabalhava durante o dia numa construtora e a noite ia para escola Técnica concluir o curso técnico e preparar para entrar numa faculdade.
      Todos os dias eu ia almoçar em casa e sempre me acompanhava um colega chamado Valdir que trabalhava junto comigo e sempre que passávamos por uma rua avistávamos uma linda garota que sempre estava a varrer o enorme quintal de terra e sempre acenava para nós e foi num determinado dia que meu colega Valdir disse:
- Olha Luiz, não sei se você já observou, mas aquela garota está paquerando você! E eu dizia para o colega: Ora Valdir e eu sou lá de chamar atenção de alguém, aperta o passo que estamos atrasados para o almoço e assim seguíamos apressadamente para o encontro da nossa refeição, sempre contando várias piadas e rindo do cotidiano.
      Na segunda quinzena do mês de dezembro de 1975 tudo era festa, pois nossa juventude aliada ao bom desempenho nos estudos e no trabalho estava em harmonia e quando num determinado dia eu estava indo trabalhar após o almoço vejo aquela linda garota fazer um sinal para eu esperar que ela gostaria de falar comigo.
      Parei em frente da casa daquela linda menina e fiquei aguardando ela caminhar vagarosamente ao meu encontro e quando chegou perto pude perceber toda a beleza que a mesma tinha: Uns olhos cor de mel e um corpo de bailarina e trajando um lindo vestido azul chegou bem pertinho e perguntou meu nome e eu imediatamente disse tartamudeando meu nome completo e fiquei pensando: “Caramba, será que meu presente de Papai Noel chegou adiantado?”
      Apresentamo-nos e marquei de ir buscá-la na escola após as aulas do período noturno. Naquela tarde trabalhei encantado diante de tanta beleza e fiquei ensaiando mentalmente o falaria para aquela linda garota quando nos encontrássemos e decidi pedi-la em namoro e tentar conciliar o namoro com os estudos e o trabalho.
      O encontro aconteceu e entre alguns beijinhos passamos a fazer várias perguntas sobre nós e ela ficou admirada e encantada com minha força de vontade e o grande objetivo em formar-me engenheiro e perguntava-me constantemente o porquê de não ficar morando na cidade de São Paulo e eu dizia que estava disposto a esquecer da grande agitação da metrópole em busca do meu sonho em estudar muito e voltar para Sampa somente depois de formado.
      Durante nossa conversa ela perguntou minha religião e eu disse que era católico e foi então que ela fez um convite para assistirmos a missa do galo na igreja da matriz junto com ela e concordei rapidamente e marcamos o encontro para irmos à igreja e nos encontrar a meia noite do dia 24 de dezembro na porta da igreja.
      Assim que cheguei à porta da igreja que já estava lotada de fieis fiquei alguns minutos tentando localizá-la na porta da igreja e eis que senti duas mãos tampando meus olhos e perguntando para eu adivinhar quem era e quando as delicadas mãos foram retiradas da minha visão pude ver a mulher mais linda que meus olhos já tinham visto neste planeta: Trajava um lindo vestido totalmente branco ornamentado com alguns botões cor de ouro, uma sandália prata e um sorriso encantador que iluminava toda a praça.
      Assistimos a missa do galo do lado de fora da igreja e foi totalmente celebrada em latim e a cada amem que eu escutava do padre erguia os olhos para o céu para agradecer meu lindo presente: Aquela linda mulher que tornar-se-ia minha esposa após dois anos daquele encontro na missa do galo.

O PODER DAS PALAVRAS











Entrei na lanchonete e sentei-me em um banco em frente a um enorme balcão repleto de lindas meninas pré-universitárias. Levantei a mão e imediatamente o atendente veio ver o que eu queria e eu disse:
- Quero um lanche de pernil, uma cerveja bem gelada e se sobrar algum tempinho pede para aquela linda morena vir falar comigo!
O atendente riu e saiu apressado para preparar o meu pedido e eu fiquei esperando pacientemente com os olhos vidrados naquela linda menina toda vestida de branco, cabelos longos e pretos, um corpo escultural e uns olhos verdes maravilhosos.
O atendente chegou com meu pedido e eu imediatamente disse a ele que o pedido estava incompleto e ele sorriu e saiu sem dizer nada.
          Todos os dias eu passava naquela lanchonete e sempre encontrava a linda garota dos olhos verdes que já tinha notado meu interesse por ela através dos meus olhares diretos e freqüentes piscadas. Às vezes ela esboçava algum sorriso e virava o rosto sempre passando as mãos pelos lindos cabelos.
         Numa sexta-feira a lanchonete estava repleta de lindas garotas e lá estava minha musa sentada no mesmo banquinho de sempre e resolvi arriscar todo o meu insignificante poder de persuasão e além da cerveja pedi ao atendente uma boa dose de conhaque para animar meus ânimos e criar coragem suficiente para abordar aquela oitava maravilha do Mundo. Após ingerir a dose de conhaque, levantei-me discretamente e dirigi-me calmamente até a linda garota e pedi gentilmente se podia conhecê-la e quando já estava esperando um surpreendente e fatídico “Não” ela disse “Sim”. Quase tive um enfarto e minha garganta secou e engasguei e consegui com muito esforço apresentar-me e dizer que estuda..... e ela imediatamente disse:
- Você faz Medicina?  Fiquei vermelho e perguntei a ela como tinha adivinhado e ela apontou uma linda jaqueta branca que eu estava usando e tinha emprestado do meu amigo Takeo que fazia Medicina na USP.
Rapidamente disse que sim e ela disse:
- Que legal eu também quero ser médica, estou estudando muito no cursinho para prestar o Vestibular para Santa Casa. Ela perguntou-me onde eu estava indo e eu disse que iria estudar na casa de um amigo da Faculdade, foi então que ela disse:
- Minhas aulas terminam às 23 horas, você não quer passar aqui no cursinho para a gente se conhecer melhor?
“Já tinha mentido sobre o que eu fazia e resolvi sustentar a “mentira” para conseguir namorar aquele “monumento” e pensava:” Caramba, a menina além de linda ainda é inteligente! Vou ficar milionário e nunca mais serei humilhado pelo meu colega Israel em falar que eu só conseguia namorar com garotas feias.
          Cabulei as aulas do curso Colegial e fiquei sentado numa praça pensando profundamente o quê iria dizer aquela linda garota, fazia um verdadeiro teatro mental.
          Faltando alguns minutos para as 23 horas lá estava eu esperando a garota descer os degraus do cursinho e finalmente ela apareceu no topo da escada sorridente e enviando-me um beijinho entre as colegas que desciam discutindo os assuntos abordados na sala de aula.
          A garota chegou e abraçou minha cintura e deu-me um carinhoso beijinho no meu rosto e falou:
- Pronto, aqui estou, você poderia levar-me até minha casa?
A resposta demorou a sair e disse imediatamente que sim e seguimos pelas escuras ruas do bairro trocando informações pessoais, até o momento que ela começou a fazer várias perguntas sobre o curso de Medicina e eu não sabia responder e resolvi falar a verdade e disse:
- Olha querida, sou apenas um pobre garoto da periferia e estudante do curso colegial e esta jaqueta que estou vestindo é de um amigo que realmente faz Medicina na USP... mas....Esperei alguns segundos e já estava preparado para o tradicional pontapé no traseiro quando surpreendentemente ela disse:
- Sabe Luiz, adorei sua “cantada” e até que você saiu-se muito bem neste seu maravilhoso teatro da mentira, ainda bem que você redimiu-se e admitiu sua ignorância. E riu mostrando uns dentes alvos e brilhantes, mas mesmo assim gostaria de namorar você!
          Com as mãos trêmulas e suadas e morrendo de vergonha abracei-a e dei um “saboroso” beijo nos seus lábios carnudos.
Despedimo-nos e prometi que na outra semana a gente se encontrava, pois assim que saísse da aula passaria no cursinho e levaria ela para casa.
          Os minutos, os dias foram passando-se e eu consegui apaixonar-me perdidamente pela linda garota até que num determinado dia ela pediu que fosse buscá-la mais cedo que tinha algo muito importante para falar comigo. Já estava preparado, daquele dia não passaria, iria acontecer o fim do nosso relacionamento e quando nos encontramos as palavras foram bem claras:
- Olha Luiz, você é um “cara” muito lindo, mas não há como continuarmos a namorar, pois existe um abismo cultural muito grande entre nós e fica a dica: Procure estudar e quem sabe daqui uns 10 ou 20 anos a gente consegue conversar algo em comum.
          Confesso que algumas lágrimas esboçaram em cair, os olhos marejaram e sai perambulando pelas ruas sem destino, com o coração despedaçado e muito humilhado e segui pra casa com um único objetivo: A partir daquele dia começaria a estudar muito e tornar-me-ia alguém muito inteligente ou no mínimo equiparar-se-ia aquela garota que mudou o destino da minha vida.
          Contei o acontecido ao meu pai e ele riu muito e disse que queria conhecer a garota, pois ela realmente estava falando a verdade. Nova humilhação e passados alguns meses vim morar em Jacareí com apenas um propósito na minha vida. Estudar, estudar e estudar.
          Estes são os poderes das palavras que quando proferidas por alguém que a gente ama pode transformar nossas vidas.
          Obrigado linda garota por tão sinceras e transformadoras palavras que até hoje ecoam na minha mente. Vamos estudar!

domingo, 21 de abril de 2019

MEU PRIMEIRO CELULAR

 Há a necessidade de estarmos “antenados” com as novas Tecnologias e quando eu pensei que já tinham inventado quase tudo nesta vida surge este maravilhoso aparelhinho chamado celular.
               Quando os primeiros equipamentos apareceram por aqui em 1.997 eu tinha um velho “BIP” que utilizava para manter contatos com meus clientes de Plano de Saúde. Mas meu verdadeiro plano era sair dos “Planos de Saúde” e migrar para outra atividade qualquer e foi nesta época que surgiu a oportunidade de vender Cartões de Visita.
                Os clientes “bipavam”,eu  anotava o número e corria até um orelhão para retornar o chamado e acertar uma visita. Era muito triste estar bebendo uma cerveja bem gelada numa galeria qualquer do centro de Sampa, receber um chamado via “BIP” e ter que sair correndo para não perder o cliente e deixar o copo quase cheio sobre o balcão da lanchonete. Aquilo me deixava muito triste e eu fazia planos para adquirir um aparelho celular o mais breve possível.
                 Comecei a vender cartões de visitas para o Luis, dono de uma gráfica digital que tinha um escritório na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, bem em frente a TELESP, o que aguçava ainda mais  minha vontade de ter o tal do celular. Mas nunca sobrava dinheiro suficiente para comprar o tal do aparelho, visto que o equipamento custava muito caro. E lá eu ia seguindo com meu velho aparelhinho BIP e sempre sonhando em fazer uma boa venda de cartões para adquirir um celular, até que num determinado dia a sorte resolveu acompanhar-me e sai de casa de madrugada para oferecer meus cartões de visitas para os camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março, na antiga e surpreendente Feirinha da Madrugada.
            Lá pelas dez horas da manhã de um determinado dia já tinha vendido vários cartões e ia embora quando fui abordado por um camelô pedindo se eu poderia fazer apenas cem cartões de visita para ele, disse educadamente que só vendia múltiplos de mil, ou seja: mil, dois mil e assim por diante e ele disse que os produtos que ele comercializava eram poucos e não havia clientes suficientes para poder fazer um pedido de mil cartões. Foi então que fiz uma brincadeira com ele e disse:
- Olha amigo, só faço cem cartões pra você se você apresentar-me um próspero comerciante que faça dez mil cartões comigo.
Ele riu humildemente, colocou a mão no queixo e ficou pensativo até que inesperadamente disse:
- Pois é senhor vendedor de cartões, tenho um primo que é muito rico e vou dar o endereço dele para o senhor fazer uma visita, quem sabe ele faça alguns cartões com o senhor! Mas preciso de cem cartões!
Passei a mão no meu bloquinho de pedidos e imediatamente anotei o pedido de cem cartões para o humilde camelô. Sabia que não poderia apresentar apenas um pedido de cem cartões e tinha resolvido que iria fazer mil cartões e arcaria com o resto do custo. Coloquei o endereço do primo rico no bolso e segui meu caminho e quando estava dentro da estação São Bento do Metrô, resolvi voltar e ir até o tal do primo rico ver se conseguia mais um significante pedido de cartões de visita.
            Quando cheguei em frente ao endereço, fiquei muito surpreso, pois eu estava em frente a um shopping, peguei o elevador e apresentei-me a secretária e ela pediu que eu aguardasse alguns minutos que ela iria anunciar-me ao próspero comerciante.
             Entrei e apresentei-me ao “Primo rico” do comerciante da rua vinte e cinco de Março e ele cordialmente perguntou-me:
- Quem enviou você até aqui? E eu contei toda a história dos cartões e que ele tinha um primo que vendia alguns carrinhos de plásticos e foi exatamente aquele primo que pediu para eu ir falar com ele.
O comerciante sorriu e levantou-se da cadeira e disse:
- Onde está este querido primo que não o vejo faz anos! Dei o endereço a ele e o comerciante encomendou quarenta mil cartões para uma nova loja que ele estava inaugurando sobre artigos exotéricos.
          Como o Luis, dono da gráfica não fazia aquele tipo de cartões encomendados, procurei um amigo que tinha uma gráfica com várias máquinas no Tatuapé e ele fez os cartões.
          O dono da gráfica do Tatuapé entregou os cartões ao rico comerciante e pediu para eu passar na gráfica para receber minha comissão e ele foi logo dizendo:
- Muito obrigado pelo pedido, quanto lhe devo?
Eu zombando, brinquei dizendo que precisava de dinheiro suficiente para comprar um bom celular, pois estava cansado de tanto usar meu simples “BIP”, ele sorriu e deu uma quantia que dava pra comprar dois celulares. E lá fui eu para a região da Rua Santa Efigênia comprar meu primeiro celular. Era enorme, parecia um tijolo, pesado, mas... funcionava!
            Sai da loja todo encantado com meu celular e liguei pra todos os meus contatos e acabei com todo meu crédito. A partir deste dia andava com meu pesado celular preso a minha cinta e sempre que precisava telefonar usava-o e ficava agradecendo aquele humilde camelô que tinha proporcionado tal conforto.
            Depois muitos outros celulares eu tive, mas este conseguido com uma brincadeira serviu-me de lição: Nunca duvide de uma pessoa por sua insignificante posição social, pois ela pode surpreender você a qualquer momento, assim como aconteceu comigo e a partir deste dia passei a não duvidar de mais ninguém nesta vida. E viva o Celular! 

LIBERDADE

  Há tempos que venho sendo acordado pelo mavioso canto de um pássaro na velha jaqueira existente no quintal da casa onde eu moro. Acordava,...